— A mãe falou para você me levar à escola hoje.
Para o rapaz, aquela se configurava como mais uma manhã terrível. Tarefas que conflitavam com sua falta de coragem e síndrome de procrastinação o deixava irritado.
Sidney bufou deixando a mochila no canto da sala quando percebeu que mais um compromisso lhe havia sido atribuído. Na verdade, Sidney sempre reagia negativamente às suas responsabilidades, pois não era muito fã de fazer aquilo que não desejava.
— Eu acabei de chegar, é sério que vou ter que tirar o carro da garagem mais uma vez?
— Eu não tenho culpa de não ter 18 anos de idade e muito menos licença para dirigir. Isso não é problema meu, Sidão. Dá seus pulos.
Sofia direcionou um olhar debochado para seu irmão, enquanto retocava o rímel segurando um pequeno espelho redondo de moldura roxa.
— Você tem apenas 10 minutos para tirar o carro – disse Sofia ao se virar em direção à porta jogando levemente seu cabelo castanho escuro de lado. O corte chegava na altura no ombro.
— Eu já falei que você está horrível com essa coleira? – Sidney gesticulou apontando o indicador com a intenção de provocá-la.
— E eu já falei mil vezes que isso não é uma coleira! É gargantilha. – Sofia percebeu que seu irmão não lhe dera crédito mesmo depois de explicar pela milésima vez. Ela usava a corrente sob o pescoço e um casaco preto por cima de seu uniforme escolar estampado com o nome Francisco Leal – Não sei como ainda perco meu tempo com você. Vou te esperar lá fora.
Sofia se encontrava em uma daquelas fases "emo" na qual muitos adolescentes de 14 anos ainda têm, ou já tiveram experiência. A única diferença era que a irmã de Sidney se classificava como uma das pessoas mais sociáveis de sua escola. A garota possuía um metro e meio de altura e tinha sobrepeso. Ela possuía uma pele clara e sardas no rosto, completamente diferente de seu irmão.
Sidney tinha quase meio metro a mais do que sua irmã, era magricela e possuía a pele um pouco mais escura. Seu cabelo era liso-cacheado e sua barba estava por fazer. Não havia semelhança alguma com sua irmã. Sofia se parecia muito com a mãe, Denise, enquanto Sidney havia puxado traços de seu pai, Cícero.
Os irmãos Cavalcante residiam no Jardim Paulista, um bairro nobre da Zona Oeste, cidade de São Paulo, juntamente com seus pais. O rapaz tinha 18 anos de idade e estava no último ano do ensino médio. Ele havia reprovado no ano anterior por faltas e mau desempenho nas atividades. Porém seus pais não ligaram muito, já que o garoto fazia questão de não se importar com a opinião de ninguém. Sofia estava no nono ano do ensino fundamental com seus 14 anos que completara recentemente. Suas notas eram boas e seu histórico de comportamento apresentava reflexos positivos.
A escola de Sofia ficava há 10 minutos de casa, localizada em um bairro da Zona Sul, Itaim Bibi, na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Sidney seguia na Rua Maestro Chiafarelli pensando em uma discussão que teve com a namorada no fim de semana. Na concepção dela, ele era um cara extremamente controlador, mas Sidney odiava ser contrariado e quase nunca aceitava estar errado. Seu relacionamento estava por um fio, mas isso o incomodava porque gostava muito de Luna. Ela foi a única garota pela qual se apaixonara em toda sua vida. E sentia o mesmo da parte dela.
Sofia estava sentada no banco de trás do carro com a cabeça apoiada em sua mochila preta e roxa que quase dava metade de seu tamanho. Ela portava um fone de ouvido maior que suas orelhas ao som alto de High Hopes da banda Panic! At The Disco. Suas unhas pintadas de preto tocavam a capa do smartphone com leves batidas. Estava reflexiva.
— Dá para abaixar essa porcaria? – questionou Sidney olhando pelo retrovisor com uma careta.
— Disse alguma coisa? – retrucou ela ao pausar a música.
— Eu perguntei se dá para você abaixar essa porcaria?
— Segura a onda aí, Sidão. Não vou discutir com você, falou?
Ao virar à direita da Praça Dom Gastão Liberal Pinto, Sofia sinalizou para que seu irmão parasse o carro ali mesmo. Ao ser questionada do porquê, ela disse que combinou de encontrar alguns amigos. Sidney fez um simples interrogatório tentando mostrar desinteresse, mas havia uma leve preocupação. Entretanto deixou sua irmã ali mesmo e a vigiou até que ela encontrasse seus colegas.
— Fala, parceiro! – O rapaz tomou um susto ou ouvir a batida na janela do veículo e um brutamontes escorado sobre ela.
— Custava me chamar sem quase quebrar meu carro, Caio? – disse ele com a face amarrada, abaixando o vidro.
— Foi mal, Sid – respondeu o brutamontes abrindo a porta do outro lado sem ser convidado. – Mas você precisava ver sua cara de mocinha assustada.
Caio gargalhou como se aquela situação fosse a mais engraçada do mundo. Ele era alto, seu cabelo apresentava uma coloração amarela meio desbotada e seu físico era de atleta. Quase sempre estava tirando sarro de alguma coisa. Era conhecido por namorar uma garota a cada semana. Sid e Caio eram amigos desde a metade do ensino fundamental. Seu colega havia ingressado na faculdade de engenharia mecânica recentemente, mas essa sorte não havia recaído sobre Sidney, tendo em vista sua reprovação no ano anterior.
— O que faz aqui perto da Francisco Leal? – perguntou Sid, mas sem se importar com a resposta.
— Como assim "o que faz aqui perto da Francisco Leal"? O óbvio. Conheci uma garota da escola.
— Desse período? Sabe que à tarde só tem criança estudando nessa escola... aliás, você não estava com a Andressa?
— A Andressa é coisa do passado. E quanto ao meu rolo atual, relaxa, cara. Ela já tem 15 anos – Caio pegou uma latinha de Coca que estava em sua mochila e puxou o lacre.
— Cara, isso pode ser perigoso. Você já tem 18 anos! Essa garota tem idade para fazer parte do ciclo da minha irmã – Sid se revelou incomodado com aquela discussão.
— Para de ser paranoico, passou dos 15 já é mulher. E quanto à sua irmã, ela é como se fosse um homem para mim. Fica frio. Você pode me deixar ali na Avenida Brasil? Já me despedi da gatinha – disse o garoto após bebericar a latinha de refrigerante.
Depois de deixar seu amigo, Sid retornou para casa, se jogou no sofá e colocou um filme aleatório na Netflix. Ele dormiu na metade.
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A campainha não parava de tocar enquanto Sidney despertava do sono. Olhou em seu celular viu que já eram dezesseis horas e trinta minutos. Lembrou-se de que era dia de folga dos empregados e se levantou sonolento para atender.
Abriu a porta.
Cabelo black power, pele negra e olhos cor de mel. Usava um short jeans e uma blusa branca com poucos detalhes no decote. Seus braços portavam pulseiras coloridas e um par de brincos prateados estavam alojados em suas orelhas. Seu olhar expressava profunda tristeza e parecia relutar contra alguma coisa.
— Luna?
— Até agora sou a mesma pessoa, eu acho... – respondeu a garota com um sorriso desconcertado.
— O que você está fazendo aqui? – Sidney não conseguia esboçar nenhum tipo de reação com a presença de sua namorada, já que estavam brigados.
— A gente pode conversar um pouco, se não for te atrapalhar?
Um ar gélido, de repente, adentrou pela porta e as cortinas ameaçaram cair. Ao olhar para fora, Sid avistou algo totalmente branco no fundo do quintal, porém não tinha certeza se era alguém ou se aquilo fazia parte de sua sonolência ainda presente. Ele achou estranho o ar repentino, mas decidiu não comentar.
— Claro! Entre, por favor.
Após fechar a porta, a grama começou a balançar do lado de fora e a luminosidade ficara um pouco mais intensa. Será que isso ainda fazia parte da sonolência de Sidney?
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Bom, esse foi o primeiro capítulo. Se você chegou até aqui, não esquece da estrelinha e de comentar o que achou! Muito obrigado <3
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De repente Sidney
Teen FictionSidney reprovou no último ano do ensino médio e já não se importa com mais nada. Com um relacionamento líquido entre a família, vida amorosa por um fio e amizades que já não fazem mais sentido, Sid abre mão de vez do controle de sua vida e culpa tud...
