A entrega

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"Três pipoquinhas por um real! Três pipoquinhas por um real!" - Gritava a senhora de cabelos brancos, em meio as pessoas na fila do ônibus:

-Vai uma pipoquinha moço?

-Não, obrigado.

Fernando se sentiu mal por recusar. Sabia que o que estava em jogo não era se ele sentia fome ou não, mas sim que ela sentia. E muito provavelmente continuaria a sentir, se não conseguisse vender todo aquele saco de pipoca sabor isopor:

-É revoltante ver uma senhora com essa idade, tendo que implorar por migalhas.

-Disse Fernando em voz alta pra ninguém em específico, enquanto guardava seu celular no bolso.

-São tempos difíceis... - Exclamou o rapaz que o sucedia na fila. - ora vejam só, olha bem pra mim e me diz se por acaso tenho cara de entregador.

Fernando o olhou de cima a baixo. O jovem estava coberto dos pés a cabeça vestindo um moletom de capuz negro que atenuava mais a palidez de seu rosto. Não parecia se importar com os 38 ° que faziam em Porto Alegre.

-Mas tu ainda é um guri perto daquela senhora.

Ambos sustentaram um olhar sério por alguns segundos. O jovem não pareceu ter gostado de ser chamado de "guri" ou ao menos havia ficado surpreso com isto, pois só depois de alguns instantes, quando as palavras lhe pareceram fazer sentido é que ele respondeu de maneira irônica:

-As aparências enganam meu caro jovem.

O diálogo casual que se enunciava foi abruptamente interrompido por um tilintar de mensagem. O típico barulho de quem está tendo uma ideia.

O jovem retirou o aparelho do bolso e ao ler o que estava escrito exclamou:

-Bom pelo menos hoje parece que estou com sorte! - disse enquanto levantava os

olhos da tela e os pousava na mulher de origem oriental que estava logo a sua frente- Essa eu mato em... 40 minutos.

Certamente essa conversa poderia ter tomado um rumo criminal, se Fernando não soubesse bem com o que estava lidando. E além disso pode ver o logo de um aplicativo de comida na tela do aparelho, antes que o rapaz o guardasse de novo.

Depois disso não houve mais tempo para conversar. O ônibus encostou e a fila começou a se arrastar lentamente, por conta de um indivíduo cheio de bagagens que puxava a frente.

-Que os jogos comecem - deixou escapulir Fernando, alto o bastante para que o homem o ouvisse e lhe retribuísse com uma expressão clássica de um cu com cãibras.

E só depois que o homem passou suas malas com um certo esforço por debaixo da roleta e foi se sentar lá no fundo é que ele pode se acomodar em seu lugar preferido do ônibus, passando a roleta ao lado oposto ao do cobrador.

Colocou seus abafadores nos ouvidos, pressionou seu relógio contra o pulso e imediatamente um som de Roky Erickson começou a tocar:

🎶...If its raining and your running dont slip in mud because if you do you'll slip in blood tonight

Its the night of the vampire

Tonight. Is the night of the vampire...🎶

Era uma sensação revigorante essa de estar blindado ao mundo. Fernando não precisava se incomodar com o barulho do trânsito lá fora, ou com o burburinho de conversas alheias aqui dentro.

Como o monólogo do entregador com o motorista por exemplo. Mesmo tendo sobrados assentos disponíveis, ele preferiu viajar de pé na escada da porta da frente, tagarelando intensivamente com o motorista que nem parecia lhe dar bola.

A entregaWhere stories live. Discover now