O início

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Pedro acorda de uma bebedeira e se depara com um lugar diferente. "Meu Deus, como vim parar aqui? Acho que devo ter bebido muito, isso sim". Doía a cabeça, o corpo, até a possível culpa daquilo que não vinha com a memória, mas surgia como um ingrediente tirânico do coquetel caótico de bebida, farra e sexo da noite anterior. "Nunca senti isso..." dizia. Sentia uma ansiedade que arrebatava o corpo ainda arquejando por continuar deitado. Abria os olhos vagarosamente. sentiu as costas reclinadas em uma rede. Nem tudo isso podia ser só resquício de uma noite de farra com os amigos. Tinha coisa nova ali, mesmo que não parecesse.

Tudo era estranho e esvoaçado. E não era só porque a vista estava embaçada. A rede era cor laranja com uns bordados brancos e bem trançados. O lugar parecia ser um sítio. Do quintal aberto pra mata fechada era só a cerca de arame farpado o que separava. Uma névoa branca cobria toda parte. A impressão de Pedro foi a de estar, praticamente, dentro de uma nuvem. Era possível enxergar a porteira e, mais à frente, o início de uma estrada mas não se conseguia enxergar onde aquele caminho ia dar. 

Havia dormido abraçado com um litro de cachaça amarela e, ao seu lado, um cinzeiro em cima de uma mesa redonda de madeira. "Quer dizer que bebi tanto que até cheguei a fumar? Eita! Isso nunca tinha me acontecido não, viu."  Não conseguia reconhecer nada naquele lugar, nem havia ninguém ali. Estava só. Aparentemente entregue à qualquer sorte. Sentiu um embrulho no estômago e foi, bem devagar, levantando. “Nunca mais que bebo desse jeito! Como que pode uma coisa dessas? Nessas horas não tem amigos por perto!”. Após levantar-se com a força do ódio, da raiva e do resmungo procurou alguma porta ou janela que pudesse estar aberta, já que dormira na varanda; nada! Estava realmente tudo vazio.
  
Apesar do medo, da angústia de estar perdido em um lugar totalmente desconhecido, Pedro nota que aquela casa tinha traços muito familiares. Lembrava a de seu avô, Silvério, um homem que morava na serra. Era desse tipo de ancião que deixava fumo pro caipora e guardava espingarda embaixo da cama na noite de lua cheia. Morreu com quase cem anos e na paz de uma manhã colorida pelos flamboyants mensageiros do verão. As janelas eram de madeira, as portas também, a varanda praticamente circunda a casa, até as gaiolas de passarinho em cima de uns móveis velhos que ele, praticamente, entulhava perto da porta. enfim. Julgou estar em algum lugar do interior da cidade e, antes de esforçar a memória para lembrar, resolveu bater à porta e vê se alguém o atendia.
  
- Olá. Tem gente aí? - Ninguém respondeu. A porta de entrada ficava praticamente ao lado da rede onde acordara. Tanto as janelas quanto as portas eram feitas de madeira. Tinham também um verde meio desbotado e rachado pelo tempo e pelos cupins. Tudo estava trancado. Tentou novamente umas três vezes. Nada. O silêncio só foi quebrado por um vento frio, vindo não sei de onde. Era como um vento mensageiro. Com ele, veio uma voz de mulher. Era como um sussurro frio e cortante. Nunca havia sentido tamanho constrangimento ante o desconhecido. Simplesmente paralisado, Pedro ouve a voz responder:
  
- Não tem ninguém aí. Nesse lugar, tudo o que existe é pra ser deixado. O que interessa mesmo é andar.

- Como assim? -respondeu Pedro, acreditando piamente que iria sair dalí direto para um manicômio. Continuou, então, tagarelando perguntas. - O que você quer dizer com isso? E quem é você? Você existe ou eu que tô doido da cabeça? 

-Depende. Você acredita na voz que vem de dentro de você?
  
- Que voz? Bem, se você quer dizer a voz das minhas paranoias, então não. Nunca me levaram à muita coisa. A última vez que inventei de fazer isso levei foi um par de chifres. Mas você tá aí no meio do nevoeiro?
  
-Eita. Acho que vou ter trabalho contigo, viu?
  
-To começando a ficar aperreado. Eu morri? 

-Sabia que eu teria trabalho.

-Ora. Ou eu morri ou tô doido. Falando com uma voz que nem sei se existe.

-Mas é claro que não morreu! Nem morte, nem desencarno. Tu só tá perdido, ora!
  
Pedro, à essa altura, já procurava de onde estava saindo aquela voz. Primeiro ficou fazendo volta pela varanda. Depois correu de uma ponta à outra do quintal que  circundava a casa, mas não conseguiu vê nada. Chegou certo ponto em que sentiu pesar o corpo, fosse a ressaca ou a adrenalina, parecia vê tudo girar por um momento. Até que se viu ajoelhado no chão de areia do quintal daquela casa. O sol não chegava e as névoas ainda esbranquiçavam boa parte do lugar. Ainda ajoelhado, ouvia da mata:
  
-O que você tem? Tão novo e tão eufórico. Correndo como se estivesse perdido, sendo que a estrada é logo ali na frente. O que tá acontecendo?

- Não sei, nunca me senti assim. Acho que você me dá medo.

-Eu te dou medo? Acha que quero te levar pra algum lugar ruim? Por que pensa assim?

- Não sei o que pensar!! Me sinto preso de tal maneira que nem consigo lembrar o que aqueles idiotas do Guilherme e do Rafael fizeram pra me deixar aqui, perdido.

- O medo é seu. Ninguém lhe trouxe aqui.

Pedro e a Estrada Serpentada Donde viven las historias. Descúbrelo ahora