Ela se levantou muito cedo, 4h40min da manhã. Tomou um banho rápido e um café preto com alguns biscoitos. Em seguida, se arrumou, colocou a mochila nas costas e seguiu para a floresta, como fazia quase todos os dias. Em meia hora de caminhada, já podia sentir os primeiros raios solares, surgindo por entre as frestas das copas das árvores.
Havia chovido bastante no final da tarde do dia anterior, por isso o chão, acumulado de folhagens e terra, estava muito liso. Mas ela já estava acostumada com a região. Conhecia bem o local e o perigo escondido por trás daquela imensa beleza.
A floresta era o seu verdadeiro lar, e nada lhe acarretava mais prazer do que trabalhar no meio da mata. No entanto, era preciso conhecer as espécies residentes na região para exercer suas atividades com mais segurança. Coisa que ela aprendera desde muito jovem, com seu pai e avós. Conhecia de cor os animais e seus hábitos alimentares, assim como as espécies mais ativas durante o dia e os que preferem caçar à noite. Grande parte dos animais mais perigosos da selva amazônica tem hábitos noturnos. A onça-pintada, considerada como um dos maiores e mais perigosos predadores da Amazônia, tem uma mordida tão forte que pode até atravessar o casco de uma tartaruga. E come de tudo, desde roedores até macacos. Quando está com muita fome, pode atacar até cobras grandes como a sucuri. Um verdadeiro perigo! Todavia, esse é um dos animais que preferem caçar à noite, por isso o risco de ser atacado por uma onça faminta durante o dia era bem menor, embora não fosse totalmente impossível. Outros animais como cobras e jacarés também não gostam muito de se expor durante o dia.
Como cuidado nunca é demais, ela aprendeu desde cedo a sempre prestar muita atenção quando saltava sobre troncos caídos, já que cobras costumam se enrolar por ali.
Sua avó costumava lhe dizer que, durante o dia, o maior perigo estava mesmo em animais pequenos, como vespas, aranhas, escorpiões e lacraias, já que suas picadas, muito embora não sejam fatais, causam muita dor.
As formigas também estão por toda parte da floresta. São centenas de espécies. Uma das mais perigosas são as tucandeiras: formigas negras e brilhantes, grandes e geralmente solitárias, cuja ferroada é extremamente dolorida. Ela fora picada por várias delas quando tinha treze anos de idade, e ainda era capaz de lembrar da dor como se tivesse ocorrido no dia anterior.
Outros animaizinhos que também podiam incomodar um bocado eram os mosquitos, carrapatos e micuins, já que causavam coceiras e irritação na pele. Para evitá-los, ela usava calças compridas por dentro das meias e botas, além de camisa de mangas longas por cima da regata e dentro das calças. Usava também um bom repelente natural, extraído de sementes oriundas da floresta, e um talco contendo enxofre, que ajudava a prevenir o ataque de micuins.
Naquele momento, porém, seus sentidos apontavam para algo que ela não sabia exatamente o que era. Virou o rosto várias vezes para trás a fim de sondar se algo ou alguém a seguia. A impressão é que estava sendo vigiada desde que se embrenhara na mata; contudo, apenas os barulhos de pequenos animais se movimentando entre as árvores, do farfalhar das folhas das copas das imensas árvores e de seus próprios passos chegavam aos seus ouvidos. Já tivera aquela mesma impressão em outros momentos, nunca encontrando nada que pudesse lhe oferecer maior receio.
Talvez fossem seus ancestrais indígenas acompanhando e protegendo todos os seus passos na selva, pensou, embora, como cientista, questionasse os mitos e as crenças não só de seu povo, como também de todas as religiões do mundo. Pois sabia que o conjunto de estórias que eram sempre utilizadas para explicar a origem do homem e os fenômenos da natureza, que se baseavam ainda em feitos e façanhas de deuses, semideuses e heróis, tinham apenas a intenção de tentar entender algo que até bem pouco tempo não se conseguia explicar: a vida humana e de tantas outras espécies. O que Açucena não conseguia negar é que naquele lugar parecia haver uma força tamanha que era impossível não se sentir como uma minúscula parte de algo muitíssimo poderoso.
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Natureza Selvagem (Capítulos para degustação)
Mystery / Thriller"'NA ÍNTEGRA ATÉ 20/12/15'' Você curte romance policial? Gosta de histórias cheias de aventura, suspense e uma paixão proibida e avassaladora? Se sim, então leia Natureza Selvagem! Você vai se encantar! Importante: A obra Coração Selvagem ESTÁ REGIS...
