Menina do Rosto Meigo

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"Eu queria tanto que você não fugisse de mim,

mas se fosse eu, fugiria"

16/04/2014 

6 anos Antes

Quando tá tudo indo bem, eu sempre tenho a sensação de que alguma coisa, no fundo, tá muito errada. Nada na minha vida tem dado certo, tudo parece estar desabando, vou me perdendo no meio de tantos problemas sem conseguir encontrar uma solução. As vezes choro só pra desatar o nó na garganta. Aquele choro segurei há muito tempo, que quando finalmente decide cair, é como se estivesse rasgando minha alma. Alguns deles não tem significado nenhum, são apenas lágrimas que precisam ser colocadas em dia, para poder me sentir bem novamente. Eu me olhei no espelho e reconheci o desespero, já havia passado por tudo aquilo antes, reconheci a angústia, a sensação de vazio no peito, o sentimento de que a qualquer momento fosse colocar todo o meu estômago para fora, eu reconheci tudo a minha frente, porém não me reconheci eu estava derrotado. Quando cheguei ao cemitério e reconheci aqueles rostos; rostos de pessoas que nunca nem se querer, ligaram para saber como estávamos, pessoas que nunca se importaram chorando no enterro do meu irmão, como se fossem próximos dele, ninguém ali o conhecia como eu, ninguém naquele maldito lugar sabia exatamente pelo que passávamos, a não ser eu. Todos aqueles rostos chorando por uma pessoa que nem se quer amavam. Porém tudo mudou no momento que eu a vi. Uma menina com o rosto tão meigo não deveria estar um lugar tão pesado como aquele, uma menina que parecia estar tão em choque quanto eu, alguém que naquele momento não derramava uma lágrima, mas que parecia estar sentindo dor, também assim como eu. Quando o enterro acabou parece que a porta do inferno se abriu e todo mundo naquele lugar quis me dar os pêsames, eu só queria sair dali, sabia que não aguentaria muito tempo com todas aquelas pessoas falando sobre o Maxon, como se o conhecem tão bem, eu já não aguentava aquela angústia, estava chegando a hora de desabar, e eu sabia disso. Me aproximei do carro e a vi, a menina do rosto meigo sentada na calçada.  Ela parecia não dormi há dias, assim como eu. Era a única dali que não estava chorando, mas também era a única que mesmo com o rosto apático parecia demostrar emoções mais sinceras do que todos a minha volta. A sensação de angústia me consumiu.  Pude sentir o olhar dela em cima de mim, enquanto me encostava no carro tentando normalizar minha respiração, quando me aproximei da menina do rosto meigo pude perceber as marcas recentes que ela carregava no corpo, provavelmente vítima de um acidente, já que alguns machucados ainda não tinham sido cicatrizados.

- Você está bem? - Perguntei me aproximando. Eu não esperava uma resposta, muito menos o sorriso que recebi. Chega a ser irônico perguntar a alguém isso em pleno cemitério.

- Estou ótima, obrigada.

Se o que ela fez não fosse uma mania minha também, teria passado despercebido o tremor na bochecha direita, sabe o que aquilo significava? Ela estava mentindo! Não sei o que aconteceu a ela, e muito menos o motivo de estar aqui, mas de uma coisa eu tenho certeza: ela estava mentindo para mim, e para si mesma. Sempre tive a mania de mentir para os meus pais quando me machucava, não gostava de dar trabalho para ninguém, até que um dia meu pai me disse "você sabe que eu sei quando você está mentindo não é? A sua bochecha te denúncia" A partir daquele momento passei a contar mentiras de frente ao espelho, até que um dia eu percebi que minha bochecha tremia toda vez que eu mentia, até hoje tento controlar isso. Acordei de meus pensamentos quando a menina do rosto meigo se levantou para ir embora, vê-la se afastar daquele lugar me causou um alívio repentino. Finalmente voltei para casa, para minha maldita casa, para o lugar cinzento da minha vida, e finalmente me permiti chorar, me autorizei colocar para fora cada angústia, cada dor, cada lágrima guardada. Eu perdi tudo, eu não tenho mais nada para lutar, eu não tenho mais ninguém a quem me segurar, agora restou apenas eu. 

Acordei com dor nas costas e percebi que não me encontrava na minha confortável cama, e sim no sofá da sala, cheguei tão cansado que acabei dormindo por ali mesmo, a dor de cabeça que eu sentia era sinal que a garrafa de whisky provavelmente estava vazia. A que nível da vida eu cheguei. Quando finalmente tomei coragem para arrumar a zona que estava a casa, me deparo com a porta do quarto de Maxon entreaberta, tudo estava do mesmo jeitinho que ele deixou, as roupas espalhadas pelo chão, o notebook jogado em cima da cama. Reparo no porta retrato em cima da escrivaninha, ele amava essa nossa foto, amava o fato de finalmente eu estar sorrindo logo após nosso pai morrer, logo sinto meu estômago revirar corro para o banheiro mais próximo e me debruço sobre o vaso sanitário colocando todo o whisky da noite anterior para fora. 

Os Dois Lados do AmorWhere stories live. Discover now