capítulo 1. Lavínia

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1. LAVÍNIA

Lavínia abraçou o próprio corpo enquanto caminhava pela calçada de pedras, sem saber exatamente para onde estava indo.

A madrugada envolvia a cidade em um silêncio quase absoluto. As ruas, antes movimentadas, agora pareciam pertencer somente a ela. Seus passos eram largos e desajeitados, como se o corpo soubesse o caminho enquanto sua mente ainda tentava entender onde estava.

Por alguns instantes, ela parou.

Encostou-se a um poste e fechou os olhos.

Precisava se lembrar.

Mas as lembranças vinham partidas, desconexas, como flashes rápidos demais para serem compreendidos.

Uma pista de dança.

Música alta.

Luzes coloridas.

Risos.

Bebidas.

E um homem.

Lavínia abriu os olhos.

Não sabia quem ele era.

Não sabia de onde tinha surgido.

Só sabia que, de alguma maneira, aquele estranho a havia deixado perto de sua casa.

Ela olhou ao redor e reconheceu algumas das ruas. Estava mais perto do que imaginava.

Retomou o caminho.

Ao abrir o portão de casa, ainda tentava organizar os poucos fragmentos daquela noite. Havia algo naquele homem que não conseguia abandonar seus pensamentos.

Quem será ele?

A pergunta surgiu novamente.

Lavínia entrou, fechou o portão e permaneceu alguns segundos parada no corredor.

Ainda sentia o toque dele.

O cheiro.

A voz.

E aquele sorriso.

Tudo parecia mais nítido do que as próprias lembranças.

Ela não conseguia compreender como podia se lembrar de sensações quando não conseguia sequer reconstruir os acontecimentos.

Subiu para o quarto e entrou no banheiro.

Ligou o chuveiro.

A água quente caiu sobre seu corpo enquanto ela molhava o rosto repetidas vezes, tentando arrancar da memória alguma imagem que pudesse explicar aquela noite.

Nada.

Apenas pequenos fragmentos.

Por que não conseguia se lembrar?

E por que estava com aquele homem?

Lavínia apoiou as mãos na parede do box e respirou fundo.

Ele não tinha nome.

Não tinha endereço.

Não tinha rosto.

Pelo menos não um rosto que ela conseguisse recordar com clareza.

Era apenas um estranho.

Um caso indefinido que havia surgido em uma noite que deveria ter sido como tantas outras.

Mas não tinha sido.

Já era quase manhã quando Lavínia finalmente saiu do banho.

Foi para o quarto e deitou-se.

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