Era uma vez um príncipe...

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Jonas olhou diretamente para Peter buscando algum sinal de arrependimento ou até mesmo medo. Nada. Bom, medo ele não encontraria mesmo, afinal não era algo que Peter costumava sentir.

– Como assim abdicar? – Jonas finalmente conseguiu perguntar. Sua voz soou fraca e trêmula e ele sentiu horror de si mesmo. Por que não podia ter a mesma confiança e coragem do primo?

– Renunciar ao trono que é meu por direito, Jonas. Entendeu agora? – o rosto de Peter, de repente, se tornou sombrio. Aquela não era uma decisão fácil, ele não havia tomado da noite para o dia e esperava encontrar no primo – e a quem considerava seu melhor amigo – alguma compreensão. Jonas, porém, continuava olhando para ele como se não o conhecesse, os olhos arregalados. Agora parecia furioso e Peter desconfiava do motivo, na verdade... sabia o motivo. Jonas era o próximo na linha de sucessão.

– Entendi. – falou entre os dentes – Mas é tão absurdo que ainda não consigo acreditar!

Peter havia sido preparado para se tornar rei a vida toda. Aulas de esgrima, etiqueta, dicção, política internacional, economia, literatura, arte... tudo que você puder imaginar. Eram os seus passos que eram vigiados e controlados; seus gestos treinados e medidos e, desde a adolescência, era incessantemente fotografado pela imprensa sensacionalista mundial. Ele era a esperança de modernização da monarquia, o melhor exemplo de que reis ainda podiam ser relevantes e ótimos governantes. Era uma propaganda ambulante do sistema monárquico.

Jonas ficava à margem.

Era dois anos mais velho que Peter, mas o terceiro na linha de sucessão por ser o único filho de Teresa, a irmã mais nova da Rainha Cristina. Ele entendeu cedo que podia ter o melhor dos dois mundos: era um duque, mas sem as obrigações limitadoras do herdeiro do trono. Tinha liberdade para fazer o que quisesse desde que não despertasse atenção pelos motivos errados. Por isso evitava beber em público, não se metia em escândalos, namorava pouco. Cumpria com bastante profissionalismo e simpatia suas obrigações de caridade, serviu ao exército sem reclamar e, assim, conseguiu o que queria: fez medicina e agora trabalhava no Hospital Real de Clairmont. Chegava a tirar três férias por ano e tinha mais dinheiro do que conseguia gastar. Adorava sua vida: era tudo previsível, despreocupado e agradável. E se Peter abdicasse, bom... Ele seria o rei! Aquela ideia o deixou imediatamente apavorado.

– Não é absurdo... É inesperado, não absurdo. – Peter o corrigiu sério e continuou olhando-o tranquilo.

Irritante.

Jonas coçou a cabeça nervoso.

Ainda que ambos fossem altos, não se pareciam fisicamente. Peter era refinado, elegante; tinha um cabelo castanho escuro e liso que parecia crescer mais rápido do que o barbeiro real conseguia prever e pequenos olhos verdes que, às vezes, pareciam negros – como naquele momento. Seu queixo pronunciado lhe dava um ar severo e o nariz, quebrado pelo ex-namorado ciumento de uma cantora pop com quem ele saiu por um tempo, era ligeiramente torto (ele se recusava a procurar um cirurgião para corrigi-lo.). Mas o queixo e o nariz, que em qualquer outro homem pareceriam estranhos, nele, de alguma forma, se harmonizavam com a boca pequena e formavam um rosto muito bonito. Jonas era atlético e atraente de um jeito mais rústico. Tinha cabelos cacheados e olhos pretos e dava sempre um jeito de estar bronzeado, mesmo durante o mais rigoroso inverno. Quando sorria revelava perfeitos dentes brancos e seu rosto parecia se encher de luz e calor. Tinha o poder de mudar a energia de um ambiente quando entrava: tudo parecia se alegrar a sua volta simplesmente porque ele estava sempre de bom-humor.

– Sua mãe vai enlouquecer... – Jonas sussurrou e olhou para o jardim imenso que circundava o Palácio de Santa Efigênia, a residência de verão da família. A rainha estava em algum lugar lá fora, supervisionando a poda das árvores. Era provável que ela mesma, como era seu hábito, estivesse cuidando do plantio de alguma coisa nova e recém descoberta no universo das flores e plantas. Jardinagem era sua paixão.

A Rainha Cristina subiu ao trono muito jovem e ainda relativamente jovem experimentou a dor de perder a irmã Teresa e o marido, o Rei Otávio, em um atentado. Cuidou de Peter e Jonas e do pequeno reino de Clairmont com sabedoria, tirou-o de uma terrível crise financeira e transformou o lugar em um dos mais interessantes destinos turísticos do planeta. Clairmont era um paraíso com leis ambientais severas que mantinham suas florestas preservadas e suas praias limpas e, por isso, conseguia atrair visitantes o ano inteiro. Peter conseguiria fazer o reino ir ainda mais longe, todos sabiam disso. Era inteligente, audacioso, carismático.

E internacionalmente famoso.

Primeiro ganhou fama como atleta porque foi campeão olímpico de esgrima e, depois, como playboy. Agora, prestes a completar 25 anos, a fase da rebeldia e dos casos escandalosos com modelos jovens e famintas e cantoras sem talento pareciam ter ficado para sempre no passado. Ao invés de ser fotografado em festas em Hollywood, preferia viajar o mundo apoiando projetos de caridade e fazendo trabalho voluntário. Ainda assim, toda semana aparecia um boato de que ele se casaria com uma princesa ou que estava noivo de alguma socialite de descendência nobre.

– É por causa de alguma atriz?

– Não. – respondeu secamente e ficou encarando o primo. À espera. Sabia que Jonas compreenderia tudo em alguns instantes. E assim foi. Jonas olhou para Peter e, de repente, sentiu um aperto no peito. Naquele momento simplesmente soube... Soube o motivo da decisão e sentiu-se enjoado. Achou mesmo que fosse vomitar ali, no meio da sala de leitura, no tapete persa em tons de vermelho e dourado que sua tia adorava.

– Não faça isso! – ele virou de costas para Peter e dessa vez não conseguiu segurar as lágrimas. Será que Esther sabia? Desconfiava? Será que eles já estavam juntos? Sentiu a garganta queimar e uma leve falta de ar, segurou-se na mesa de carvalho e tentou respirar fundo. Alguma coisa dentro de Jonas sempre lhe avisara aquilo: Peter e Esther estavam destinados a ficarem juntos. Não era segredo para ninguém que eram apaixonados, ainda que tentassem disfarçar, até crianças perceberiam que ali havia Amor. Assim. Com letra maiúscula. Mas como não era possível, pois um herdeiro do trono de Clairmont não podia se casar com uma plebeia, ninguém se preocupava. Não havia pessoa mais decente e correta que Esther e Peter não ficava atrás. Levava muito a sério as tradições e seu papel de herdeiro. Jonas, sem saber entender direito o motivo, de repente se sentiu duplamente traído.

– Eu vou fazer. Só assim ela vai conseguir me levar a sério. – Peter se levantou, ajeitou o terno bem cortado no corpo e colocou as mãos nos bolsos. Os dois se encararam. – Eu vou abdicar o trono para me casar com Esther, Jonas. Esta decisão está tomada.

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