- Foi uma época de muita luta e sofrimento, o povo queria mudança, os nossos Governantes acharam que iam nos manter acorrentados eternamente, mas estavam errados, todos os trabalhadores se uniram e fizeram uma grande greve. Todos se recusavam a trabalhar, ameaçaram cortar o pouco de comida que recebíamos (seus restos), mas para quem já vivia na miséria isso não fazia tanta diferença, se fôssemos morrer com fome que seja ao menos lutando por um futuro melhor...
Não adiantou, óbvio. Os Governantes arranjaram um jeito de nos punir, eles criaram uma doença. Nós a batizamos de "Karb" o sobrenome do Governante principal. A doença foi espalhada ao redor do muro, transmitida pelo ar, não demorou muito para que todos os moradores (ou a maior parte deles) estivessem contaminados. Controle populacional? Ta mais para um "aviso".
O Igor Karb fez um discurso dizendo que faria o possível para ajudar seus "tão queridos moradores", ele não nos deixaria só, iria colocar seus cientistas para trabalhar dia e noite em busca da cura, claro que com toda aquela tecnologia disponível seria fácil ludibriar a população, ainda mais se o criador dessa doença fosse ele mesmo. Foi feito um plano para melhorar as nossas condições de trabalho: diminuindo nossa carga horária de 12 horas para 8; ganhamos o direito a atendimento médico, somente em casos graves (mas pode-se dizer que todos os casos eram graves já que tínhamos diversas doenças em consequência do contato diário com a extrema radiação solar e a poluição do ar, para as quais não haviam nenhum tipo de proteção); agora não teríamos que revirar suas latas de lixo em busca de alimento, daquele momento em diante passamos a receber uma "cesta básica" por mês, que continha sacos de nutrientes, proteínas, sais minerais e outras coisas necessárias para se manter saudável, tudo isso para quê? Para que tivéssemos mais energia para trabalhar, mas a maior parte das pessoas não perceberam e ficaram felizes com essas mudanças.
Esse plano inventado por Karb foi nomeado de "Plano de Melhoria da Convivência", uma ótima estratégia em um momento de trevas para acalmar a população e mostrar que tínhamos tantos direitos quanto eles e que todos nós éramos iguais, até parece... - deu uma risada fraca, carregada de um certo gosto amargo na boca que o lembrava da época difícil que teve que enfrentar.
- Então por que o povo não disconfiou dessa doença? Ou dessa ajuda do Governo que veio tão de repente? - questionou Keron, sua neta, com grande curiosidade.
- Para alguém como nós toda a ajuda é bem vinda, não importa se ela vem das mãos de Karb ou não e isso é o que todos pensam, mas você deve discordar. Não deve aceitar tudo o que lhe dizem, sempre questione a realidade ao seu redor e, se puder muda-la vá em frente!
- Chega! - a colher de pau bateu com força na panela - Já disse que não gosto que toque nesse assunto! Não quero que coloque minhocas na cabeça de Keron.
- Mas, mãe...
- Nada de mais! Esse assunto está encerrado por hoje. Agora Keron me ajude com a janta, pegue o K3B para eu terminar aqui com a comida.
- Sim mãe - disse sem empolgação.
- Não se preocupe - disse o avô num sussurro - terminaremos isso mais tarde. Ela deu um sorriso, ele também.
• • •
- Então vô, continua! Por que ninguém desconfiou da doença?
- Bom, estamos acostumados a viver nas piores condições e, ficar doente não é uma novidade para nós não é mesmo? Mas, parece que nem todos perceberam que naquela época foi o Governo que criou aquela maldita doença! Poucos foram capazes de enxergar a verdade diante dos próprios olhos e eu fui uma delas.
- Como vou saber se o que está acontecendo é verdade ou não?
- Você vai saber, algo vai parecer errado e acima de tudo, a sua intuição vai lhe dizer.
- Entendi. Vô, você acha que a mãe ficou muito brava com a nossa conversa de hoje?
- Não, ela só não quer que eu te incentive a ser como eu e que você tente mudar tudo o que há de errado nesse mundo. E você sabe, ela sente muita falta da vovó, que infelizmente se foi por conta daquela doença dos infernos!
- É... - disse em um tom triste.
- Mas não é hora de falarmos sobre isso e sim hora de dormir, boa noite mocinha - disse depositando um beijo em sua testa.
- Boa noite vô.
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O outro lado do muro
General FictionDepois que a humanidade reduziu o planeta Terra a cidades cinzentas e sem oxigênio o ser humano não aguentou e partes do corpo como pulmão, coração entre outras foram sendo substituídas por mecanismos robóticos de alta qualidade para executar a funç...
