Libertação

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Nada mais podia salvar sua alma de tal inquietação. Os dias já não soavam como antes. Janela adentro, pouco importara qual estação estivesse, a sua chama ardente já não alumbrava as ruínas do seu coração, fora partido com um só golpe da mais afiada esmeralda. Nada parecia fazer sentido, na verdade, o sentido já não era visto desde que toda essa tormenta começou.

Tiron, era como o costumavam chamar. Esse nome já não mais era usado, também fora esquecido assim como todas as outras memórias. O menino só buscava a liberdade, buscava um local seguro, já que sua própria mente não era capaz de prover.

Ele sai de casa furioso, sem um destino, e dessa vez não promete para si mesmo que deve voltar. O relógio da capela soa alto, são seis horas, tempo que costumava inundar seu quarto e encher sua fértil imaginação com sentidos que já não o orientavam para local algum. Ele só buscava viver.

Atravessa a rua, mais um pingo, dessa vez não é sangue. Torna-se o centro das atenções. Uma senhora se arrisca ajudar, mas não tem certeza do que o garoto pode fazer, recua. Ele anda com a cabeça baixa, segundo ele, é porque os olhos já não suportam o brilho de Gulfport, mas no fundo, é só porque o brilho já não é mais capaz de iluminar o menino que um dia sonhou ser. Passa por uma poça, a água ofusca sua visão, pupilas explodem ao ver o reflexo de si próprio, e todo o tremor chega nas suas pernas, elas não tem mais força para sustentar tanto medo. Ele se ajoelha. Água e lágrimas se unem como uma amarga aliança.

O medo passa, não é hora de ficar chorando – ele pensa. O menino se levanta, dessa vez não traz consigo a pureza que sempre teve. Ele segue andando, mais à frente há uma linha de trem. Relembra dos seus momentos com a sua vó, onde foram passar um tempo juntos, pela última vez, para uma aclamada cidade ao leste de Neville. Sua memória não teve coragem de apagar tal sentimento, um dos poucos que ainda resguarda forças para permanecer vivo.

Ele não tem força para falar, mal sabe como está andando, mas é possível ouvir um grito, e ele não vem de sua boca. Sua mente o assusta novamente. A tempestade se aproxima, é possível ouvir raios, dentro e fora do seu corpo, a diferença é que os de fora não machucam tanto. Ele começa a correr. Cachorros uivam e latem incansavelmente para os vultos do menino, ele se assusta. São só animais inofensivos, e ele sabe que no fundo nada era capaz de assustar mais que ver a si mesmo.

As luzes da ferrovia reluzem sobre o asfalto molhado. Ele está perto, mesmo estando tão longe do que esperava alcançar. Ele se senta sobre a linha do trem. Pode parecer perigoso para muitos, mas para ele é só uma libertação. Ele tem tempo, mas nem tanto, o trem das sete horas estava a caminho. Seus neurônios parecem borbulhar e seu corpo e alma derretem como o cálido vapor da locomotiva. Ela estava longe, mas o barulho já era perceptível, e ele soava como uma grande canção de ninar.

TironOnde histórias criam vida. Descubra agora