Eles.

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Houve um tempo em que eu acreditava em tudo. Em mentiras, em promessas, em destino feito por nós mesmos, em estrelas cadentes, em sorte e azar, mas uma pessoa mudou isso em mim, mudou o que eu pensava sobre tudo, minha visão sobre o mundo, mudou meus planos, meus princípios e verdades, meus desejos e vontades, mudou minha vida, me mudou. Eu acreditava que nós fazíamos o que quiséssemos, mas aprendi que nada é por acaso e que tudo acontece por uma razão.

Ele era uma pessoa comum, no início. Não era importante, não fazia falta, mas isso mudou, e talvez tenha sido a melhor coisa que já me aconteceu... Eu passava por ele, na rua ou em qualquer outro lugar e o cumprimentava apenas por educação. Era quase todo dia, em quase todo lugar pois morávamos perto um do outro, já havia me acostumado com sua presença. É assim que uma amizade começa, mas não foi assim que terminou.

Dávamos as mãos, como um gesto simples de carinho, que para nós era comum, nos abraçávamos sem malícia, conversávamos sobre toda e qualquer coisa, frequentávamos um a casa do outro, sempre. Todos comentavam e estranhavam, mas nós não nos importávamos.

Certo dia, depois de tantas conversas, ele me perguntou algo que nunca havia perguntado, me assustei, não com a pergunta, mas com a forma como perguntou. Ele costumava falar num tom de voz baixo, mas sussurrou a pergunta, com a cabeça abaixada, sendo que tinha o costume de olhar nos olhos da pessoa com quem conversava, quem quer que fosse ela. Ele disse:
- Você já amou alguém? - Apesar de estar espantada, minha resposta foi sincera:
- Não - disse observando seu rosto. Queria que aquela imagem ficasse para sempre em minha memória. Quando foi que eu olhei para ele assim? Quando foi que eu procurei imperfeições nele, e não encontrei?

Como é que eu nunca notei suas sardas claras, o formato de sua boca ou a mistura de verde e caramelo que seus olhos tinham? Como foi que eu nunca notei sua beleza? Ele era lindo, incrível e absurdamente lindo. Eu queria poder ficar ali para sempre, olhando-o sob a luz clara do crepúsculo. Suas bochechas coraram, e eu percebi que aquele silêncio já estava constrangedor.

Quando cheguei em casa, naquela noite, subi as escadas sem hesitar e fui direto pro meu quarto. Imersa em pensamentos, deitei na cama, afundando o rosto no travesseiro. O que estava acontecendo comigo? Senti a necessidade de ouvir a resposta de alguém, do meu melhor amigo, talvez. E assim fiz, liguei para ele. Ele atendeu rapidamente, com a voz rouca. Não disse nada, simplesmente tinha travado. Ele também não disse nada. Até o som do silêncio era constrangedor. Eu quase pude ouvir seus pensamentos, junto a sua respiração.

Queria perguntar mil e uma coisas, mas um nó se formou em minha garganta, depois de minutos, consegui falar.
- Como é amar? - perguntei num sussurro fraco e rouco e foi meio estranho perguntar, e um silêncio cruel preencheu o ar e eu queria acreditar que o som que rompeu esse silêncio, não era o som das lágrimas dele.
- Ouvi falar que é estranho e realmente é. Ouvi falar que a gente perde o chão, que é como se um abismo tivesse se aberto abaixo dos pés.
- E é assim? - perguntei.
- Comigo foi diferente, foi como se, pela primeira vez, o chão estivesse ali, como se eu soubesse que poderia caminhar sem que nada me derrubasse.
- Quem é ela? - me arrependi de ter perguntado. Ele soltou um suspiro pesado. Pude sentir a dor dele. Nós tínhamos algum tipo de conexão. Se ele sofria, eu sofria também e vice-versa. Não tinha como evitar. Silêncio novamente, e ele desligou.

Meus joelhos cederam e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Não tentei controlar, apenas voltei para a cama e abracei meu travesseiro. Percebi, então, que não era o travesseiro que eu sentia a necessidade de abraçar. Eu não tinha idéia do que estava acontecendo comigo, mas eu sabia que queria tê-lo por perto, para que ele pudesse me abraçar e confortar, com uma intensidade que nunca desejei antes. Eu já estive apaixonada antes, mas nunca foi assim, tão forte a ponto de sentir que eu poderia morrer. A vontade de tê-lo comigo, quase me fez levantar imediatamente e ir atrás dele. E então eu adormeci. No outro dia, acordei com olheiras profundas e pesadas. Havíamos combinado que nos veríamos nesse dia, como de costume. Eu estava tão feliz, tão animada com a idéia de que veria ele novamente que, depois de passar horas em frente ao espelho, achei que estava realmente bonita.

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⏰ Last updated: Dec 04, 2014 ⏰

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