Anota aí, foi tudo causa de mágica, coisa de outro plano, acredite, não sou poeta e por isso não minto, também não sou crente. Se me perguntarem, vou afirmar sem dúvida que a causa é mágica.
-sim, mas não sei se isso é bastante convincente para se colocar no jornal.
-Você leu tudo que eu escrevi? É ou não coisa de mágica?
-Já disse que acredito nessas coisas, não acreditáveis. Mas talvez tenha quem não acredite.
-Quer que eu minta? já te disse que tudo começou naquele período do luto da minha esposa. Perdi o gosto da comida. Bem naquele momento do luto em que o espírito anda numa corda bamba, que se desprende a vida da felicidade e você assiste em preto e branco à sua própria realidade como se fosse um DVD passando na televisão. Aquele momento em que há um buraco em cada um de seus dois pés e, mesmo sabendo que não é sonho, almeja que seja. Bem nesse estreito da vida, eu tava lá bem espremida entre a tristeza e a melancolia querendo sentir o gosto feliz de ver ela do lado direito da cama, lendo seu livro favorito...
Nesse momento, fui tomar café da manhã antes de ir para o restaurante e não senti nem gosto do café nem do pão. Mas havia dois buracos nos meus pés. No restaurante não consegui sentir gosto de nada. Minha comida ficava ou insossa ou muito salgada ou muito ardida ou muito doce. Tinha sumido, assim, completamente. Eu só sentia se era quente ou frio, mas nenhum tipo de gosto. O problema é que o gosto não voltava. fui a médicos. Não tem nada nos exames, dona. os dias, apesar de quentes, nublados e eu Não conseguia sentir o gosto sequer do meu cigarro.
Numa dessas esquinas, encontrei uma cartomante ou vidente, sei lá o que era. Entrei para ver. Nunca fui dessas moças impressionadas com a vida que acredita em qualquer bobagem que dizem por aí. Mas eu já não tinha mais o que esperar da vida, era isso ou me humilhar em alguma igreja que promete milagre por 20 conto. Entrei lá, 15 conto, olhei nos olhos dela, as unhas vermelhas, a sombra exageradamente azul, o pó branco, o coque alto no cabelo, me parecia de respeito. Bateram na mesa quando coloquei o primeiro pé, ela disse que já me esperava e, antes mesmo de sequer abrir a boca e dizer qual era o meu problema, ela disse que eu precisava fazer um chá de erva simples, com as ervas que eu tivesse em casa mesmo, mentalizando aquilo que eu precisava.
- pediu o que?
- a paz mundial de certo, no outro dia tinha tigres e crianças com laços na natureza, o mundo virou um panfleto de testemunhas de Jeová.
- seria bom, na verdade você poderia...
- eu não queria paz mundial, queria sentir o gosto do meu café. Onde já se viu uma dona de restaurante que não sabe se a carne está no ponto certo do sal? Peguei o pão que estava ali na mesa há dias e coloquei na boca. mastiguei. experimentei. e nada. Não deu certo. Safada! aquela velha safada. Depois de tudo, ainda acredito que ela seja uma velha safada, isso sim. Não deveria ter pago aqueles R$15.
Não senti nenhum gosto, nenhum. Não tinha dado certo. Peguei o papel mais próximo para tentar remarcar a consulta médica e, quando digitei os números telefônicos, comecei a sentir um salgado preto retangular. Sabe? Um gosto quadrado, parecendo que tinha juntado a queimadinha da pontinha do macarrão e mastigado junto com cravo-da-índia. Sabe o que eu estou dizendo? Esse gosto na minha boca. Pensei que era o gosto voltando de novo. Pensei, suspeitei. Mordi de novo o pão. Nada. Escrevi o nome do doutor e...um gosto de hortelã, fresco. Dr. Alberto escrito no papel. Corri, peguei um caderno: pudim de leite condensado. perfeito, sem nenhuma bolhinha. Lasanha à bolonhesa: parecia que eu tinha colocado duas colheradas de lasanha na boca. Incrível. Mordi de novo o pão. Nada. No papel: Pão de queijo, dois copos de café: delícia. Mordi de novo o pão. Nada. Velha desgraçada, fez a simpatia totalmente ao contrário. Paçoca, café, pão, pão com presunto, mussarela, pão com ovo, presunto, mussarela, café, café com leite, cappuccino, morangos, morangos podres. Ai, que nojo.
So sentia o gosto das palavras. todos os gostos das palavras. Quando eu escrevi o nome dela, eu senti doce, mas não tão doce, perfeitamente doce, com notas frias lá no fundo, uma castanha. Escrevi o nome dela de novo e de novo e de novo e de novo e de novo. Escrevi todas as palavras do mundo, todas. Copiei o dicionário à mão e senti o gosto de todas as palavras do mundo: dor- me lembra um pouco de blueberry, imediatamente doce, com um toque de licor. Paralelepípedo: um gosto muito rápido e seco, parecendo farofa com pouca gordura. Experimentei todas as palavras, combinações de palavras, e o nome dela repetindo várias e várias e várias e várias vezes. Voltei na cartomante,ou vidente , não sei, não tinha mais cartomante, ou vidente, não sei. peguei um livro de literatura, copiei as poesias do Pessoa no café da tarde, chocolates frutados com café. Manoel de Barros, meio amanteigado, meio biscoito que se faz no quintal na fazenda da vó. Comecei a escrever as minhas próprias poesias também. Essa daí que eu te entreguei.
Imagino um gosto que eu preciso, um gosto que me faz levitar, e começo a escrever. Daí, porque o nome de cada poesia é o nome de uma receita. Gosto muito de bolo de chocolate. Que era os bolos favoritos dela. Meio amargo. Não muito doce, ela nunca gostou de nada muito doce. Por isso que eu repito o nome dela várias e várias e várias vezes e nunca enjoo. O bolo de chocolate, minha amiga, é essa poesia que você tanto gostou. é dela. São palavras comíveis, não são? Palavras comíveis. Eu sinto o gosto das palavras, mas eu quero que você também sinta, que mastigue cada palavra, entende? Por isso vim trazer as poesias para publicar no jornal. Daí você se impressionou com as poesias que você mastigava na boca e te contei a verdade. Coisa de mágica, né? Eu não sou poeta, eu sou cozinheira. Eu cozinho as palavras também. Mas, acredite ou não, elas acontecem aqui na minha boca.
Três semanas atrás, eu te vi sentada na varanda escrevendo alguma coisa pra esse seu jornal. Pensei: ela pode entender de palavras. Me encantei de fato com seus olhos castanhos. Que nem castanha de caju. Castanha de caju. talvez escreva alguma coisa sobre castanha de caju. Mas gostei mesmo que você gostou de experimentar todas as minhas palavras e toda poesia que eu te entreguei. É de fato Uma poesia que se come, né? Escrevi seu nome também. Acho que gostei do gosto.
- Que gosto tem?
- Amêndoas
A jornalista soltou um sorriso liso, que escorregou entre o estreito da tristeza e melancolia e os buracos nos pés e o chocolate meio amargo e as borboletas que voam no estômago, ela se levantou pra pegar mais um punhado de papel. A cozinheira pegou rapidamente o café que esfriava na mesa e lá estava ele de novo, o gosto amargo e quente da vida saltitando no céu da boca.
