Fazia silêncio dentro do veículo que atravessava uma rodovia vicinal do interior, após longas horas de estrada. Eram poucas as avarias no asfalto, marcado apenas por pequenas rachaduras, porém o carro sacolejava como se estivesse passando as rodas em uma trilha esburacada de terra.
Ao volante, Laura não deixou de reparar no filho mais velho, que, ansioso a seu lado, balançava uma das pernas freneticamente. O adolescente, de roupas largas e cabelos desgrenhados, buscava a fuga para suas aflições na música alta que tocava em seus fones de ouvido, encarando a paisagem bucólica pela janela sem enxergar nada além do que o perturbava em pensamento.
- Filho... _Laura se dirigiu a ele com carinho, mas não foi atendida._
- Tiago! _Empostou mais a voz._
O rapaz prontamente se virou para a mãe, s afastou o aparelho das orelhas para escutá-la.
- Quer parar pra tomar uma água com açúcar?
Tiago não entendeu a indireta. Buscou algum tipo de cumplicidade no olhar do irmão mais novo, sentado no banco de trás, mas Bruno também não parecia estar a par das intenções da mãe.
- Por quê? _Limitou-se a ser direto._
Sem desviar os olhos da estrada, Laura procurou pelo caçula não retrovisor.
- Tudo bem aí atrás, Bruninho?
- O carro tá tremendo _Respondeu_
Bastou ela sorrir para o filho mais velho entender que era de sua perna inquieta que estava comentando. A contragosto, Tiago parou de sacudi-la e não deu margem a novas conversas, voltando a encarar a janela, nitidamente apreensivo com a viagem.
O jovem nem sempre foi de poucas palavras. No entanto, desde a última vez que percorreram aquela mesma estrada, quase uma década atrás, seu comportamento arredio soterra qualquer resquício de talento social. Gostaria de afastar as divagações sobre um passado confuso cuja lembrança o torturava, mas via-se indo em direção ao epicentro da tormenta.
Laura, sempre comedida na abordagem com o filho, sabia que o silêncio desconfortável no automóvel era sinal de que ele talvez não estivesse pronto para voltar, mesmo após tantos anos. Contudo, em algum momento, seu mais velho teria de enfrentar os medos antigos para se tornar um adulto confiante e preparado para outros problemas com que a vida ainda haveria de brindá-lo.
- Eu acho que vai ser bom, filho. _Aproveitou para tentar oferecer uma solução hipotética ao assunto que o angustiava: - Mas, se for muito difícil passar a noite na vó Célia, a gente arruma uma pousada.
- Não sou mais criança!
Apesar da rispidez no rebate, sua tentativa de encerrar o assunto não foi o suficiente para fazer a mãe desistir de falar:
- Tenta ver pelo lado prático. Essa visita pode ser uma oportunidade para você esclarecer o motivo de ter ficado com esse medo todo da casa. _Sugeriu, esperançosa de que algumas palavras sensatas pudessem atrair a disposição do adolescente._
Antes Tiago contestar, Bruno se intrometeu na conversa:
- O que tem na casa da vovó?
- Não tem nada! _Laura fez questão de inibir de imediato qualquer interpretação mirabolante vinda da cabeça do mais novo.
- Acontece que seu irmão começou com umas histórias quando tinha a sua idade e não teve Cristo que as tirasse da sua cabeça.
- Do quê?
Para evitar uma resposta da mãe, a censurou com o olhar, sugerindo que aquele não era um assunto a ser tratado com uma menino de 6 anos.
- Coisa boba que criança gosta de inventar, filho. _Limitou-se a dar uma resposta evasiva, respeitando a vontade do mais velho.
- Mas sempre que eu falava de visitar a casa da sua avó, o Tiago se trancava no quarto e fazia uma birra absurda. Só melhorou depois que uma tia começou a conversar toda semana com seu irmão pra tentar entender direito por que ele tinha criado essa história.
- Que tia?
- Minha psicóloga, Bruno. _ Tiago atravessou_
- A mãe tá falando que eu tenho problema na cabeça.
- Eu não disse isso! _Laura se irritou com as palavras colocadas em sua boca._
- Só estou explicando pro seu irmão a razão de ele nem se lembrar direito a avó. Depois de dez anos, essa foi a primeira vez que você não criou caso pra vir para cá. Se foi a terapia que te convenceu, que bom! Mostra que você tá progredindo.
O comentário foi indelicado e ela se deu conta da grosseria assim que escapou dos seus lábios. Conhecia o filho bem o suficiente para saber que aquelas palavras impensadas, embora não tivessem a intenção de magoá-lo, bastariam para fazê-la perder o pouco de atenção conquistada.
No rosto do rapaz estampava-se uma apatia enganadora. O único sentimento decifrável era sua vontade de pôr um fim à conversa.
- Explica agora por que o Bruno tem o pulmão estragado. _Tiago provocou, antes de escapar de volta aos seus fones de ouvido.
- Eu tenho pulmão estragado?! _Assustou-se o pobre garoto._
- Não, Bruno, você não tem o pulmão estragado! Já te falei que é só asma. Seu irmão vem com besteira quando quer fugir de assunto que ele não gosta de discutir.
Era fato que, apesar de o menino levar uma vida normal, cuidados eram necessários para que suas crises não fossem tão severas. Bruno tinha predisposição genética para a doença e esse era o fator mais preocupante. Portanto, era imprescindível que ele tivesse sempre à mão uma bombinha para o medicamento preventivo diário outra com broncodilatadores, para os ataques noturno. Seus pulmões choravam com frequência e Laura jamais correria o risco de ver mais alguém de sua família adoecer gravemente por complicações respiratórios.
* * *
Ainda que Tiago ansiasse por algum contratempo que o impedisse de chegar ao destino, o restante do trajeto foi mais rápido do que o esperando. Quando o carro estacionou na pacata rua, onde ficava o antigo casarão de sua avó, o sol ainda brilhava, clareando a fachada do endereço para lhe reapresentar o palco de seus medos mais profundos.
O primeiro a sair em disparada, logo com a parada do veículo, foi Bruno, exausto pelas horas sem poder esticar as pernas. Ele correu em direção à parta, sob a porta-malas para buscar as bagagens.
Receoso em abandonar o automóvel, Tiago encarava a casa pela janela, nitidamente incomodado por estar em frente à contrução que tanto o assombrava. Se tivesse a opção, jamais retornaria. Porém, não queria atravessar toda a adolescência com horror de algo que sua terapia o fizera questionar se de fato era real. Para ter uma vida adulta livres de temores ingênuos, ele reconhecia a necessidade de ter que rejeitar sua covardia. Precisava certificar-se de que o que vira quando criança era apenas fruto da sua imaginação.
Sem pressa, o jovem alcançou a maçaneta e pôs-se de pé do lado do carro, repudiando a nostalgia desagradável que a imponente casa dos pesadelos lhe trazia ao reclamar a última vez entre suas paredes.
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A CASA DOS PESADELOS
Horror"UMA APARIÇÃO COM UM ROSTO INDEFINÍVEL, DESFIGURADO, COM CABELOS ESVOAÇADOS E QUE EXALAVA HORROR." Dez anos depois de estar cara a cara com aquela assombração, Tiago finalmente concorda em voltar à mesma casa para visitar sua avó. Agora adolescente...
