Isabel estava distraída, olhando para a janela. Já haviam se passado alguns minutos e a loira sequer havia tocado na comida.
— O que está olhando? — Jacob perguntou.
— Nada. — A criança voltou a olhar para o prato e começou a comer.
Um momento silencioso se passou entre os dois. Jacob, que acabara de perder a esposa, se perguntava como iria criar uma criança sozinho. Querendo ou não, a responsabilidade era enorme e o peso disso estava por completo nos seus ombros. Olhando o desânimo da criança, não sabia dizer se era pela mudança ou pela morte recente da mãe. Deixar a antiga casa não estava nos planos, mas o homem sentia que não poderia superar a morte da amada estando no ambiente no qual viviam juntos, no qual decidiram construir uma família.
Isabel, no entanto, odiou se mudar. Deixar os amigos e a casa na qual cresceu, depois da morte de sua mãe, a deixou péssima. Foi como se tudo que ela tinha no seu pequeno mundo infantil tivesse sido arrancado dela de repente, e isso a fazia se sentir sem chão. A menina não tinha mais no que se apoiar, e culpava o pai por isso. Por tudo, menos pela morte da mãe. Mais uma vez, a loira deixou seu olhar se perder entre as árvores.
Como seu pai pôde escolher aquele lugar? Não tinha vizinhos, não tinha mercado perto ou um parque. Era isolado e no meio de tantas árvores que ela se sentia morando numa floresta. O que o havia atraído? Isabel não conseguia se imaginar morando num lugar como esse. Ela não queria estar ali. Acima de tudo, não queria estar perto daquelas árvores. Talvez estivesse deixando sua imaginação levar, mas sentia uma negatividade vinda da mata. Para ela, aquele era muito mais um cenário do que uma floresta. Aquelas plantas não pareciam estar vivas. Parecia besteira, mas no meio de seus devaneios Isabel percebeu que a floresta estava tão silenciosa quanto a madrugada. Se perguntava onde estavam os passarinhos, se animais habitavam o lugar.
— Não gosto daqui. — Isabel finalmente se manifestou, deixando seu pai saber o que se passava pela sua cabeça. — Não gosto da floresta.
— Eu entendo, Bel. — Jacob suspirou.
— Mas é temporário, eu te prometo.
— Mas eu não entendo. — Desviou o olhar das árvores para encarar o pai. — Por que escolheu essa casa? Não tem ninguém aqui.
— Você é muito nova para entender. — O homem apertou os lábios. — Só saiba que vamos sair daqui assim que possível.
Isabel não disse mais nada, mas a insatisfação com a resposta que teve estava estampada no seu rosto. Logo a menina concluiu que a resposta só podia ser uma: Dinheiro. Com dez anos, ela já era muito mais esperta do que seu pai pensava, e isso a irritava. Ela queria saber mais, queria entender, mas sempre tinha que descobrir por si mesma ouvindo conversas atrás da porta e fazendo suas próprias deduções. Se saberia de um jeito ou de outro, não entendia a razão pela qual seu pai escondia tanto os fatos dela.
E a menina estava certa: Era dinheiro. Seu pai não queria revelar que a renda estava curta e com o dinheiro de fotógrafo não conseguia muita coisa. Sua esposa sempre foi a responsável por manter a casa de pé. Agora, ele precisava arrumar algum emprego fixo para que pudesse dar uma vida decente para a criança que o olhava com desaprovação do outro lado da mesa.
Jacob entendia completamente o lado da garota, pois também não gostava do lugar. Se sentia desconfortável, e o isolamento proporcionado pelas centenas de árvores do lado de fora não ajudava. Porém, a criança não conseguiu deduzir uma informação que Jacob tinha, que o deixava com os cabelos em pé.
A razão pela qual o aluguel da casa estava tão barato.
Não eram as árvores, não era o isolamento, não era a distância da cidade e, consequentemente, dos comércios básicos. Eram os assassinatos. Na cozinha em que eles estavam sentados agora, uma mulher foi assassinada. Saber disso o deixava desconfortável. Uma família inteira morta. Uma criança desaparecida, dada como morta. Ninguém ouviu os gritos. Não havia ninguém para ouvir. Como se conta uma história como essa para uma garotinha de dez anos? Não, ele não contaria. Não podia contar. Mesmo sabendo que ela não ficaria contente com essa situação.
— O que acha de arrumarmos nossas coisas? Precisamos colocar nossas roupas no lugar. — Jacob tentou fazer as pazes com a criança.
— Sim. — Ela concordou com a cabeça.
— Os nossos móveis chegam amanhã, precisamos varrer a casa e tirar a poeira.
A criança abriu um falso sorriso. Sabia que o pai estava se esforçando, mas não conseguia de sentir confortável ali. Ainda não via aquele ambiente como o seu lar e, sem a mãe ali, a ideia de lar ficava cada vez mais enevoada.
Seus pensamentos sobre a floresta se dissiparam assim que começou a limpar a casa, como se estivesse varrendo aquela negatividade para fora de si. O pai também parou de pensar nas brutalidades que ocorreram ali, se concentrando apenas em limpar. Ambos riam em determinados momentos, contando piadas enquanto limpavam, fazendo com que os dois realmente se divertissem como não faziam há muito tempo. Cansada após a limpeza, Isabel se permitiu um banho com água fria. Conforme a noite se aproximava, descobriu que não havia energia elétrica na casa, o que a fez acender várias velas.
Sem energia elétrica. Sem banhos quentinhos. Isabel não entendia como aquele lugar poderia ser a casa dela. A ideia simplesmente não entrava em sua cabeça. "Temporário." Disse mentalmente para si mesma, numa tentativa de atenuar o desapontamento. Realmente queria gostar de lá. Queria agradar o pai, que estava se esforçando.
Se deitou na cama para dormir, embaixo de três cobertas. A casa era muito fria quando a noite caia. Isabel se perguntava se essa seria a sua rotina a partir de hoje.
Antes que adormecesse, seu pai entrou no quarto com uma vela na mão e se sentou ao seu lado na cama.
— Eu sei que esse lugar não é dos melhores. E sei também que você não está contente. Mas ainda assim, obrigado por se esforçar. — Deu um beijo na testa da menina. — Eu te amo.
— Também te amo, papai.
Jacob se levantou e logo a menina se viu sozinha no quarto. Quando se virou para o outro lado, encarou a janela, de onde podia ver a floresta. Sua respiração pareceu mais pesada por um momento. Isabel assoprou a vela fazendo o fogo se apagar e virou para o outro lado, ignorando as árvores mortas do lado de fora.
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O chamado
HorrorMais uma vez, a loira deixou seu olhar se perder entre as árvores. Como seu pai pôde escolher aquele lugar? Não tinha vizinhos, não tinha mercado perto ou um parque. Era isolado e no meio de tantas árvores que ela se sentia morando numa floresta. O...
