Data: 18/06/2020
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Suspiro ao olhar o relógio mais uma vez.
Aquele havia sido um dia lento— assim como todos os outros naquela cidade de merda. Todo dia era um dia lento se você mora em Easton, Texas. Principalmente se for caixa de um restaurante de beira de estrada. Fora os ocasionais viajantes que paravam ali por conta de suas rotas, via as mesmas pessoas todos os dias: Oficial Gordon, o Xerife da cidade; Dona Gertrudes; e meia dúzia de adolescentes que vinham conversar com Mikey.
Levanto a cabeça quando escuto o sininho da porta tocar, e meus olhos se deparam com um belíssimo homem de cabelos castanhos que lhe desciam até os ombros. Olhos verdes emolduravam um rosto bronzeado que parecia estar no meio dos trinta. Os pontos da barba por fazer que desciam até o pescoço tatuado fizeram com que meu estômago se revirasse.
Easton, além de ser uma péssima cidade se você fosse aventureiro, era um lugar pior ainda se você fosse gay. E, para a minha incrível falta de sorte, essa era exatamente minha situação. Sabia desde que tinha treze anos e o valentão da escola me empurrou numa poça de lama. Parte de mim se sentira humilhado no momento, mas a outra estava em êxtase porque o crush me notara.
— Mikey.— Chamo, sem tirar os olhos do homem, que se sentara no canto e cruzara as mãos em cima da mesa.— Mikey. MIKEY!
Finalmente olho para ele e lhe dou um tapa na nuca para acordá-lo. O dia fora realmente lento.
— Pelo amor de Deus, Gerard, não faz isso comigo.— Ele leva a mão ao peito, sem ter a menor ideia do que estava acontecendo.
— Fica aqui no caixa que vou servir café pro cliente.— Murmuro, me levantando de meu lugar.
— Ei, pensei que esse fosse o meu trabalho.— Ele reclama, cruzando os braços, então seus olhos varrem o ambiente, até parar no atraente homem no canto.— Ah.
— Pois é, né, Mikey. Ah. Agora senta a bunda aqui e cuida da porcaria do caixa.
Honestamente, a única coisa que não me fazia enlouquecer por aqui era meu irmão. Ele sabia que eu era gay, e sempre levou isso numa boa. Melhor, me ajudou sempre que podia. Não sei se ele era totalmente hétero, mas pelo menos entendia que, se alguém descobrisse sobre mim, eu tava muito mais do que morto.
Ao ir para a cozinha pegar a jarra de café, aproveito pra dar um tapa no visual. Sabe, ficar o dia inteiro sentado numa cadeira não estraga muito a tua aparência, mas também não ajuda a melhorar. Eu parecia a porra de um fantasma, e, como ajeitar o cabelo não mudou nada nisso, desisto e apenas pego a jarra.
— Boa noite, senhor. Gostaria de comer alguma coisa?— Sorri, tentando causar uma boa primeira impressão, apesar de não haver lugar mais broxante para se estar do que aquele em que estávamos agora.
— Hummmmm...— Ele passou os olhos rapidamente pelo cardápio, então os voltou para meu rosto, sorrindo.— Nah, vou querer só um café...
Ele prolongou a última sílaba, olhando para meu peito. Demorei um segundo a mais para perceber que ele tentava ler meu nome no crachá.
— Gerald?
— Gerard.— Corrijo, sentindo minhas bochechas queimarem um pouco.
— Uh, belo nome, é francês?
Dou de ombros.
— Hummmm... não sei. Acho que minha mãe assistiu "Sua Majestade, Mrs. Brown" e gostou muito do Archie, sabe?— Dei uma risadinha desconfortável, porque percebi que ele provavelmente não conheceria o filme.
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One Shots
FanfictionTodas as one shots aqui presentes são de minha autoria. Já que tenho tantas ideias curtinhas, resolvi passar a reuni-las aqui, assim fica mais fácil pra mim postá-las sem ncessariamente ter que criar uma nova história e encher a minha área de obras...
