Capítulo 1: O Esbarrão e um Novo Começo

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CATARINA 

Nova York. Há dois meses, a Big Apple era a promessa de um novo começo para Catarina, um lugar onde ela esperava se encontrar, talvez até se perder um pouco, mas em seus próprios termos. Vinda de Vancouver, a viagem tinha sido tranquila, mas a energia frenética da cidade já a envolvia. Convencer seus pais a deixá-la estudar e morar fora, apesar de serem pessoas influentes e protetoras de sua filha única, fora super fácil. Mas ela não queria depender deles. Com vinte anos e algumas economias, alugou um apartamento modesto, determinada a traçar seu próprio caminho.

O domingo foi dedicado a organizar a nova vida. Na segunda-feira, revigorada e cheia de disposição, Catarina saiu para explorar o bairro e, mais importante, encontrar um emprego. Não precisou andar muito para a sorte sorrir para ela. Graças aos seus cursos de computação, etiqueta e idiomas, conseguiu uma vaga em uma cafeteria próxima ao campus. Perfeito! Seria da faculdade para o trabalho, com o turno da tarde encaixando-se perfeitamente. Só precisava ser aceita, mas as aulas ainda demorariam uma semana para começar, dando-lhe tempo para se adaptar.

Foi em uma segunda-feira fria e movimentada que as aulas no campus finalmente começaram. Catarina levantou cedo, a ansiedade misturada com a excitação borbulhando em seu peito. O caminho até a universidade era um turbilhão de gente, vozes e uma correria contagiante. Ela estava imersa naquele burburinho quando, de repente, esbarrou em alguém.

-"Desculpe, senhorita!" 

A voz grave, quase um trovão abafado, a fez congelar. Seus olhos se cravaram nos dele. Era como se tivessem sido lançados um contra o outro por uma força invisível, o mundo ao redor se dissolvendo em um foco único. O tempo parou, preso naquele olhar intenso, até que o som distante de um celular a tirou do transe. Ainda aturdida, ela sentiu a necessidade de seguir em frente, o caminho até a sala mais urgente do que nunca. Sem experiência alguma com homens, vinda de uma criação protegida, Catarina sentiu o rubor tomar conta de seu rosto e o coração acelerar descompassadamente.

Chegando ao prédio de História da Arte, avistou uma moça de cabelos castanhos claros, com uma expressão ligeiramente frustrada, perto do mural, procurando algo. Catarina, sempre um pouco tímida, respirou fundo e se aproximou.

-"Oi! Procurando alguma coisa?", perguntou, a voz quase um sussurro.

A moça se virou, um sorriso vibrante se abrindo no rosto. 

-"Olá! Sim, meu nome é Barbara, estou procurando a lista da turma de História da Arte. E você?"

-"Ah! Perdão, sou a Catarina," ela respondeu, sentindo-se um pouco mais à vontade com a simpatia da outra. 

-"Também estou na mesma turma. Pelo jeito, vamos estudar juntas!"

-"Que demais! Já estava achando que ia ser a única perdida por aqui", -Barbara riu, um som contagiante. Ela pegou no braço de Catarina, com uma familiaridade surpreendente. 

-"Sim! Seremos amigas, Catarina! Vem, estamos super atrasadas para a recepção. E prepare-se para conhecer o deus cubano do Professor Santiago! O que ele tem de lindo, tem de grosso, mas é uma lenda no departamento."

Catarina sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome. Seria ele? O homem do esbarrão? 

-"Você o conhece tanto assim?", perguntou, a curiosidade aflorando.

-"Ah, sim! Ele é amigo do meu pai", -Barbara respondeu, dando de ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo. -"Mas sério, ele é um caso à parte. Enfim, temos que ir!" -E assim, com Barbara puxando-a, Catarina se viu sendo arrastada para o desconhecido, o coração ainda batendo no ritmo daquele breve, mas marcante, esbarrão.

SANTIAGO

Santiago amava seu trabalho, mas detestava atrasos. Mais um semestre começava, e lá estava ele, correndo pelos corredores para receber a nova turma de História da Arte. Foi então que, abruptamente, um corpo pequeno o barrou. Um choque. Uma onda de calor e uma fixação imediata por aqueles olhos o tomaram. Parecia que uma eternidade havia se passado enquanto ele se perdia naquele olhar, uma escuridão que o atraía irresistivelmente. Ficaria ali para sempre, se não fosse pelo toque insistente do celular.

O toque o trouxe de volta à realidade, abruptamente. Era César, seu amigo de longa data, lembrando-o de ficar de olho na filha dele, Barbara, que começava as aulas de História da Arte naquele dia e tinha um "histórico longo de problemas". Santiago encerrou a ligação, a imagem da jovem ainda vívida em sua mente, e seguiu para a sala.

A turma já estava reunida. Ele foi direto ao ponto: regras, horários, o essencial. Em menos de uma hora, a formalidade da aula o ajudou a afastar a estranha sensação do encontro. Ao final, sentindo a necessidade de um café, resolveu ir à cafeteria de César.

Qual não foi sua surpresa ao entrar e encontrar a jovem que o havia hipnotizado sentada à mesa, conversando animadamente com César e Barbara. Seus olhos se fixaram nela, incapazes de desviar. Ela parecia envergonhada, um rubor juvenil adornando suas bochechas. Era raro ver alguém corar tão facilmente nos dias de hoje, e isso o intrigou ainda mais. "É melhor eu desviar o olhar", pensou, uma voz de alerta em sua mente. Ele não queria problemas, especialmente não com uma aluna. O primeiro mês se arrastou, com a rotina habitual de aulas e alunos pelo campus, mas uma certa senhorita continuava a atrair seu olhar em cada oportunidade.

Já passava das quatro da tarde. Santiago decidiu ir  à cafeteria perto do campus, buscando um momento de pausa. Sentou-se, esperando ser atendido, quando uma voz doce o surpreendeu, tirando-o de seus pensamentos.

-"Qual o seu pedido, senhor?"

Lá estava ela. Catarina. A mesma que o tirara do prumo na entrada da faculdade, a mesma que o intrigava em suas aulas. Ele se viu hipnotizado de novo, a voz falhando por um instante.

-"Ah! Um café e um bolo de limão, senhorita!"- ele conseguiu responder, tentando manter a compostura. O constrangimento inicial era quase palpável no ar, mas a doçura da voz dela o fez esquecer qualquer barreira que tentava erguer.

CATARINA

Só podia ser perseguição. Era o que Catarina pensava ao ver o homem mais lindo que já havia conhecido entrar na cafeteria. Sua presença era intimidante, ele jamais passaria despercebido. Era ele! O Professor Santiago, o homem que havia preenchido seus pensamentos durante o último mês, desde aquele esbarrão. Ela não escutava nada ao seu redor, apenas conseguia olhá-lo, absorvida por sua figura imponente. Nunca havia se sentido assim, talvez fosse o acúmulo de todas as emoções vividas nos últimos dias em Nova York, somadas à novidade de estar trabalhando no café de César, o pai de Barbara.

Engolindo em seco, Catarina forçou-se a retomar a compostura. Estava ali para trabalhar. Aproximou-se da mesa dele, pronta para o atendimento.

-"Qual o seu pedido, senhor?" conseguiu perguntar, orgulhosa por não ter ficado completamente "boba" em sua presença. A voz dele, no entanto, ressoou em sua mente: -"Ah! Um café e um bolo de limão, senhorita!" O sotaque carregado, definitivamente não americano, era incrivelmente sexy. Ela adoraria ouvi-lo por muito mais tempo.

Mal havia se recomposto quando Barbara apareceu ao seu lado, o entusiasmo transbordando. 

-"Vamos a uma festa hoje! Comemorar nossa amizade, seu emprego e sua chegada a Nova York. Passo na sua casa às dez horas."

Catarina franziu a testa. 

-"Eu não danço! E às dez horas, eu já estou dormindo!"

-"WTHF?!", Barbara exclamou, incrédula.

-"Barbara, as aulas estão cada vez mais puxadas, e tenho que ligar para meus pais e trabalhar também. Sinto muito"- Catarina tentou argumentar, a voz cheia de cansaço genuíno.

Mas Barbara não aceitou. Com um sorriso determinado, ela retrucou: 

-"Não diga 'NÃO' para mim! Se arrume e esteja pronta quando eu chegar." 

E com essa declaração final, Barbara se afastou, deixando Catarina sozinha, digerindo a ordem de sua nova amiga e a presença magnética do Professor Santiago a poucos metros de distância.

Pra mudar a minha vidaStories to obsess over. Discover now