O Filho do Mar

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Sozinho em seu bote sobre o vasto mar de sua terra natal, velejando pelas águas abandonadas pelos marinheiros e comerciantes de seu povo, um jovem encontra-se seguindo um caminho sórdido e imprevisível.

Quanto mais se distancia da areia cinzenta da praia, mais se aproxima dos destroços de barcos antigos. Com calma o viajante coloca sua mão sobre a superfície das águas negras que cercam a si e seu bote, tocando não apenas a maré mas também as ruínas do passado que estão ao redor.

Imerso na própria falta de esperança o até então misterioso menino decide apenas se sentar e contemplar o que estava a vir em sua frente sem pensar muito sobre si, e como ultimo ato deixou que sua mão continuasse ao lado de fora da balsa para que ainda sentisse o pranto do oceano.

O mar logo deixou destroços para manchas negras sobre sua superfície, uma substituição notável que logo é perturbada pelas ondas causadas pelo barco do viajante, e dessas ondas o negro é afastado revelando que ainda havia o azul do oceano escondido no meio de tanta escuridão.

Caminho longo e melancólico, a trajetória que não podia ser parada e logo acaba sendo aceitada por quem a segue, mesmo demonstrando ser cruel desde seu inicio, o filho do mar anseia pela chegada ao seu destino sabendo que pode não ser tão feliz quanto a esperança de achá-lo.

Logo uma nevoa o cobre como um cobertor, sua visão é tampada pelo branco e suas narinas se congelam com o frio que vinha do norte, saindo finalmente de seu estado de cansaço enquanto esperava chegar em seu destino. Decidiu-se abraçar a si mesmo e juntamente a isso deixou que lagrimas caíssem de seus olhos machucados pelo frio.

O amanhecer veio como uma benção, a luz que vinha do sol não apenas iluminava a visão do jovem como também o esquentava do frio que as mares traziam ao seu bote; a luz se mostrou uma esperança e uma força para o viajante que o fez olhar para o corpo de água que o cercava.

O trajeto é longo e silencioso, o único som que pode ser escutado é o de sua própria respiração e pensamentos que se tornam cada vez mais cansados ao cair da noite. Mais uma vez colocando sua mão sobre a superfície do mar, o jovem nota que a água está mais grossa e que mudou desde o inicio, não só sua cor, que deixou de ser o negro do abismo para o verde do musgo.

A noite chega mais uma vez e dessa vez a nevoa não estava presente, porém o mar se tornou turbulento a ponto de fazer o bote virar.

Lutando para não afundar, o filho do mar usa toda sua força para segurar o bote virado, mas acaba não sendo o suficiente, já que sentia que uma força maior o puxava para baixo, decidindo então soltar a embarcação que acaba pairando sobre ele.

Afundando e afogando sobre o mar esverdeado, visões de sua vida foram passadas, o acorrentando e estrangulando até que sua força fosse tomada totalmente de seu corpo e logo toda a pressão que as memórias o causavam foram dispersas por um abraço carinhoso, o entregando conforto sobre as águas e logo depois decidiu fechar seus olhos e aceitar o que estava por vir.

De pouco a pouco a agonia se tornava um alivio, a água que invadia seus pulmões fazia soltar aquilo que sentia para o nada. O filho do mar agora estava deixando o seu ressentimento e culpa sair com o oxigênio de sua boca ferida, juntamente a bolhas de ar que carregavam dor e angustia.

Sendo puxado até o final, ali estaria em seus últimos momentos.

Sozinho porém livre de si mesmo, antes de finalmente fechar seus olhos um sorriso de leve se formou como forma de agradecimento pelo fim de seu sofrimento.

Agora ele estaria junto aqueles que mais amou.

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⏰ Last updated: Mar 28, 2020 ⏰

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