A inocência da descoberta

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Não sei bem por onde começar, mas talvez eu deva iniciar contando como eu próprio descobri que gostava tanto assim da fruta a ponto de comer até o caroço. Claro que, no começo, trata-se apenas de uma coisa informe, uma espécie de inclinação sem propósito. Depois, com a maturidade da puberdade é que passamos a entender melhor o grosso da coisa toda.

Enquanto crianças, somos todos muito curiosos, certo? Lembro que, às vezes, eu reclamava pra minha mãe dizendo que não havia nada pra fazer ou com o que brincar. Ah, se eu soubesse como era afortunado por poder falar tais coisas! Enfim, na dita falta do que fazer, eu costumava vasculhar qualquer coisa nova que aparecesse pela frente.

Numa dessas minhas andanças pelo desconhecido, me deparei com algumas revistinhas espalhadas sobre a mesa da cozinha. Neste dia, meus pais haviam saído para uma visita relâmpago na casa de meus avós e eu não quis ir, embora estivesse entediado.

Nossa vizinha sempre trazia aquelas revistinhas e ficava conversando com minha mãe por alguns minutos, nos quais eu sempre estava me distraindo com algo. Mas eu jamais tive acesso àquelas páginas, pois Geni - a vizinha - invariavelmente voltava para casa levando-as de novo.

Naquele dia, entretanto, Geni pegou minha mãe de saída e teve que deixar as revistinhas pra pegar no dia seguinte. E, assim, aquela novidade chegou até mim. Catei-as de cima da mesa e resolvi folheá-las no quarto. O dia já não seria mais completamente tedioso.

Escolhi a que tinha o nome "Avon" na capa, pois achava que era uma palavra bonita. Só em adulto é que fui descobrir que o nome da empresa fora inspirado na cidade natal de Shakespeare. Enfim, manuseava as páginas aleatoriamente, parando apenas naquelas que chamavam a minha atenção. Entre uma seção e outra, também trocava de revista.

Era magnífico olhar todas as coisas as quais eu achava que nunca teria: brinquedos supertransados, roupas estilosas com personagens, livros com títulos curiosos e objetos dos mais variados. Obviamente, não via graça nenhuma na parte de cama, mesa e banho. Na minha inocência de pré-adolescente, aquelas utilidades domésticas existiam apenas em um universo paralelo.

De repente, uma página em especial me fez abandonar meus devaneios. Eu adentrava a seção "masculino". Nela, havia vários produtos para adultos, como relógios, perfumes, carteiras, pulseiras e etc. Em quase todas as páginas, eles eram representados por meio de uma figura masculina, que os utilizava. A beleza de todas aquelas figuras era algo instantâneo, assim como o era nas figuras femininas. Apesar disso, eu sentia que algo vibrava diferente.

Só tive certeza mesmo quando, nas páginas seguintes, os produtos que estavam em catálogo eram cuecas e sungas. Por algum motivo que eu desconhecia, meu rosto ficara afogueado e eu sentira uma espécie de culpa. Era como se eu estivesse fazendo algo clandestino, fora da lei.

Então, com medo de que meus pais chegassem e minha mãe percebesse qualquer resquício da minha nova descoberta, fechei todas as revistas e as guardei novamente em cima da mesa.

Aquele segredo ficaria entalado na minha garganta pelos próximos dez anos.  

Onde o escritor se con(funde) com o personagemCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang