O que deveríamos fazer da vida quando já temos tudo o que planejamos?
Uma vida estável, uma formação boa, trabalho estável e uma renda boa. E mesmo assim sentindo que tem algo faltando. Encaro as paredes desbotadas do meu quarto enquanto penso no que temos para a mesma rotina de sempre. Desligar o alarme do celular que tocou como sempre uns dez minutos depois de eu acordar. Dou bom dia para meu bichano que dorme junto de mim e levanto da cama. Assim que pouso meus pés no chão sinto minhas juntas estralarem assim como meu pescoço. Vejo-me no espelho ao lado da cama e me pergunto como consigo ter uma vida tão monótona em tão pouco tempo de vida. Olho para meus cabelos que mais parecia um ninho de passarinho, encaro minha pele morena em contraste com a luz do sol que serpenteia por entre as cortinas. Sinto a brisa da manhã arrepiar minha pele. E olho novamente para meu reflexo, agora enxergando mais nitidamente e o sono se dissipando pouco a pouco. Sou bonita. Tenho esse entendimento, porem na minha vida sinto que falta algo. E não sei o que é. Cruzo para ir ao banheiro pra fazer minha higiene matinal e tropeço em minha gata, ela é uma gata malhada muito preguiçosa que passa dormindo e um dos lugares preferidos dela é no tapete do banheiro. Afago a cabeça dela como forma de desculpas. Faço minhas higienes tocando a gata do banheiro. Ela ama subir no colo nos momentos mais impróprios.
Visto-me com o uniforme. Sou policial em uma cidade onde o nível de ocorrências fica na base de 3 no mês sem nunca passar disso. Sigo para a cozinha e passo um café. Ao mesmo tempo que cato minhas coisas espalhadas pela casa. Olho o relógio constatando que, mais uma vez estava quase atrasada para o trabalho. Deixo meu café pela metade e pego a chave da minha moto, uma POP 100. Saio serpenteando pelas ruas da cidade até meu trabalho. Chagando lá, fazendo a mesma rotina de sempre. Olhar a papelada, atender os chamados do chefe, orientar estagiários para não fazerem nenhuma cagada outra vez. Da primeira o mais novo deles prendeu a algemas e não conseguia se soltar e o outro derrubou café no computador da Tenente Mariana Jackson que estava com o delegado.
- Policial Solza, a tenente esta lhe chamando em sua sala - diz um dos estagiários novos que ainda não decorei o nome.
Confirmo com a cabeça levantando de minha mesa com cautela haviam muitos papéis empilhados e organizados por cima. Bato em sua porta e entro. E lá, novamente estava a Tenente Maria me mandando para casa mais uma vez. E que não adiantava continuar a insistir pois ela já estava cansada de tentar me convencer a sair da minha mesa.
-Solza, essa já é a quarta vez essa semana que passa do seu expediente. Não tem vida social?, algo pra fazer, qualquer coisa. Pois se não te expulso fica 24h na delegacia - ela fala respirando fundo levando a mão no rosto. Pedindo aos deuses paciência dou de ombros e saio da sala escutando no fundo ela me mandando pra casa mais uma vez e que se eu não fosse ela me tirava de arrasto(o que já aconteceu, e tive de ficar afastada por "estresse por trabalhar demais".
Saio mais uma vez da delegacia lentamente, não querendo ir para casa outra vez. Olho relógio vendo que já passava da uma da manhã e saio de moto pela cidade. Sinto o vento no meu rosto acelero, até sentir meu coração pulsar e acelero mais ainda. Com o coração batendo a mil, suando frio continuo a correr. Sinto a adrenalina passando por meu corpo. Minhas mãos estavam geladas por conta do vento forte que passava por mim em alta velocidade. Respiro fundo e me assusto com um raio caindo como um chicote, agora percebo que estava chovendo. Raios e trovões retumbantes no céu noturno dando uma visão magnífica dos raios. Desacelero a moto parando em cima da ponte no rio Verde, que serpenteia ao redor da cidade. Vejo ao longe um raio muito maior que os outros acertar o chão com um clarão, me cegando momentaneamente. Assim que abro os olhos vejo meteoros caindo, ventos extremamente fortes, ligo o radio pra falar com a delegacia e sem resposta, estava mudo. Desespero-me, tentando ligar a moto que escolheu o melhor momento para morrer. Começa a chover cada vez mais forte. Tento escutar alguma coisa além da chuva sem sucesso. A única coisa que sinto além da água fria da chuva é o impacto de coisas pesadas no chão. Assim que olho para cima vejo uma bola de fogo se aproximando, tento correr em vão. Sinto meus ossos sendo esmagados e quebrando e o fogo queimando minha pele como brasa, grito com meu ultimo fôlego e respiro fogo. Sinto tudo, meu corpo pulsando e retumbando como o coração. Uma energia se infiltra nos confins do meu ser, se prendendo em cada partícula de matéria existente, mais uma vez sinto o lamber do fogo e eletricidade fazendo tudo magnetizar e apago.
YOU ARE READING
Tempestade
Mystery / ThrillerQuando sua vida está tediosa e rotineira. E algo que abala as estruturas da sua vida e modifica tudo o que você conhece.
