O Rolex falsificado marcava seis horas da manhã, a fila na estação de metrô era interminável, centenas de pessoas esperando para serem levadas a seus respectivos serviços, escolas, faculdades e ocupações diárias. Carmen mais uma vez estava nela, o uniforme , com cores azul, preto e branco e bordado de andorinha, denunciava seu trabalho no hotel Austrey, este conhecido por se localizar em frente a praia de Copacabana, um bairro turístico e atração para viajantes do mundo todo. Dado seis e meia, o metrô chegou, quase que carregada pela multidão ela entrou porta a dentro, e permaneceu na mesma posição, não se podia escolher sentar ou se mexer, a lotação era tanta que a viagem teria de ser feita desta forma mesmo. Da estação próxima a comunidade da Rocinha, local onde morava, até o hotel dava trinta e cinco minutos de viagem, neste meio tempo ela não gostava de olhar ao redor, colocava uma boa música e seguia em frente, naquele dia a escolhida era a cantora Iza, o bit ressoava fortemente em sua cabeça, chacoalhando os pensamentos. Quando a playlist musical chegou ao fim, ela sabia que tinha chego a seu destino, tinha programado para acontecer exatamente isto, desceu do metrô e seguiu em direção as escadas que dariam a rua. Os funcionários deviam entrar pela área de serviço, a porta era cinza e tinha uma placa no topo indicando o local, entrando por ela passou reto pelos acessórios de praia destinados aos hospedes, e no fim do corredor encontrou a sala dos funcionários. O gerente a recebeu com um cigarro na boca: - Bom dia Carmen, minha querida e mais bela camareira, chegastes pontualmente de novo, está querendo um aumento é isso? Deixando a mochila, que estava carregando, de lado e pegando café ,respondeu friamente ao gerente nojento: - Eu já te disse que não quero que fale assim comigo, e sobre o horário repito, dependo do metrô e as vezes vou chegar antes ou depois, então não precisa se preocupar sobre aumento algum, só estou vindo trabalhar...E se continuar me assediando assim, vou ter que contar ao Reginaldo, você não quer isto não é ? Agora insatisfeito, o gerente se levantou e saiu falando: - Não precisa ficar estressadinha, é só brincadeira. Carmen respirou profundamente e revirando os olhos dizendo para si mesma que ele era só um velho machista e babaca, mas inofensivo.
As oito em ponto o serviço começava de verdade, ela devia se destinar aos quartos e limpar os mesmos que estivessem com a plaquinha pendurada na maçaneta, de acordo com o cronograma do hotel, devia limpar o quarto e quinto andar, justamente os mais lotados. O quarto número 401 era o primeiro do andar, mas algo estava estranho, a porta estava aberta e um ruído saia do mesmo. Como se diz:’’ A curiosidade matou o gato’’ e os humanos também.. nos dias de hoje, como uma jovem curiosa, Carmen adentrou o quarto seguindo o misterioso ruído, e após poucos segundos estava diante de um mancha negra na parede da sacada, um líquido da mesma cor escorria pelo chão, não se avistava malas, nem vestígios de que alguém estivesse dormindo naquele quarto, tudo estava arrumado e comum, tirando é claro a mancha. Que merda é essa?! Como assim?! Só acontece comigo essas coisas, só pode , pensou ela . Aquele cena estava nojenta, mas algo a chamava para mais perto, não era uma voz, se assemelhava mais a um imã de humanos, se isso existisse é claro, mas como o mesmo funciona, ela foi seguindo as ‘‘ondas magnéticas’’ e entrou ao poucos, primeiro os braços depois o resto do corpo todo. O que ela sentia naquele momento, era um aroma adocicado, tão doce que sufocava-a, e um som semelhante a gritos, gritos de dor e agonia somados a uma música de época. Assim que passou pela mancha, chegou em um corredor comprido, muito comprido, com muitas portas, uma diferente da outra, como se fossem feitas por pessoas diferentes, as luzes piscavam e haviam mariposas negras voando próximas a elas. A ‘‘sensação de magnetismo’’ continuou atuando sobre ela, sua única reação essa seguir em frente, não conseguia falar, gritar , nem mudar de rumo, porque eu entrei aqui? Sou idiota, pensou.
Quase quinze minutos depois, ainda estava naquele corredor assustador, mas agora sentia se livre, como se o imã desaparece-se. A porta a sua esquerda era rosa com borboletas lilases , e tinha um nome escrito com letras infantis, Ana Clara. Muito curiosa, Carmen abriu a porta e entrou no quarto, ali jazia um menina de cabelo raspados, camisola hospitalar, e vários fios estavam conectados a ela, estava deitada em uma cama de hospital e ao notá-la a menina lhe interrogou: - Quem é você? Por que entrou no meu quarto? Gaguejando ela respondeu: - Sou.. sou a Carmen, e .. e não queria incomodar, mas que lugar é esse? A garota arrancou os fios do braço, levantou-se e foi em direção a ela, Carmen paralisada com tudo aquilo permaneceu imóvel , a menina a olhou de cima a baixo, e parou em seus cabelos dizendo: - Seus cabelos são como as ondas do mar, e tem a cor da terra dos sitio da minha vó. Esse lugar? Coitada, entrou no Refúgio e nunca mais vai sair, entrou porque hein? Por onde veio? Cada vez mais confusa, não sabia o que responder, foi puxada para lá e agora nem sabia o por que de ter entrado, mas o que mais a intrigava era o fato de dentro do quarto da menina terem outras várias portas, cinco no total, então perguntou sobre elas: - Para onde leva essas portas menina? Brincando com o acesso nos braços ela respondeu: - Senta que eu vou te explicar, não vai entender nada se ficar só fazendo perguntas e não tendo as respostas para elas. Fazendo o que a menina mandou, ela sentou na cama e ficou esperando ela esclarecer tudo. Sentada no criado mudo ela começou: - Você está no Refúgio, como o próprio nome diz, se trata de um refúgio para as almas sofredoras, eu por exemplo, estou aqui a três meses, eu acho. Antes de vir para cá, estava internada no Hospital Estadual para Pacientes com Câncer, em estado terminal por causa da leucemia, sofrendo antecipadamente a morte. Ouvindo atentamente a explicação, Carmen fez sinal para ela continuar, e ela o fez: - Deve estar se perguntando como eu vim para cá...bom, eu estava deitada lamentando tudo quando um homem vestido de preto surgiu no meu leito hospitalar e me disse que eu poderia vir para cá ao invés de morrer. Ele me falou também que aqui, eu poderia ter tudo que eu quisesse: brinquedos, doces, amigos e etc...mas teria de deixar meus pais e minha família para trás. As portas são a única coisa que deixa que eu os veja, elas estão ligadas a espelhos, portanto eu os vejo mas eles não me veem...e aquela passagem ali leva as minhas coisas, as que eu pedi. Então ela perguntou: - Então você mora aqui agora? Mas como você tem amigos? .... E tem como sair daqui ? A menina agora andou pelo quarto, cantarolando alguma música, e ignorando completamente Carmen, entrou em uma das portas, deixando ela sozinha naquele quarto bizarro. Neste momento um homem alto, de quase dois metros de altura , vestido com um terno impecável e sapatos Louis Vuitton, rosto pálido e pele quase que transparente, apareceu na sua frente, em sua mão carregava uma pasta de escritório, como se fosse um advogado. Ele apenas lhe disse: - Olá Carmen, percebo que encontrou meu caminho. Assustada com a figura do homem, que cheirava a morte e ao mesmo tempo doces, e que parecia ter saído de um filme terror, ela não conseguiu dizer nada, sentiu seu corpo enfraquecendo e a consciência sumindo.
KAMU SEDANG MEMBACA
O HOTEL AUSTREY
Misteri / ThrillerSe trata de uma crônica, onde a personagem Carmen era apenas um jovem moradora da comunidade da Rocinha, e camareira em um hotel, quando sua vida muda bruscamente.
