Meu nome é Puck

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Olá! Bem, se eu estou falando com vocês, acho que sou o protagonista da história, né? Se bem que eu poderia ser o narrador, mas não creio que o narrador estaria deitado no chão com a boca toda ensanguentada depois de tomar aquele famigerado soco do seu melhor amigo. E agora vocês provavelmente devem pensar que eu tenho o pior melhor amigo de todos, mas é bem o contrário, ele acaba de salvar minha vida. De novo. Nós receberemos alguns castigos pela briga, mas não seremos aperitivos ao Rei. Muita coisa, né? Deixe-me tentar explicar.

Um pouco antes de ser acertado pelo meu melhor amigo eu estava criticando o nosso estilo de vida, pela milésima vez. Não consigo aceitar que seja certo tudo que nós passamos, tudo que todas as pessoas têm passado nas últimas décadas. Tipo, nosso Rei é um tirano (ele excluiu essa palavra do dicionário) da pior espécie, ele vive das riquezas produzidas pela população(talvez a maioria dos monarcas ou governantes de outra espécie sejam da mesma maneira), não faz absolutamente nada e pra piorar aquele inescrupuloso prega que a carne humana faz bem para sua juventude (acho que ele não conhece espelhos). Os cidadãos que ele chama de lixo tóxico, ou seja, todos que são contra ele e podem contaminar a população com ideias revolucionárias são condenados ao “Banquete” – os julgados (curiosamente sempre perdendo os julgamentos e sendo condenados) são servidos ao apetite do Rei. Sim, é bizarro, até pra nossa realidade.

 Acho que agora vocês entendem como um soco pode ter me salvado, né? Como eu disse anteriormente, isso já ocorreu inúmeras vezes, eu não consigo simplesmente ficar quieto e aguentar tudo, acho que eu tenho algum tipo de doença. Meus pais me disseram que sou curioso demais e faço perguntas demais e sempre me bateram muito por isso e me instruíram a ficar sempre de boca fechada. Nem é difícil cumprir o que eles disseram já que não tenho muitas pessoas para conversar - não que elas façam tanta diferença assim, eu aprendi a me acostumar - sempre me olham torto e evitam ficar perto de mim porque sabem que uma hora ou outra vou virar comida do rei e quem estiver perto de mim pode ser confundido como meu amigo, além disso não existe nenhum desafio inalcançável ou algo do tipo em ficar quieto, não é mesmo? Não é como se eu tivesse que enfrentar uma hidra ou alguma outra besta mitológica. Infelizmente eu só não consigo, funciono de um jeito bem objetivo, se eu tivesse um lema seria algo do tipo: “Vejo injustiça, critico injustiça” ou essa frase dita de um jeito mais poético ou com algum toque marqueteiro especial pra transformar isso em um lema de respeito. Ah, antes que eu me esqueça; não, não existe marketing no meu mundo, mas eu aprendi sobre algumas coisas do passado com alguém, mas vamos conhecê-lo logo.

Tenho o Dexter, meu melhor amigo que sempre me bate quando eu vou falar demais em público e está sempre comigo em todos os momentos e nas raras folgas consigo fugir da vista das pessoas para me encontrar com o Professor Teófilo Euclides(viram? Conheceram ele logo, antes do que esperavam, fala a verdade). Pena que ninguém mais o chama dessa maneira, sempre o chamam de velho louco ou de lixo reciclável, porque ele tem – sabe-se lá o porquê – uma proteção fornecida pelo filho do Rei, que não deixa que ele se torne banquete. Se as pessoas parassem alguns minutinhos para ouvir os ditos loucos da nossa sociedade, com certeza construiríamos um mundo deveras melhor. Fala sério, nós somos basicamente um amontoado de mão de obra semi-escravizada à disposição de um monarca de ego frágil, cercado e protegido por centenas de soldados e dos líderes de guerra mais poderosos e bem equipados de todo o mundo. Loucura de verdade é concordar em seguir esse script que nos foi imposto, um velho que anda na rua recitando poesias e falando sobre filósofos da Era Esquecida é o que temos de mais lúcido por aqui.

O professor Euclides me fala várias coisas de tempos muito antigos (Também conhecidos como Era Esquecida), não sei se são verdades, porque acho que nem mesmo ele é tão velho assim, apesar de parecer. Ele fala que houve uma época que existiam deuses que eram criaturas poderosas a quem os homens se curvavam, nunca consegui entender muito bem o conceito de Deus, mas acho que deve ser algo parecido com o que o Sr Einz significa para gente. Um cara inquestionável que está acima do poder do Rei e criou todo o nosso Universo como conhecemos e, segundo os nossos professores – ou seria melhor chamá-los de agentes de padronização – o Sr Einz nos salvou de todas as provações e mesquinharias da humanidade na Era Esquecida. Como ele fez isso eu não faço ideia, tudo que sei é que ele ganhou um status intocável na nossa cultura, ninguém nunca o viu realmente; mesmo assim todos os respeitam e baixam a cabeça para sua autoridade.

O que eu mais gosto nas conversas com o professor é quando ele me conta sobre uma parada chamada amor. Parece interessante, ele diz que o amor está adormecido, mas se erguerá das profundezas para salvar o mundo. Acho que ele tá ficando gagá, mas quem sou eu pra julgar, não é mesmo? Segundo ele amor é um sentimento, uma coisa que vem de dentro da gente e não é nenhum tipo de excreção, dá para acreditar nesse velhote? Que cargas d'água seria sentimento? Ele fala que é algo que a gente sente, mas por dentro? Fico pensando se é alguma dor de barriga misteriosa. Ele diz que um dia eu entenderia, mas não vejo como encontrar esse tal de amor se não tenho capacidade nem ao menos de calar a minha boca e não precisar ser salvo com pancadas todas as vezes.

E aqueles dois com roupa verde, coturno, capacete e marchando cheios de si como se fossem melhores que os outros são membros da guarda distrital, eles estão chegando para separar a “violenta briga” entre Dexter e eu. Acho que é hora de eu deixar mais alguém ter voz nessa história.

- Vocês dois de novo?! - o guarda baixinho e invocado, fala altivamente, mantém o nariz sempre empinado, este é o menor dos guardas, Alfredo. O outro é o seu irmão Afonso, as semelhanças acabam nos nomes, enquanto o menor vive carrancudo e resmungão, o mais alto é uma distribuidora de sorrisos. 

 A guarda distrital é formada pela própria população e eles atuam exclusivamente nas áreas escolares e têm como missão reportar todos os problemas ao Exército. Normalmente lidam apenas com castigos pequeno por brigas, mas eles são severamente punidos se algum jovem da jurisdição deles ingressar em algum exército revolucionário no futuro ou algo do tipo.

 - Ora, ora... brigando de novo. Vocês dois não são amigos? Vejo vocês sempre juntos. - Afonso, ao contrário do seu irmão, agindo com civilidade.

- Tanto faz - Respondeu Dexter demonstrando toda a sua "simpatia", não é à toa que é meu melhor amigo. 

- Tanto faz? Posso entender isso como desacato, mocinho. Você entende a gravidade da sua situação? Vocês são reincidentes em casos de brigas e estão sempre brigando mais e mais, se continuarem nesse ritmo vai ser necessário chamar o exército... - Essa fala é do Alfredo, acho que ele deu bronca por mais umas 3 horas, mas ele faz isso só para manter a pose. A verdade é que a guarda tem mais medo do exército que a própria população, então é certo que eles sempre resolverão as coisas por eles mesmos com algum castigo.

Como o imaginado, depois de séculos de broncas e palavras desperdiçadas, restou-nos, a Dexter e a mim, o de sempre: Tiraram nosso jantar, nos obrigaram a limpar os banheiros e depois nos deram algumas horas de detenção e tivemos que ficar olhando um para cara do outro. Ninguém vigiava a sala para nos impedir de conversar, mas Dexter, mesmo sendo meu melhor amigo, não é muito sociável e não curte vãs conversas, por isso me surpreendi quando ele quebrou o silêncio(sério, deve ter sido a primeira vez desde, sei lá… sempre?):

- Conheço esse sorriso

- Que sorriso? 

- Esse de tapado que você tá fazendo agora

- O que você quer dizer com isso?

- Você vai fazer de novo, né?

- Você poderia por favor parar de falar em códigos?

- Você vai visitar aquele velho caduco de novo.

- Claro que vou! 

- Mas já tá muito tarde, isso não é uma boa ideia 

- Que foi? Tá preocupadinho comigo agora? É melhor que esteja tarde, a segurança daqui até o alojamento é quase nula.

- Que seja! Nem ligo, quem vai se dar mal é você mesmo

- Tá preocupadinho? Que bonitinho. 

- Tanto faz.

Mantivemo-nos calados até o fim da detenção, quando apareceu um guarda e nos liberou. O meu destino vocês já sabem, quero muito ver o Professor e vai ser divertido a primeira vez que o visitarei a noite. Mas isso é assunto para o próximo capitulo, porque este aqui já está no fim, não sei se é a melhor deixa possível, sou horrível em finalizar capítulos, mas acho que só por escrever algo já sou melhor que todas as outras pessoas da minha idade nessa terra desolada. Tchau.

Espera aí, galera. Antes que eu me esqueça, como poderia me esquecer de algo tão essencial. Eu me chamo Puck, tenho 13 anos e um dia eu viajarei para fora desse país afim de encontrar e descobrir todas as coisas interessantes que o Professor me contou. Eu viajarei pela galáxia em busca desse tal de amor. E eu o encontrarei!

Flecha do Vazio: Em busca do amorStories to obsess over. Discover now