- Como? Ah, desculpa, padre, me distraí. O senhor perguntou há quanto tempo foi minha última confissão?... Não sei, padre. Tempo demais. Sei que eu pisei na bola. Esqueci quem eu sou, esqueci de tudo o que deveria fazer, esqueci do mundo. Pisei na bola.
Tudo começou em uma tarde meio feia, há um tempo atrás. Eu cheguei em casa exausto, depois de passar um dia no escritório resolvendo todo tipo de pepino chato. Estava chovendo, o pneu do carro tinha furado, eu estava exausto, com dor de dentes... Sabe aqueles dias em que tudo dá errado? Pois é. Era um desses.
Apertei o botão do elevador enquanto olhava a poça que estava escorrendo das minhas roupas. Tudo o que eu queria era um banho quente. Não, minto. Eu estava morrendo de fome. Queria comer alguma coisa e ir dormir.
Quando eu cheguei no meu andar - décimo segundo, alto pacas. Minha mulher acha chique passar duas horas no elevador até chegar em casa... - reparei que, é claro, tinha esquecido a chave no carro. Que beleza, que coisa boa. Tudo bem. É para isso que serve família, empregada, cachorrinho chato... É, padre, minha mulher tem um cachorrinho chato. Um Lulu da Pomerânia, só pelo nome já dá para saber que é um bicho chato.
Pois não é que quando eu toco a campainha me atende alguém que eu nunca vi mais gordo? Aliás, mais gordo não. Mais gorda. E de gorda não tinha nada. Tudo certinho, nos seus devidos lugares. Era a menina mais linda que eu já vi na minha vida, ao vivo e a cores, parada na minha frente abrindo a porta da minha própria casa. É, padre, era a minha casa mesmo. Eu até olhei para o número, como se precisasse. Aquela porta caríssima, cheia de ferros e vidros, a minha mulher fez por encomenda. Não tem igual, não. É que nem uma que ela viu em uma revista americana metida a besta, só que com umas letras que ela mandou botar no meio. É, lá estou eu me distraindo de novo. Desculpa, padre, mas a minha cabeça está meio confusa demais. Bom, se não estivesse acho que eu não estaria aqui, certo?
Mas aí, quando eu consegui abrir a boca, aquela menina falou. "E ela fala!", foi só o que eu consegui pensar. Pois falou, e se apresentou. Era, ela me disse, a namorada do meu filho. Camila. Nome besta, nome de travesti, não sei como uma menina tão bonita podia ter um nome desses. Mas tinha. Camila. Nome lindo, Camila. Ficou lindo de repente.
Quando eu consegui juntar as idéias, já tinha esquecido de banho, de comida, de sono, de tudo. Só queria saber como aquele moleque mal-educado que fica o dia inteiro trancado no quarto com uma plaquinha de do not disturb - em inglês mesmo, que ele afanou em algum hotel desses aí - pendurada na porta, como é que aquele menino tinha encontrado essa coisa linda que estava parada ali na minha frente. Parada e rindo. E rindo de mim, ainda por cima.
Também, eu estava fazendo outra poça, desta vez naquela bichice de carpete branco que a minha mulher mandou trazer - de avião! - da loja de um decorador lá de Nova Iorque. Eu sempre disse para ela que provavelmente aquela porcaria tinha uma etiqueta escrito "Made in Brazil" colada embaixo, mas ela não está nem aí. Se vem de Nova Iorque fica coisa fina, mesmo que tenha sido fabricado em Botucatu. Automático. Nova Iorque é chique.
Sim? Ah, desculpe. Mas aí, padre, eu estava lá pingando por todo lado, molhado que nem pinto na chuva, e aparece o meu moleque e puxa aquilo tudo pela mão, resmungando alguma coisa. Ela entra no quarto dele, ele bate a porta, e pronto. Acabou tudo.
Fui, tomei meu banho... É, padre, fiz besteira no banho sim. Não tem jeito, né? O senhor fica nessa caixinha escutando os podres de todo mundo, já sabe como é que quarentão safado faz. Pior que moleque adolescente. Aliás, o meu moleque adolescente estava fazendo pior que eu, só que de verdade e muito bem acompanhado, no banheiro do quarto dele. Dava para escutar o barulho pela janela. Como é que o senhor não puxa as orelhas dele? Todo domingo ele está aí tocando aquele violão dele na Missa. Deixa para lá, é inveja pura. Eu é que queria estar lá no lugar dele.
