MENTE VAZIA

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 É uma vozinha que fica em minha cabeça, ela está constantemente falando, sussurrando, é um pouco chato às vezes, mas é minha única companheira é com quem eu converso, discuto, é alguém que me conhece. 

Foi no  4º ano que ela começou a ficar mandona, até então não me incomodava. Ela pedia que eu pegasse uma borracha, ou que eu pedisse para ir ao banheiro, mesmo que eu não estivesse com vontade. Mas um dia no aniversário de três anos do meu irmãozinho ela mandou que eu empurrasse a cabeça dele no bolo,quando fosse cantar parabéns. Concordei, porque achei que seria engraçado, minha mãe não achou, meu irmão muito menos, ele chorou muito e isso me custou umas palmadas e uma semana de castigo. Fiquei brava com a vozinha como ela pode me pedir para fazer isso?

Eu a ignorei durante alguns dias e ela começou a ficar irritada, e irritante eu sentia vontade de bater a cabeça na parede para fazer ela parar. Ela gritava, não parava, era de dia e de noite sempre dizendo que eu não era nada sem ela. Como eu ousava a não querer obedecê-la?

Não adiantava eu falar para minha mãe sobre a voz, ela não acreditava e até rio e disse que eu tinha que assumir minhas próprias ações, afinal eu já era uma mocinha. Ninguém me escutava, ninguém me ajudava eu só tinha a voz...

Então...o que eu poderia fazer? Ela não parava de falar, eu odiava quando ela me acordava de madrugada e sussurrava coisas que eu não entendia. Um dia ela disse que o garoto da casa ao lado estava me olhando e que ele queria namorar comigo....essa ideia me deixou assustada, ele era mais velho. A voz disse que eu tinha que dar um jeito nele e mandou que eu entrasse escondida no quarto dele, ela achava que tinham fotos minhas e que ele  me espionava à noite.

Lógico, que eu não concordei, não iria fazer isso, nunca...a vozinha ficou irritada e quando ela ficava irritada começava a gritar e a cantarolar um poema que me dava arrepios:

"Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;

Um deles se engasgou, então ficaram nove.

Nove negrinhos sem dormir; não é biscoito;

Um deles caiu no sono, então ficaram oito..."

Ela continuava até não sobrar nenhum, sabia que eu ficava assustada. Um dia me fez pintar os negrinhos na parede do quarto, o  meu pai ficou tão bravo que gritou comigo durante horas enquanto eu limpava os desenhos.

Então não havia mais jeito eu tinha que obedecer a voz, foi num domingo, os vizinhos saíram fui até à casa deles, entrei pela janela do quarto, morávamos em um bairro tranquilo e a maioria não colocava grades nas janelas até aquele dia. Quebrei o vidro com uma pedra,a vozinha disse que eu não iria me machucar, era mentira eu cortei a mão, enfim fui ao quarto do garoto, tinha cheiro de lavanda, as paredes eram rochas, a cama estava forrada com um edredom de super heróis. Descobri, porque cheirava lavanda, tinha uma flor no travesseiro, deveria ter sido a mãe dele que pôs. A minha mãe nunca forrava a minha cama, ela dizia que era minha responsabilidade. A voz continuava a falar para eu procurar as fotos que com certeza ele tirara de mim, eu não encontrei nada, então a vozinha ficou nervosa e começou a cantarolar o poema, novamente, e mais alto, eu gritei:

"O que você quer que eu faça?" 

Ela me chamou de incompetente, de chorona, mandou eu colocar fogo no quarto dele. Não, isso eu não iria fazer, então ela cantou mais alto, e ria me chamando de covarde, disse que o garoto ia continuar me espionando. Perguntei o que ela queria que eu fizesse, ela disse que eu deveria ir até à cozinha pegar álcool e fósforos era só jogar no colchão e acender o fogo, não iria ser perigoso - ela disse - iria queimar só um pouquinho e nunca mais ele me espionaria.

Concordei, fiz o que ela mandou assim eu teria um pouco de paz e quem sabe até poderia dormir....ah dormir...seria bom, desde que a vozinha começou a ficar mais mandona que eu não consigo dormir direito. 

Vi o colchão queimar aos poucos, o fogo começou a aumentar e... era bonito, parecia que estava dançando, fiquei olhando, queria ficar mais, mas a fumaça estava me sufocando eu mal conseguia respirar. Saí correndo da casa e me escondi no meu quarto.

Meus pais viram a fumaça e chamaram os bombeiros, foi um sufoco, apagaram o incêndio fiquei sabendo que queimou todo o andar de cima da casa, a família ficou muito triste, o garoto estava com um olhar de assustado, mas eu estava satisfeita. 

Sabe, senti prazer, e a vozinha ficou quieta durante alguns dias. Eu consegui dormir, minha mãe trazia comida para mim. Eu via meu pai e meu irmãozinho de vez em quando. O quarto estava diferente, a minha mão doía um pouco, ela estava enfaixada. Eu tinha a impressão que via a minha mãe chorando, ela olhava estranho para mim, e também vem um homem me visitar, ele usa uma roupa branca, pergunta algumas coisas, eu quero contar para ele da vozinha, eu vou contar.... Ela voltou e disse que agora não era o momento, ela está ,me mandando fazer coisas estranhas. O homem é gentil... ele traz chocolates...ele me faz dormir.....mas a vozinha disse  para eu não comer as balinhas que ele traz e me manda jogar fora.....eu obedeço.....





Mente vaziaWhere stories live. Discover now