— Não volte tarde pra casa, Sam.
Era uma tarde de sábado, eu estava entediado em casa. Minha mãe era escritora e trabalhava em seu novo livro. Meu pai, está doente e passa o dia inteiro na cama se entupindo de remédio. Cancêr de pulmão. Era algo inevitável, eu já estava esperando por isso pois ele fuma desde criança. Já me conformei que iremos perdê-lo em breve, mas minha mãe evita pensar sobre para não sofrer antes da hora. Moramos em Saverywood, uma cidade pequena digna de filmes. 1007 moradores. Clichê e típico: velhinhas fofoqueiras ou bondosas demais, crianças estúpidas fazendo merda e adultos fingindo serem felizes com suas vidas miseráveis.
Eu tenho 14 anos. E tenho um grupo de amigos nada fora do normal: Fred, costuma ser o destraído e engraçado do grupo. ele é alto e forte, as vezes é desconfortável e sem noção. Joanna: a popular, bonita e gentil do grupo. Ela é baixa, branca, cabelos castanhos. Ela cheira a doce. July, a outra garota do grupo, tem uma paixãozinha pela Joanna. E acho que Joanna corresponde.
Não tem muita coisa para fazer aqui, mas chegou um parque de diversões aqui pela primeira vez e estamos todos muito animados para ir. Chamei Fred, July e Joanna para irem juntos e eles aceitaram. Combinamos de nos encontrar as 16h na porta do parque. Já eram 16h03 e eu estava saindo de casa.
Chegando lá encontro July e Joanna de mãos dadas. Nós do grupo achamos normal mas as pessoas nos lugares não. Afinal, estamos em 1987. July sempre foi mais aberta sobre isso. Joanna tem mais medo, a mãe dela não sabe de nada sobre isso ainda. Não falamos muito sobre o assunto.
— Oi Sam — diz Joanna pra mim assim que me vê e dá um sorriso simpático.
— Oi. Onde o Fred está?
— Já deve estar vindo, ele é sempre o atrasado né? — July diz.
— Falando de mim? — diz Fred, com três refrigerantes nas mãos e um pacote de balas.
— Eu só desculpo o seu atraso se esses refrigerantes forem para nós — digo.
— Claro que não é, Sammie. É para as gatinhas que eu vou pegar hoje.
— Só se for as idosas nas barracas de comida — July diz encerrando a curta conversa com o grupo todo dando risadas inocentes e entrando ansiosos pelo grande portão enferrujado com uma placa escrito com luzes brancas: WELCOME TO LIWERT PARK.
Sigo o resto do grupo enquanto bebo meu refrigerante. Observo ao redor e reconheço a maioria das pessoas que estão presentes: Tommy, o garoto da nossa sala cujo passa a aula inteira limpando os dentes com um palito, Maya, outra garota em que eu já tive uma queda. Tudo bem, talvez eu ainda tenha, mas nunca tive coragem de falar direito com ela. Desde que a conheci quando tinhamos oito, na escola, eu devo ter trocado algumas palavrinhas com ela e só. Ela nem deve saber quem eu sou. Mais alguns garotos que eu conheço de vista e grupos de adolescentes bebendo e fumando ou fazendo piadas escrotas.
— Nós vamos para a roda gigante — diz Joanna, se referindo a July.
— Oh. Que romântico. Quer ir comigo, Sam? — Fred diz pra mim com sarcasmo e uma cara fofa. — A gente pode se beijar lá em cima até a lua aparecer.
— Haha. Esquece Fred, sai fora. — Digo dando um soco de leve em seu ombro.
— Okay então, Mr. Hetero, vou ali dar uns amassos em umas xuxuzinhas.
— Ótimo. Vou ficar aqui e esperar até as gatas virem até mim.
Fred saí me deixando sozinho no banco perto da montanha russa. Que Fred é garanhão já sabemos. Na real, não acho que ele goste de garotos. Não de verdade, ele só brinca algumas vezes. Eu só beijei duas garotas até hoje: July e Tina, minha vizinha. Eu sei, estranho né? mas eu e July tinhamos 13 anos e July diz que gosta de garotos e garotas. July não faz meu tipo, mas não acho ela feia. Qual é? eu era um garoto desesperado que precisava trocar saliva pelo menos uma vez e ela se ofereceu pra ajudar. Ela tem o cabelo preto e liso e usa lápis de olho. É um estilo legal. Ela as vezes é julgada na escola por isso. Já esquecemos disso e fingimos que nunca aconteceu, ninguem do grupo sabe, não é necessário contar. Tina morou na minha rua até o começo desse ano. Estamos em julho e ela se mudou em fevereiro. Tinhamos uma amizade meio passatempo mas eu tinha uma pequena quedinha por ela. Nada sério. No dia de sua mudança, ela foi em minha casa e disse que sentiria minha falta e me beijou. Eu não entendi o que aquilo quis dizer, mas não importa já que ela se virou e foi embora. Pra sempre.
Sou interrompido dos meus pensamentos por um senhor familiar que aparenta ter 50 anos pra mais. Ele se senta do meu lado no banco comendo seu cachorro quente. Sua barba clara e grande se sujando de molho. O observo por um tempo e depois de alguns minutos ele olha pra mim e diz:
— O que está fazendo aqui sozinho, Jovenzinho?
— Esperando meus amigos.
Eu não estava afim de papo.
— Eles te abandonaram aqui?
— Não. Mais ou menos.
— Você não está aqui apenas para se divertir nos brinquedos, não é?
Me sinto desconfortável perto dele mas não o ignoro por educação.
— Hm. Bem, mais ou menos também.
— Vai falar com a garota, meu caro.
Olho para ele espantado.
— O quê?
— A garota pra quem você está olhando fixamente e babando — Ele aponta para Maya, que toma sorvete em um canto do parque sozinha.
— E-eu...
— Não perca essa chance, bonitão.
Em seguida ele joga o papel do cachorro quente no lixo e sai, com um pequeno sorriso no rosto. Velho estranho, mas nada anormal para essa cidadezinha. Encaro Maya novamente e penso por um instante até que decido ir até lá.
— Oi — falei, tentando parecer o mais descolado possível.
Ela olhou pra mim e sorriu.
— Oi.
E agora? eu não sei o que dizer, e agora e agora e agora e ago-
— Você é o Samuel, né?
— Sim — pigarreio — como sabe?
— Ah, ouço por aí. Eu sou a Maya.
Continuo em pé parado em sua frente sem saber o que dizer. Ela dá uma lambida no sorvete de morango com chocolate.
— Quer um pouco?
Me sento ao lado dela no banco e timidamente dou uma lambida. Ela sorri. Deus, como ela é linda. Os olhos verdes dela refletindo na luz fraca do sol. Sua pele limpa, seu cabelo loiro cacheado cheiroso brilhando e...
— O que foi?
Ela diz colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Oi? nada. É só que... que... você é... muito bonita.
Ela sorri de novo. As covinhas dela ficam evidentes.
— Obrigada.
— Então... você veio sozinha?
— Não. Minha prima, Tina, veio comigo. Ela está ficando na minha casa agora. Os pais dela sofreram um acidente e faleceram. Te apresento ela um dia desses.
Pensei por um momento: Tina? não. Elas não tem nada em comum, não poderia ser ela. Tirei essa ideia da cabeça, ela não voltaria pra Saverywood, era de família rica e tem parentes em lugares maiores que esse. Deve ser outra pessoa. Quando ela morava em minha rua ela nunca havia mencionado Maya.
— Ah. Você quer ir na roda gigante comigo? Quer dizer, já que Tina não está aqui eu pensei que...
Ela se levanta e joga os restos do sorvete no lixo.
— Eu... — Ela começa.
— COMO VAI MEU CAMARADA? — Fred nos interrompe, gritando e fazendo um movimento brusco nos braços. — July e Joanna já sairam da roda gigante. Estamos indo pra fila da montanha russa, você vem?
— Eh... eu ia...
Olho para Maya, que parece confortável com a situação.
— Tudo bem. Pode ir. Vou procurar Tina e mais tarde eu vou na roda gigante com você.
Eu me levanto, dou um sorriso e digo:
— Claro.
— Tenho que ir agora, tchau, Sam.
— Tchau, Maya.
A observo andando com seu cabelo comprido caindo e balançando nas costas.
— Pegou a gata, camarada?
— Cala a boca, Fred.
Ele envolve meus ombros com seus braços fortes e me guia até a montanha russa. Olho para trás mais uma vez.
Ela está na fila para o carrossel.
E essa foi a última vez que eu a vi. A última vez que eu a vi inteira.
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O Parque de 1987
De TodoMinha cabeça girava, minha respiração ofegante e uma profunda dor no peito. Angústia. Culpa. Não era para terminar desse jeito. Não era minha intenção nem nunca foi. Eu temia que isso acontecesse e agora não tive escolha. Sangue. Por toda parte. Em...
