Revoada de Pássaros

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Deus do céu. Eles estão vindo. Em delta. Com as nuvens cinzas a rodear-lhes, se agigantando no cenário já nebuloso, agora de fato oficializado. Voam com o escárnio de quem prevê data, local e horário do primeiro pingo. Malditos, não lhes julgo por nascerem assim, detentores do poder absoluto. Afinal, voar livremente e escapar previamente do que não lhes convêm, não é um poder e tanto? claro que é.  Eu cortaria um dedo para ser um deles. Até por não precisar de nenhum dedo depois.

Mas regurgitando meu devaneio, agora preciso pensar, onde devo me esconder. Não quero me molhar, não quero mesmo. Da última vez, quase me afoguei. Estranho não? Dou risada de uma formiga que rodeia uma poça para não enfrentá-la, mas me refugo do líquido por me perder no rasinho. 

Deve se perguntar onde estou agora. Ou talvez não. Mas que seja saciada uma hipotética curiosidade, estou na varanda. Da minha casa. E há uma garrafa me olhando. Talvez duas, se contar com uma vazia. Já faz tanto tempo que conto com apenas a companhia delas que nem sei mais se são tão hostis assim. Mesmo assim, devo fugir do campo de visão delas.

A chuva está vindo. Já sinto o cheiro da terra molhada. Chamam esse odor de petricor. Não foi minha intenção rimar, assim como não era estar segurando uma garrafa agora. Ela se materializou em minha mão, eu juro. Talvez eu deva matá-la. Com minhas próprias mãos. Se eu apertá-la...de tal forma que a sufoque...todos têm um ponto de ruptura. 

Ouviu esse barulho? eu consegui. Na mesma sintonia em que um raio cai. Por Deus, acho que estamos entrando em harmonia, hein Mãe Natureza? Mostre-me os pássaros de novo. Onde se abrigam nesse local desnudo de árvores? para longe não foram. Irei procurá-los. Mas como com outra garrafa em mãos? você estava vazia. E minhas mãos ainda sangram do que fiz com sua semelhante. Quer ter o mesmo destino? Não? Então quieta e me acompanhe.

Estamos aqui fora. Sabe quando as nuvens se tornam tão carregadas que ficam em um tom azulado, escuro? É o que paira sobre mim e a minha companheira garrafa. Ardilosa, não estavas morta, tens vida ainda dentro de ti. E beberei em tom de convencimento ao seu poder de me ludibriar. E agora, vejo os pássaros de novo, voando tão baixo, tão baixo... próximos cada vez mais que...

Parece que eu dormi. Ou desmaiei. Não apostaria em um ou outro cegamente. Mas aposto que há vômito ao meu lado. Droga, queria não ter previsto isso. Sinto que falta algo em mim, na minha mão. E não é uma garrafa a que me refiro. Enfim, preciso me apressar, sinto que irá chover. Não sei porque, mas eu sempre acerto. Talvez seja o cheiro, petricor.

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⏰ Última actualización: Jan 15, 2020 ⏰

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