Joy e ela

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- Pai, ela fugiu de lá! - Joy jogou essa notícia para seu pai como se não fosse nada. Seu pai, que não tinha ideia de como consolar o filho, apenas conseguiu abraçá-lo. Mas ele recuou de seu abraço e disse em um tom seguro:


 - Está tudo bem, pai. - Então se virou e, com um sorriso no rosto, foi correndo para o seu quarto. Ao fechar a porta, pegou seu celular e escreveu:


"Deu certo nosso plano, você chegou no esconderijo?"Depois de 5 minutos ansiosos, ela respondeu:"Deu, sim! Já estou no nosso lugar secreto!""Que demais. Papai vai achar que eu vou ficar em pedaços agora, mas vou mostrar para ele,como sou forte!""Essa é a ideia! Agora vá dormir, e não se esqueça de apagar a luz. Mostre como você já égrandinho." - Despediu-se a amiga de Joy.


Acordou todo pomposo, com o nariz empinado para ir tomar café da manhã e... de repente eleparou no corredor. Ouviu seu pai conversando ao telefone. Então, esquivou-se para trás,encostou sua cabeça na parede e fez um "C" com a mão em volta da orelha, para ouvir melhor.


- Sim, doutora. Ele disse que está tudo bem. Ontem jantou e até comeu o prato favoritodela sem chorar. Eu acho que ele está amadurecendo. Minha esposa disse que podeser um tipo de defesa, é verdade? Entendo. Está bem, obrigado por ligar, até maistarde. - Sem saber o que achar da conversa, deixando para pensar nisso quando fosse para a escola, Joy se levantou e foi andando normalmente para a cozinha comer seu cereal.

- Ah, bom dia, filho. Como você está?- Bom dia, pai. Estou muito bem e o senhor? - E sem esperar a resposta do pai, disse -Hoje posso ir sozinho para a escola? - Surpreendido com a pergunta, Isaque não soube negar para o filho, e com medo de machucá-lo negando sua vontade, autorizou o pedido.


Joy pegou sua bicicleta, montou-a e pedalou até que seu pai o perdesse de vista. Depois eledesceu do selim e foi andando até a sua escola. Ficou olhando para as árvores verdes e paraas pessoas caminhando sorridentes como se tudo fosse perfeito... logo, sentiu um aperto nocoração e previu que uma lágrima iria escorrer. Então, ele parou de andar e repreendeu a simesmo: Não chore! Mostre a ela o quanto você é forte! Ela não pode te ver assim, seja comoela. E com uma respirada profunda voltou a montar em sua bike e foi o mais rápido possível atéa sua escola.


Quando chegou em sala, sentiu que todos pararam de conversar e passaram a olhar para ele.Mas isso não o surpreendeu. Ele olhou para a carteira vazia encostada à parede próxima àjanela e sentou-se, como de costume, ao lado dela, sem falar nada.


- Joy, vamos jogar bola? Chamou seu amigo Jonathan, na hora do recreio, semexpectativas de que ele aceitasse.- Vamos!


Jonathan, surpreendido, entusiasmou-se com a resposta. Então, correram até a quadrapoliesportiva e pediram para entrar no time que estava jogando naquele momento. Novamente,todos fitaram seus olhos para Joy, que parecia já estar acostumado com essa fama. Eleapenas ignorou e perguntou se os dois podiam entrar juntos no time roxo. O jogo estava em umempate. O garoto jogava com toda sua força, pois se lembrava dos campeonatos que elaassistia, o assistia. Durante o segundo tempo, seu coração deu outro aperto... ele sabia o queiria acontecer, e sabia também que não iria conseguir ser tão forte como foi na rua.Então, num repente saiu da quadra e foi correndo para o parquinho dos brinquedos quebrados,onde ninguém ia. Seu amigo pensou em segui-lo, mas achou melhor deixá-lo sozinho.Então, ali, com toda a sua memória viva, Joy chorou. Seu primeiro choro após a morte dela. No meio das lágrimas, ele percebeu uma notificação em seu celular. Era uma mensagem.


"bem tudo, Yoj, Hey?".


Joy riu da brincadeira. Ele e sua amiga tinham mania de brincar de espelho e adoravaminverter as frases e, principalmente, os seus próprios nomes."Hey.", disse o menino."Vish, a coisa tá preta, vc respondeu com um ponto final! Vamos comer sorvete de gengibre?"Sorvete de gengibre era o código secreto deles para "vamos conversar", porque gengibre ardequando é mastigado, entretanto, faz muito bem à saúde, assim como uma conversa sinceraque lhe faz chorar, mas simultaneamente cura a sua alma."Fiquei com saudades... fui fraco e não consegui prender o choro."Então ela mostrou uma imagem de um herói chorando, o favorito de Joy."Se até a poderosa Viúva Negra chorou, quem somos nós para não derramar uma gotinha deágua com sal, não é mesmo?"Mas ele sabia que não poderia fazer isso agora, esse tipo de conversa exige muita energia etempo. E esses dois itens ele não possua no momento.Então decidiu se recompor e ir para a sala de aula. Durante as 3 matérias restantes semanteve quieto. Ao bater o sinal da saída, correu em direção ao bicicletário, recolheu sua bikee saiu daquela escola, de onde continha tantas lembranças.


"agora falar Podemos?" - Joy leu a mensagem e ignorou-a por dois minutos. Estava ansiosopor aquele momento, mas agora, de repente, estava com medo tanto das palavras que iriamsair quanto das que iam ser lidas. Quando enfim tomou coragem, desabafou:"eu to morto sem você. vc se foi tão depressa... desculpa por falar isso, eu realmente nãoqueria dizer isso, mas por que vc me abandonou? por que me deixou sozinho? eu só melembro do último beijo, o último abraço... e é isso que eu odeio, eu só consigo lembrar doúltimo! A dor me impediu de lembrar dos primeiros. eu te amo tanto, como você pode fazer issocomigo?"


Ele respirou fundo, e escreveu mais uma mensagem:"Desculpa, não é sua culpa. mas eu não consigo pensar em outra coisa... eu tento ser forte propapai, tento mostrar que superei, mas a verdade é que eu não sei mais como viver... tentolembrar das coisas que falava pra mim de como me chamava, de como vc era, de vocêsentada ao meu lado na carteira... mas não consigo lembrar nada disso, só lembro de vocêestirada no chão! eu não aguento mais essa dor, por que você não volta?? "


Joy largou o celular no chão após escrever tudo isso.

Não queria ler a resposta. Não queria e nem poderia.

Como?

Ler mensagem de quem já está morto?

Ele, relutante, pegou o celular de novo, entrou no setor de Entradas das mensagens e sedeparou com o que já sabia: não tinha nenhuma nova mensagem. Ele nunca havia recebidonenhuma notificação de ninguém. A sua mente o havia enganado. Em meio a esse momentocrítico, o pai de Joy chega perto dele com os olhos avermelhados:

- JOY, ENCONTREI VOCÊ!

Joy se cansou das mentiras e gritou:

- Eu não aguento mais, papai! Desculpa ser tão fraco e preocupar você! Mas eu nãosuporto mais viver sem ela!

Isaque o abraçou desesperadamente, como se estivesse impedindo de que Joy caísse em umamasmorra. E os dois choraram ali, juntos, pela primeira vez desde a morte dela.

- Eu também sinto, meu filho. Mas temos que lutar juntos. Lembre-se que ela sempre vaiser a sua melhor amiga, nunca se esqueça disso. Vamos superar essa dor juntos.

O pai o ajudou a se levantar e deu mais um abraço, como se fosse o último.

Como se Joy também fosse embora...

Joy começou a andar de mãos dadas com o seu pai, sentindo que poderia ter um novocomeço. Mas ele sabia que antes teria que despedir-se dela, por isso ele a chamou. E ela veio.Quando ele a avistou, não pôde acreditar: Estava bem na sua frente! Joy não aguentou. Soltoua mão de seu pai, e saiu correndo atrás dela. Mas quando estava a um passo dela, eladesapareceu. Seu momento de despedida findou-se sem nem começar. Foi quando Joy ouviuuma buzina forte bem perto de dele, olhou para trás de relance sem pensar muito e viu, comoos olhos fraquejados, um caminhão atropelar seu pai.

Ela e JoyOnde histórias criam vida. Descubra agora