Hoje, eu estava arrumando meu quarto e encontrei finalmente minha cama (risos). Brincadeiras a parte, eu joguei muita coisa no lixo. Muitos papéis, cadernos velhos (do ensino médio ainda), mas também achei preciosidades que nem sabia por onde andavam, como um velho diário da adolescência. Abri e li, foi nostálgico, um relato ali me encheu de lágrimas nos olhos, era sobre meu amigo, Francisco, que tinha o apelido de Preto, meu melhor amigo naquela época, meu único amigo... Fiquei pensativo, lembrei de coisas que nunca ousei escrever.
Preto... quis o destino que nossas vidas se encontrassem, quis o destino que nossas vidas se afastassem... Não tenho nenhuma foto dele, as lembranças da adolescência vão ficando cada vez mais fracas, acho que isso também é amadurecer, substituir as lembranças. Porém, os últimos momentos que passamos juntos jamais sairão da minha memória, pois por muito tempo quis esquecer o que aconteceu, quis acreditar que não fosse verdade, e a própria existência de Preto já parecia fantasia depois de tanto tempo. Entretanto, aquele relato me trouxe de volta o que aconteceu realmente naquela noite, acho que chegou a hora de contar a verdade.
Eu morava numa cidadezinha do interior do Amazonas, no Alto Rio Negro, Preto era sobrinho da minha vizinha (na verdade acho que era só por consideração), sua mãe havia fugido com um garimpeiro, que supostamente era seu pai e nunca mais foi vista. Preto antes morava num sítio, mas agora ele iria morar na cidade para estudar. Na verdade, ele tinha vindo pra cidade depois de sofrer um acidente, onde levou um tiro acidentalmente de seu próprio tio quando foi confundido com uma caça, meio estranho, mas graças a Deus não foi grave e ele pegou alta logo. Foi depois disso que o conheci.
Em pouco tempo nos tornamos grandes amigos, eu tinha 13 anos na época e acho que Preto devia ter uns 14 ou 15, nós sempre estávamos juntos , brincando, pescando, andando de bicicleta, assistindo filmes em VHS lá em casa, éramos fãs de filmes de terror. Até o dia em que ele me chamou para pescar no sitio de sua tia, que ficava um pouco distante da cidade. Foram 1 hora e meia de caminhada pela mata até lá, iríamos voltar só na manhã seguinte, era um lugar assustador, parecia remoto e abandonado, havia um pequeno barraco no sítio que ficava à margem de um igarapé.
Preto havia me dito que tinha uns Lagos, onde haviam muitos peixes, mas que ficavam um pouco mais dentro da floresta, subindo o igarapé. Nós pegamos uma pequena canoa e fomos remando, pareceu uma eternidade, chegamos num local, descemos da canoa e ainda caminhamos mais, até encontrarmos um lago. Peguei um pequeno peixe e nada mais, Preto havia sumido de vista, gritei por ele e ouvi sua voz lá pra frente respondendo. Não queria admitir pra ele mas, eu estava com medo de estar ali sozinho, chamei por Preto várias vezes, até que ele apareceu com um sorriso no rosto, percebendo meu medo, me senti mal por isso, por eu ser um medroso, mas eu era apenas um pré-adolescente.
Seguimos de volta à canoa, eu usava uma sandália havaiana, que já havia arrebentado e eu tinha colocado um prego pequeno embaixo, era muito comum fazer isso pra sandália durar um pouco mais, eu nem lembrava que minha sandália tinha um prego. De repente, escorreguei e a sandália sacou de novo, Preto riu de mim, mas estava pronto para me ajudar a se levantar, foi quando olhei para meu dedão do pé, o prego estava quase todo encravado em minha carne. Eu dei um grito, gritava pra ele tirar aquilo do meu pé, era mais medo do que dor. Preto aguentou o riso e me acalmou, disse que ia contar até três e ia puxar, ele começou a contar "1... 2...", e puxou o prego. Não doeu, ele me ajudou a levantar, eu estava envergonhado com o que aconteceu e pedi para Preto não contar a ninguém, acho que meu grito de adolescente havia saído agudo demais.
Enfim, peixe que é bom eu só havia pego um, e, àquela altura, não estava mais tão animado, meu dedo não sangrou muito, mas doía. Preto insistiu pra eu usar a sandália dele, que estava acostumado a andar descalço, eu aceitei. Ele disse que tinha um lago mais pra frente onde ninguém andava, que lá sim eu ia pegar muitos peixes. Eu confiava nele e lá fomos nós, de fato pegamos mais peixes e montamos o acampamento antes do anoitecer, mas eu estava era preocupado com os perigos da floresta, mesmo Preto dizendo que ali não tinha onça nem nada.
À noite, assamos os peixes, eu adorava aquele clima de acampamento ao redor da fogueira, o cheiro da fumaça. Preto, então, ficou diferente, um tanto melancólico, disse que eu era o irmão que ele nunca teve e que tinha raiva da mãe dele, por tê-lo abandonado, achava que ela já estava morta e que era melhor assim, pois ele nunca soube quem era seu pai, diziam que ele era filho de boto. Preto cresceu com essa mágoa, disse que talvez fosse melhor que sumisse da vida de todos pois, nem sua tia gostava dele. Eu disse que não, que haviam pessoas pra quem ele era muito importante, que gostavam dele, como eu, pois antes dele não tinha nenhum amigo. Preto sorriu discretamente e eu sorri também, nunca tinha tido aquele tipo de conversa com ele. Me levantei e lhe dei um abraço, o único abraço que já lhe dei. Estava tarde e fomos dormir.
No meio da noite ouvi um barulho estranho, como se fosse barulho de alguém mexendo em um pedaço de carne, falei com Preto, que estava na rede ao meu lado, mas ele não respondeu, encostei nele e senti que algo melou minha mão, acendi a lanterna, era sangue. O medo me possuiu, iluminei Preto, só havia a metade de baixo de seu corpo no chão. Aterrorizado, com lágrimas nos olhos, foquei para todos os lados e não vi nada, peguei o que sobrou do meu amigo e levei para a canoa.
Remei o mais rápido possível em direção a uma luz que avistei, parecia ser uma casa, consegui chegar lá e gritei pedindo socorro, cachorros quase me morderam. O morador saiu com uma espingarda nas mãos e me embaralhei todo para falar o que aconteceu, disse que meu amigo tinha sido comido por algum bicho e que o resto do corpo dele estava na canoa. Fomos até a margem do igarapé, mas não havia canoa alguma lá. Presumi que, como não havia amarrado, a canoa desceu igarapé abaixo. Pegamos a canoa do senhor da casa e fomos descendo o igarapé, até que avistamos alguém de canoa, vindo em nossa direção, nos aproximamos para pedir informação, e, qual não foi minha surpresa: era meu amigo Preto, vivo e inteiro.
Eu quase desmaiei de medo, o dono da canoa ficou muito chateado, achou que estávamos pregando uma peça nele, tive que voltar na canoa com Preto, só nós dois.
Preto falou pra eu não ficar com medo, eu não conseguia dizer nada. Paramos em nosso acampamento e Preto parecia se despedir de mim, seu rosto estava muito aflito. Então, ele começou a passar mal e vi que ele estava sangrando, achei que de fato ele havia sido atacado e ferido, mas não morto. Talvez tudo aquilo tivesse sido coisas da minha mente assustada. Tentei ajudar ele, Preto sangrava pela barriga, parecia haver um corte que só aumentou.
Preto aguentava a dor, eu fui arrastá-lo de volta para a canoa, mas olhei horrorizado quando ele partiu ao meio. Eu estava em pânico e larguei ele. Preto começou a se debater, sua face se deformou, seus dentes cresciam, pernas de animais começaram a aparecer no ferimento. Ele estava se transformando em alguma criatura horrenda de dentes terríveis, rosnava alto. Quando as forças voltaram para minhas pernas consegui fugir dali na canoa, remei desesperadamente até o dia amanhecer, cheguei na margem do igarapé em algum lugar e desmaiei exausto.
Quando acordei eu estava confuso, no hospital, os meus pais estavam ao meu lado. Perguntei a eles sobre Preto, mas eles não sabiam nada, disseram que ficaram muito assustados quando não voltamos pela manhã, que fui encontrado por uns pescadores e esperavam que eu contasse o que aconteceu. Eu contei tudo, desde o início da pescaria, da divisão de Preto ao meio e da criatura que ele se transformou, mas ninguém acreditou em mim. A polícia foi ao local onde disse que ficou a metade do corpo de Preto, mas nada foi encontrado, chegaram até a cogitar que eu havia assassinado ele.
A tia de Preto ficou preocupada com seu desaparecimento, mas só no começo. Duas semanas depois as buscas cessaram, um mês depois do ocorrido, sua tia quase não lembrava mais dele. Todos preferiram ignorar e esquecer tudo que falei, como se fosse até para me proteger de alguma forma. E foi assim que vi meu amigo Preto pela última vez, ele nunca mais apareceu, nunca mais havia falado sobre ele. Acho que nunca soube realmente quem ele era.
Eu me mudei, agora moro na cidade grande, muito longe da cidadezinha do interior, da minha infância. Sua lembrança agora me parece apenas uma névoa, mas que nunca se dissipa. Já se passaram 20 anos desde aquela pescaria. Tenho saudades.
Fim.
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A Última História de Pescador
Mystery / ThrillerUm jovem relembra a última pescaria com seu melhor amigo, onde aprofundam sua amizade e segredos ocultos foram revelados.
