Era domingo à tarde. Lembro-me de acordar sem orgulho algum de estar vivo. O céu era cinzento. A brisa gelada. O ar parecia cada vez pior. Contudo não era o fato de eu não ver um céu azul desde sempre que me entristecia. Era simplesmente o fato de estar vivo. Sabe, simplesmente não é bom estar aqui para aqueles que realmente estão acordados. Talvez até tenha sido uns quinhentos anos atrás. Mas não... não agora. O ano era 2519 e eu não tinha ideia que naquele domingo cinzento um acontecimento minúsculo e sem um pingo de importância para a humanidade que ainda sobra me faria abrir os olhos de uma vez por todas.
Talvez seja importante esclarecer que 2519 não é o ano no qual escrevo isto. Quem dera fosse. A vida não era boa naqueles dias, mas com certeza era bem melhor do que é agora. Na verdade, ainda não entendo bem o que me motivou a escrever toda a trajetória que me trouxe até aqui. Talvez seja o fato de eu estar sozinho nessa prisão que eles insistem em dizer que é um presente para mim. Talvez seja a curiosidade de imaginar caso eu pudesse conversar com alguém do passado, o que ele pensaria do atual mundo que sou forçado a viver. Por fim, talvez seja a esperança que ainda me resta de que um dia alguém realmente veja a verdade e que, quem sabe, ler isto ajude alguém a realmente acordar em vez de simplesmente se levantar da cama. Seja qual for a destinação, sei muito bem quem ou o que me inspira. O passado. Tudo aquilo que não vivi, mas que fui condicionado a crer. Uma outra época na qual os dias mais sombrios não se assemelhavam em nada aos de agora. Todos aqueles que não puderam ver o presente e sei que se assustariam caso pudessem. Hoje, no 31 de agosto de 2521, quase dois anos depois daquele domingo fatídico, eu começo minha conversa com o passado. Com esse fantasma que insisto em ver nos cantos escuros desta prisão. Mas o dia de agora não mostra o que me fez terminar aqui, então talvez seja melhor retornarmos ao passado. Não é mesmo, querido Amigo do Ontem? Não pense que sou doido... bom, talvez eu esteja ficando. De qualquer forma, achei que Amigo do Ontem seria um ótimo apelido para você. Vamos lá, caro Amigo do Ontem. De volta ao domingo do dia 15 de novembro de 2519.
Eu lembro perfeitamente de me contentar com coisas poucas, afinal, não havia muito com o que me contentar. As guerras e o descaso com a natureza destruíram nosso planeta pouco a pouco. Pessoas foram advertidas, mas elas estavam focadas demais em seu próprio ego para enxergar o que realmente importava. Apesar de ter uma janela em meu quarto eu evitava olhar por ela. O céu que eu poderia ver caso olhasse não era nítido, isso porque uma redoma tecnológica cobria toda a pequena cidade habitável. As partes da redoma que deveriam ser transparentes nem sempre cumpriam sua missão graças à grande quantidade de poluição no ar. De fato, o ar ser extremamente poluído é o motivo da redoma existir. Ela não está lá simplesmente para delimitar os horizontes da cidade de Novo Paraíso, ela está lá porque possui fibras de microtecnologia que filtram de certa forma o ar possibilitando que dentro da redoma ele seja ao menos respirável. Fora da redoma é impossível respirar. Já ouvi casos de cientistas que tiveram seu traje protetor danificado do lado de fora e não demoraram meia hora até que morressem por causa da poluição e das queimaduras de sol. Acabo de lembrar outra função da santa redoma, ela protege nossas peles. Não deixa que o sol nos queime como torradas no forno, mesmo eu sabendo que muitas pessoas se tornam vítimas do câncer por causa dos raios UV mesmo nunca tendo saído da redoma.
Levantar naquele domingo não foi um ato confortável. Domingo é dia de ir com a família para os Centros de Ciência, onde os chefes de redoma e os líderes cientistas instruem a população sobre como agir e como não agir. Dizendo assim parece que nós não sabemos o que fazer, mas não é bem isso. É que eles precisam reforçar o tempo todo coisas do tipo: "ficar muito exposto à luz do dia pode te levar à morte" ou "A visita à povos de outras redomas é extremamente perigosa". Os temas em si nunca mudam muito. O que muda é a forma que o discurso é feito e o enfoque que eles julgam necessário. Não deve ser difícil para você imaginar o quanto isso soa chato para um jovem de dezoito anos que acabou de sair do ensino técnico. À proposito, acabo de me dar conta de que ainda não me apresentei formalmente a você. Talvez isso não faça diferença já que também não sei seu nome e me limito a te chamar de Amigo do Ontem. Mesmo assim acredito que seja mais amigável se eu o fizer. Sou Kaio Collins, uma vergonha para minha família e provavelmente para todo o povo da minha redoma.
ANDA SEDANG MEMBACA
Doce Controle
Fiksyen SainsEles proibiram todas as formas de religião. Disseram que era um atraso e que a fé sem limites do povo num paraíso livre das dores do mundo real os impediram de cuidar da natureza. O mundo começou a se deteriorar e somente a ciência teve algumas solu...
