Menina Lua

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Dado o final de janeiro, a chuva caía: Chegou o início de uma nova vida, mas também o fim de outra. Deitado aos prantos, aquele homem se lamentava; "Por que Alice? Por que comigo?", repetia. Mal percebeu ele que sua filha, Rose, tão linda como a chuva, estava ali, olhando-o lamentar-se. Aquela pequena, que ainda nem se movia direito, respirou. Respirou mais uma vez, forte, e lacrimejou: Era seu primeiro choro. Aqueles gritos agudos que soavam como se estivesse sozinha, sem um colo, ecoavam pelo quarto do hospital. Sebastian olhou-a. Olhou sua mulher. Andou até Rose e pegou-a. Abraçou-a, como se ela o entendesse. Abraçou-a como se ela soubesse que a mãe havia de falecer. Grunhindo, a menina olhou-o no fundo dos olhos. Sebastian ficou encantado: Aquele negro invadia-no como a noite, mas era belo. Era viciante. Era penetrante. Ele o amava. Passeou o indicador pelo rosto da criança, o que a fez se acalmar. Sentou-se na beirada da cama e a mostrou para a esposa.
- Veja, querida. Ela não é linda? - Disse, esperando uma resposta, mas não a obteve. Voltou a olhar Rose e soltou um suspiro. Ela realmente estava morta.

[ Quebra de Tempo ]

Cinco meses após o nascimento da criança, Sebastian se encontrava sozinho. A única pessoa que via além da filha era sua empregada, Margaret, que se dispôs para ensiná-lo como cuidar de Rose. Sebastian havia começado a trabalhar em casa para ficar de olho nela que, mesmo tão pequena, já era tão espoleta. Aquele pedaço de gente já tentava engatinhar; ela observava e observava. Cada movimento. O vento ecoava nos sinos da porta, que faziam um barulho. Claro, Rose admirava como se visse um pedaço de doce. Aquilo era incrível, sua paixão pelas coisas simples era incrível. Mas o mais incrível era como seus olhos encontravam os do pai.
A menina era inteligente, mal sabia Sebastian do que ela era capaz e esse foi seu erro. Ela havia de crescer mentalmente muito rápido, enquanto ele não procurava notar.
Todas as noites, quando Rose dormia, ela sonhava estar em um quarto, ali, em frente a uma grande cama com lençóis vermelhos. Tudo era vermelho. Ela pensava ver vermelho. Apenas uma coisa não era vermelha: Aquela mulher deitada ali, adormecida. Seus cabelos longos que iam até a ponta de suas mãos pareciam ceda. Eram escuros, eram pretos. Totalmente pretos. Tão pretos que Rose não enxergava seus fios. Era só... Lindo. Rose não entendia porquê não se mexia, era como se ela não estivesse ali, como se aquilo fosse apenas uma pintura passando diante de seus olhos. Mas por que parecia tão real? Os olhos fechados da mulher pareciam observá-la, até que uma luz invadiu seu campo de visão e acordou. Assim que abriu os olhos, viu seu pai na beira do berço, admirando-na.
- Já acordou, menina lua?
Riu com a lábia do pai e, ao vê-lo por os braços em sua direção, levantou os seus. Ao pai pegá-la no colo e deixá-la de frente para seu rosto, ganhou vários beijos na bochecha, que a fizeram gargalhar. Como sempre ao acordar, se jogou em direção á janela, só não caindo pelo pai já estar acostumado a agarrá-la forte. A lua estava lá e ela queria conversar um pouco, então ficou encarando-a. Era como se ela sentisse boas vibrações vindo de lá, cada estrela que piscava era uma nova amiga e a lua era a maior delas. Vê-la deixava as pequenas mãos de Rose ansiosas, seus dedos se mexiam como se estivesse chamando-a para perto. Seu pequeno mundo se expandia cada vez mais com o aumento de sua criatividade.
Rose tinha amigos elfos, piratas, extra-terrestres e até de asas, todos sempre estavam escondidos no quarto dela e vinham vê-la quando o pai saia. Ela amava e Sebastian sempre a escutava rir, era incrível. O lugar favorito dela era a janela, porque nela ela via tudo o que raramente tocava: plantas de todas as espécies; flores, erva-daninhas, plantas de chá e até árvores frutíferas, seu canteiro favorito era o de margaridas. O cheiro das flores entrava pelo ar da janela e trazia um aroma agradável, então ela aproveitava seu berço para ficar perto. Como ainda não sabia como ficar em pé, ficava sentada ali, em cima do travesseiro, encarando o lado de fora. Não via a hora de poder correr pelos campos e caçar os anões que via nos desenhos. Ela era uma princesa presa e queria ser liberta, então tentava e tentava ficar em pé.

[ Quebra de Tempo ]

Agora o verdadeiro problema começou: ao Rose começar a comer, Sebastian também parou de ir no banco de leite. Agora seus dias eram voltados a aprender a fazer papinha.
- Como uma criança come isso? Parece nojento, não quero que minha filha se alimente com... Essa mistura. - Indagou, frustrado.
- Quando criança você comia e pode ter certeza que adorava. Todas as crianças precisam de se alimentar de algo cremoso quando pequenas, Sebastian. Entenda. - O homem suspirou, pouco revoltado. Queria que Rose criasse dentes logo para mastigar doces e frutas.
Ao terminar a primeira refeição de Rose, pegou um pote. A porção estava quente e não sabia o quanto assoprar, espera, ele deveria assoprar? Uma confusão entrou em sua cabeça e já não sabia mais como alimentar a garota, que já estava com a boca aberta. Olhou Margaret, depois Rose. Sabia que não ia receber ajuda em um momento desses, teria que arriscar e aprender. Apoiou a colher de plástico em frente à criança e, ao colocar em sua boca, ela cuspiu: estava muito quente. Ouviu a empregada rir e fez uma cara feia pra ela, com o ar de "vou te demitir", que a fez se calar. Limpou o rosto da garota com o babador e dessa vez assoprou, mas era muito. A menina cuspiu de novo. Sebastian se preocupou quando Rose tossiu, achando que a pequena havia se engasgado. Olhou Margaret, que negou com a cabeça, e na hora entendeu. Se sentiu aliviado. Por que aquilo era tão difícil?
Rose, com um ar choroso, voltava a abrir a boca. Dessa vez, certo, foi alimentada. Sebastian já estava suando como se tivesse malhado por três horas seguidas, mas se sentiu orgulhoso por conseguir fazer sua filha experimentar o primeiro alimento da vida dela. Se sentiu realmente um pai naquele momento.

[ Quebra de Tempo ]

Ao acabar de limpar a garota, que estava toda suja dos seus erros alimentícios, levou-a pra fora: cada vez que ela estava lá seu rosto mudava, se tornava alegre, ela não parava de sorrir. A medida que andava, ela apontava para as coisas e, sempre que ele respondia, ela ria. Seu quintal grande o oferecia muito conforto e espaço antes de ter Rose, mas agora era seu cantinho mágico. Os passarinhos ecoavam seus cantos entrelaçando-se nas árvores e a menina lua fitava toda aquela dança. Ela sentia como se estivesse ali, voando com eles. Sebastian seguiu para onde seus olhos estavam e percebeu o quão adorada ela estava, então teve uma idéia: Por que não comprar um pássaro?
O pássaro na gaiola já não cantava, estava sozinho, era apertado, ele queria voar para bem longe. Rose sabia. Rose queria libertá-lo, mas como? Deixar aquele pobre coitado preso não traria felicidade pra ninguém. Margaret, astuta, percebeu e pegou-a no colo.
- É incrível como uma criança de 6 meses consegue ter uma mente mais adulta que o próprio pai. Isso é um problema. - Balançou a cabeça negativamente e, juntamente à criança, carregou a gaiola. Levou ambas pra fora e sentou Rose ao lado da gaiola. Guiando suas mãos abriu a gaiola e o pássaro voou para uma árvore. Ele cantava, ele piava bem alto, o que fez outros pássaros se aproximarem. Tudo estava perfeito, até que escutou o som de sacolas caindo no chão: Sebastian havia voltado do supermercado e se deparado com a gaiola aberta, sem o pássaro. Avançou na mulher como se ela tivesse cometido um crime e começou a gritar.
- Quem te deu o direito de fazer o que quiser? Essa é a minha casa! Minha!! Você é a empregada, não a dona! Não quero mais ver você fazendo algo que não lhe foi solicitado.
- Acontece, senhor dono, que ter um animal preso em casa não vai fazer sua filha feliz! Sou aposentada e posso viver muito bem sem o seu salário, então não me importo de fazê-la sorrir. Não percebe? Ela quer vê-los voando, ela quer vê-los cantando! Pássaro não foram feitos pra ficarem de gaiola, não são animais de estimação!! - Retrucou, com alta voz. Servia a casa muito antes de Sebastian nascer e se fosse parar ser demitida, seria. Nervoso, pegou sua filha, que não entendia nada, e entrou em casa. deixou as compras alí caídas e bateu a porta. Margaret ajoelhou, decepcionada. Não treinava ele pra ser assim, o treinava pra ser um bom pai, mas ainda faltava um longo caminho.

ᨳ ─ ──────────❬"🕊 ۪۪۫۫ ◦۪۪ ❵

SOVEREIGN PAINTINGCerita yang buat anda obses. Terokai sekarang