Esta cidade é muito fria! Quase gelada! E não me refiro ao inverno sempre tão mais rigoroso aqui que em outros lugares. Falo de seus moradores e até de seus visitantes, pessoas frias, muito frias! Gente violenta e inescrupulosa, sem empatia e comiseração, capaz das mais sórdidas e perversas atitudes, sem se deixar dominar pelo remorso. A senhora os conhece, passa por eles todos os dias quando vem para cá.
A senhora não concorda comigo, não é? É mais uma daquelas pessoas a me acusarem de ser violento, de serem os meus métodos beligerantes e de usar de força excessiva para combater o crime; essa moléstia já tão impregnada em Gotham City! Parece piada, mas chegaram a me nominar de Cavaleiro das Trevas, mesmo eu sendo um dos poucos a lutar em defesa do Bem, da Decência e da Dignidade de nossos concidadãos, pelo simples fato de, segundo eles, eu não conseguir dar mostras de serem as minhas ações representantes de um Bem maior, representantes da Luz condutora da humanidade à Justiça e à Paz Social. Para eles, eu sou um Bem sem Luz. Mas, olhe ao redor, onde está a Luz desta cidade? Eu nasci em Gotham e aqui cresci, o que esperam de mim?
É só observar o número de seguidores dos supercriminosos para se perceber a dimensão do mal aqui existente. São uma infinidade de Coringas, Pinguins, Arlequinas, Chapeleiros Loucos, Mulheres-Gato, Charadas, Duas-caras e tantos outros. Centenas, milhares de delinquentes a se deixarem conduzir por vilões de mentes geniais, sem em momento algum pensarem na possibilidade de haver um caminho mais oportuno para suas vidas. E os demais, os não criminosos, são tão apáticos, tão voltados para si mesmos, não dão mais importância ao andar da carruagem! Desculpe-me o clichê.
Hoje, eu tenho dúvidas quanto ao valor do meu trabalho nesta tenebrosa e gélida metrópole. Por mais que eu lute, por mais que os prenda, eles se reproduzem como ninhadas de coelho, de gato... Procriam como peixes em aquário, vinte, trinta, quarenta de uma vez. E o estrago por eles causado é quase sempre irremovível.
Foi assim com o Birdie. Ele nunca teve uma chance...! Tudo começou há dez anos, numa fria manhã de outono... É tudo sempre tão frio! O Coringa havia acabado de roubar um banco e fugia em um de seus loucos carros enfeitados de avião. De tão grande, a geringonça quase não conseguia se locomover em meio ao trânsito. Eu o perseguia facilmente do topo dos prédios e ele parecia não se importar com isso, sempre buzinando muito e gargalhando histericamente. Logo, eu estava à sua frente, pronto para mais uma de nossas espalhafatosas e intermináveis lutas, quando ele sacou uma espécie diferente de arma, algo parecido com um revolver, mas com um cano muito cumprido e largo. De pronto eu pensei em uma bandeira saindo dali, onde se pudesse ler a onomatopeia POW! e, em seguida, uma flor a se despetalar. Mas isso não aconteceu. Quando ele apertou o gatilho, usando a mão esquerda, pois com a direita insistia em dirigir em meio ao engarrafamento já a se formar, de dentro de sua arma saiu uma espécie de bola de gude que só não me atingiu por ser a sua pontaria de péssima precisão.
Em poucos segundos eu ouvi uma explosão atrás de mim, mas não lhe pude dar atenção, pois Coringa já descia do carro e partia em minha direção, pronto a fazer novos disparos. Depois de muito lutarmos e ele escapar por um cabo amarrado a um helicóptero, eu fui averiguar o local onde o seu disparo havia atingido. Para minha dor, a bola de gude havia explodido no quarto de uma menina de oito anos. Lenora! Ela havia acabado de chegar da escola e trocava de roupa quando a bomba explodiu ao seu lado.
Ao me aproximar, Birdie ainda segurava no colo o pequeno e incompleto corpo de sua irmã. Ele me olhou com olhos tão frios quanto o mais rigoroso inverno polar e falou com dentes trincados: "Um dia eu vou matar vocês dois!" E gritou: "Saia daqui!" E eu fugi apressado daquele inferno, por não conseguir enfrentar a intensidade da dor revelada em seu olhar.
Naquele dia, Birdie decidiu mudar de vida. Foi ao shopping, assaltou uma loja, levando dela roupas novas, um elegante smoking, pares de sapatos e máscaras de pássaros. À noite, olhando-se no espelho, vestiu a nova roupa e calçou um par dos novos sapatos. Olhou-se por um tempo até decidir por trocar também de apelido. Birdie era coisa de criança. Como ocorrera com o Batman no passado, ele também precisaria de um nome capaz de impor medo e respeito. Colocou uma das máscaras no rosto e sorrindo recitou:
"Como te chamas tu na grande noite umbrosa?" Sorriu com lágrimas a escorrer pelo rosto e concluiu: "E o corvo disse: Nunca mais".
Estas palavras de Allan Poe ressoavam em sua mente desde o nascimento de sua irmã, quando seu pai a batizou de Lenora. Com expressão de dor profunda, ele balbuciou melancólico: The Crow!
E a sina do Batman se repetia em outra criança desprotegida pela sorte. O dócil menino de quatorze anos, amavelmente chamado por seus pais de Passarinho, evoluía como um guerreiro de videogame para um nível mais elevado, uma ave cruel, tenebrosa e agourenta, repleta de ódio e carente de vingança, um corvo.
Com o sorriso grotesco de todo criminoso de Gotham City, The Crow retirou a roupa, o sapato e a máscara, colocou-os em uma mala e os escondeu debaixo da cama, no quarto ao lado àquele onde a bomba de Coringa explodira. Desde então, passou a investir todo o seu tempo, inteligência e perseverança no propósito de ganhar o dinheiro necessário a lhe possibilitar a aquisição dos materiais indispensáveis a realização de seu intento, vingar a morte da irmã, matando o Coringa e a mim.
Nos meses seguintes ele iniciou a sua vida na marginalidade como olheiro do narcotráfico, migrando mais tarde para o roubo de carros-fortes e vindo nos últimos anos a agir como traficante de órgãos humanos.
Sabe, eu nunca quis ser um herói. Se me tornei quem sou foi graças a fortuna deixada por meu pai, além do potencial tecnológico da Wayne Enterprises, tão bem administrada por Lucius Fox. Isso me possibilitou construir toda infraestrutura necessária ao surgimento do Batman, sendo o meu único propósito o de combater a criminalidade, tão miseravelmente abundante em Gotham City. Miserabilidade essa a se espalhar agora pelo resto do mundo. Eu vi a minha cidade se transformar em um refúgio de sombras e de trevas, de dor e de morte e não pude suportar isso. Eu precisei agir.
Hoje pela manhã, nós três nos reencontramos, The Crow, Coringa e eu. Enquanto eu perseguia Coringa pelas ruas centrais de Gotham, The Crow chegou planando em uma mochila voadora. Vestia-se com seu elegantíssimo smoking e trazia uma máscara em forma de bico de corvo sobre a boca. Pousou ao lado de Coringa e apontou uma moderna pistola de disparos a laser em minha direção. Ele havia ponderado que se tentasse matá-lo antes de mim, eu o impediria por causa dessa, segundo ele, minha mania de paladino da justiça. Por outro lado, se desse prioridade à minha morte, adquiriria a confiança do maior criminoso destes nossos dias, mas não sabia ele ter Coringa jurado a minha morte e jamais vir a permitir que outra pessoa realizasse esse seu intento. Esse foi o seu pior erro.
Rapidamente, Coringa apontou a flor de sua própria lapela, um lírio arroxeado, na direção do rosto do rapaz e ejetou dela um gás que o fez cair instantaneamente.
Lancei-me de imediato na direção dos dois, mas Coringa foi ajudado por seus auxiliares e conseguiu fugir mais uma vez, enquanto eu me debruçava sobre The Crow e o ouvia falar suas últimas palavras: "Vocês dois precisam ser detidos, precisam morrer! Já causaram muito mal a pessoas inocentes. Quantos ainda necessitarão morrer por causa dessa disputa idiota entre vocês? Há dez anos vocês mataram a minha irmã e agora a mim! Quem vai detê-los?", e sua cabeça pendeu de lado.
E por causa destas palavras eu estou aqui, Doutora. Precisando desesperadamente de sua ajuda para descobrir o caminho a seguir. E, se possível, abrandar um pouco esse remorso que me faz pensar em matar Coringa e depois também morrer.
- Olha Sr. Batman, eu estou realmente impressionada! Nos mais de trinta anos de exercício da psicologia junguiana por mim praticada, pela primeira vez eu vejo alguém entrar em meu consultório expressando cabalmente o arquétipo Sombra, e preciso dizer, em toda a sua plenitude! O senhor assumiu o papel de morcego, chegando mesmo a ir morar em uma caverna. Veste-se na mais profunda dimensão da negrura e usa uma capa que o faz parecer voar quando corre. Até a sua voz é gutural e o senhor usa, literalmente, uma máscara! Estou maravilhada! Mas vamos lá, temos muito a tratar...
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Sombras de Gotham
FanfictionOs inúmeros traumas psicológicos sofridos por Batman o levam a narrar suas experiências diárias, numa tentativa desesperada de se autoconhecer e se tornar cada vez melhor.
