Point Of View Narrador.
Cecília atravessava o cemitério com passos contidos, um buquê de flores frescas apertado contra o peito. O céu estava nublado, como se também carregasse saudades. Era Dia das Mães, e aquele pequeno ritual, ajoelhar-se diante da lápide da avó, limpar a pedra com cuidado, conversar em silêncio, tornara-se sua própria forma de continuar pertencendo a uma história que parecia cada vez mais distante.
Ela se ajoelhou, sentindo o joelho encontrar o chão frio, e começou a passar o pano úmido pela superfície gasta da pedra. Os dedos, acostumados à rotina, tremiam discretamente. Colocou as flores no vaso de cerâmica ao lado e ajeitou uma das pétalas com delicadeza, como se a avó ainda pudesse vê-la.
O som de passos duros a fez levantar os olhos. Não precisou virar o rosto para saber quem era. O cheiro forte de álcool e o silêncio carregado anunciaram Daniela antes mesmo que a voz cortasse o ar.
— O que você está fazendo aqui, Cecília?
A filha não respondeu de imediato. Terminou de posicionar as flores, como se cada gesto servisse de escudo contra a presença materna. Mas Daniela não se deu por vencida.
— Você não tem vergonha? Depois do que ela fez comigo? — A voz saiu entrecortada, mais ferida do que agressiva. Mas ferida, ainda assim, era um corte afiado.
Cecília inspirou fundo. Sabia o que vinha a seguir.
— Só vim visitar a vó. É o que faço todo ano — disse, sem levantar a voz.
Daniela riu com amargura, e os olhos, mesmo turvos, estavam cheios de acusações antigas.
— Ela ficaria enojada com o que você se tornou.
Cecília levantou-se. A frase atravessou o peito como um estilhaço. Ela engoliu em seco, sentindo a garganta queimar.
— Eu lutei tanto pra chegar até aqui... Só queria que, por um instante, você me visse de verdade. Não como um reflexo do seu passado, mas como sua filha.
A resposta não veio. Só o vento entre as lápides, as folhas secas se arrastando pelo chão como lembranças teimosas.
Cecília virou-se e começou a caminhar, o coração acelerado. Passou pelos corredores silenciosos do cemitério com os olhos marejados, tentando fugir das palavras que pareciam colar na pele. A dor antiga de não ser suficiente, de nunca ter sido, voltava a pulsar como uma ferida que fingia estar cicatrizada.
Ao chegar ao carro, jogou a bolsa no banco do passageiro e respirou fundo antes de se deixar cair no assento. Encostou a testa no volante. Os olhos fecharam, e as lágrimas vieram com facilidade, carregadas de cansaço, mágoa e uma solidão que não admitia companhia.
Por alguns minutos, Cecília ficou ali, imersa no silêncio do próprio choro. Depois, como em um reflexo de sobrevivência, sua mente buscou refúgio nas lembranças da avó. O cheiro do bolo saindo do forno, os dedos enrugados trançando seu cabelo, a voz sempre firme dizendo: "Segue em frente, menina. Sonho bonito merece coragem."
As palavras voltaram como um abrigo. Cecília limpou os olhos com a manga da blusa, ligou o carro, e seguiu em frente. Dirigiu devagar, olhando pela janela as famílias que, como ela, vinham deixar flores e saudades.
A fragilidade da vida pesava no ar. E, por um instante, Cecília sentiu que talvez fosse esse o ponto: amar, mesmo sabendo que tudo passa.
Quando estacionou em frente ao prédio, o céu começava a se abrir em tons pálidos. Abriu a porta de casa e foi recebida pelo miado familiar. Perséfone, sua gata preta, surgiu entre os móveis, roçando nas pernas com aquela urgência silenciosa que só os animais compreendem.
Cecília sorriu. Acariciou a gata com carinho e sentiu o corpo, aos poucos, sair do estado de alerta. Sentou-se no sofá, ainda com o casaco, e pegou o celular. Precisava de uma voz amiga.
Discou para Thiago. Ele atendeu com aquela leveza que parecia nunca pesar.
— Oi, Ceci. Tudo bem?
— Não muito — ela respondeu, e sua voz quebrou na última palavra. — Minha mãe apareceu no cemitério... foi horrível. Eu me sinto tão perdida, Thi.
— Sinto muito, amiga... mas você sabe que eu tô aqui, né?
Cecília chorou de novo. Um choro mais calmo, menos solitário. Falou, desabafou. Thiago escutou com o cuidado de quem sabe que às vezes, ouvir é tudo o que se pode fazer. Quando desligaram, ela estava mais leve. A dor não passara, mas ao menos agora não parecia tão insuportável.
Ficou ali um tempo com Perséfone ao lado, o corpo da gata um pequeno peso quente contra sua coxa. Acariciou-a distraidamente e, depois, foi até o banheiro. Um banho longo, o vapor desenhando nuvens nos azulejos. Ao deitar-se, sentiu a textura dos lençóis, a maciez do colchão, e o conforto silencioso da noite.
Perséfone acomodou-se sobre seu peito. Cecília fechou os olhos. E então, como quem mergulha numa lembrança guardada, voltou à infância.
Era verão. A casa do tio tinha cheiro de manga madura e sabonete barato. Ela, Luisa, sua prima, e Helena, a amiga da prima, passavam horas no quintal, entre jogos de tabuleiro e filmes de terror assistidos sob cobertores com os pés gelados.
Mas era Helena que a fazia perder o fôlego, mesmo sem saber por quê. Naquela idade, o amor era uma coisa sem nome, mas já morava nos olhares demorados e nos sorrisos tímidos.
Lembrou-se de uma noite em especial. Helena, com os cabelos bagunçados e olhos sonhadores, dissera que queria ser cantora. Cecília escutava como quem ouve uma profecia.
Fazia anos que não sabia dela. Tinham se afastado, como tantas amizades da infância. Mas agora, deitada no escuro, Cecília se perguntava: E se? Teria sido diferente se tivesse tido coragem? Teria sido correspondida?
O coração apertou. Era tarde para reencontros, talvez. Mas não para decisões.
Ali, no escuro do quarto, entre o ronronar suave de Perséfone e o eco de lembranças antigas, Cecília prometeu a si mesma que não deixaria mais que o medo comandasse suas escolhas. Que ouviria, enfim, a voz da avó: "Sonho bonito merece coragem."
E então dormiu, com um leve sorriso nos lábios. Amanhã seria outro dia, e ela estava pronta para recebê-lo.
***
Caro leitor,
Gostaria de agradecer a todos que dedicaram seu tempo para ler minha história, assim, me motivar a continuar com ela.
Ainda sou iniciante, e sei que tenho muito a aprender e a aprimorar. Portanto, peço a paciência e a colaboração de cada um de vocês.
Novamente, meu sincero obrigada a cada um de vocês.
Atenciosamente,
- 𝐈 -
Twitter @ByKarma
ANDA SEDANG MEMBACA
Contra Todos.
Fiksyen PeminatQuando o destino traz de volta à cidade natal, depois de anos, a jovem Cecília, ela nunca poderia imaginar que encontraria seu grande amor do passado, em circunstâncias tão perigosas. Ao se reencontrarem na casa do tio de Cecília, elas descobrem que...
