Praça do Pardal

20 1 0
                                        


Pela primeira vez em anos, algo me fez voltar a escrever sobre os eventos inebriantes da praça do pardal. Já faz tanto tempo que me vi tentada a divulgar um acontecimento, que duvidava que algum dia a minha velha máquina de escrever sairia de sua caixa para além de seus cuidados com tinta e polimento.

A propósito, sei que não me apresentei, mas meu nome não importa. Todos me conhecem com um pseudônimo, sendo eu uma jornalista independente que adora "meter o bedelho onde não foi chamada", mas assim mesmo lêem minha singela coluna desde menina. Então, caso queira me dirigir qualquer palavra, mesmo em sua mente curiosa, pode me referir como a Dama dos Pardais. Sendo isto esclarecido, sigamos.

De todas as histórias entornadas pela sociedade que beira à praça, não haveria figura que melhor me deixaria surpresa que o dr. Oliveira. Poderia pensar que uma revolução viria da madame Cristal, vidente que vez ou outra se instala aqui para conseguir algum dinheiro de pobres almas ingênuas. Ou talvez, do peculiar senhor Salomão e suas constantes discussões acaloradas sobre política com qualquer vivalma que lhe ofereça mínimo espaço para debates.

No entanto, o sério e pacato dr. Oliveira escaparia da minha atenção por sua tão comum história. Não que pudesse me surpreender por sua delicadeza, de fato é um homem de extrema educação e cordialidade, porém jamais me passaria que sua discrição pudesse, alguma vez que fosse, ser ignorada.

Permita-me elucidar, caro leitor imaginário. O senhor Elídio Carvalho Oliveira Paz sempre foi um cavalheiro de poucas palavras. Tive a oportunidade de crescer tão junto à ele quanto qualquer um de meus colegas que frequentava a praça dos pardais na juventude, ali pela idade dos 13/14 anos. Não que fosse ele um rapaz desimportante na grande união adolescente, porém sabia não se fazer notado, perdendo-se em pensamentos distantes tão poucas vezes compartilhados.

Em seus devaneios acabava por não usufruir da molecagem tanto quanto os mais notáveis membros da turma. Estes competiam sobre quantas meninas poderiam causar suspiros e, com mais idade, levar a seu leito. Enquanto isso, Elídio estudava no seu quarto em boa parte das aventuras e, quando estava com o grupo, conversava com as meninas em outro tratamento: educação, cavalheirismo e amizade. Não preciso afirmar que nós, moças, gostávamos mais dessa figura que os rapazes.

É claro, dentro de toda a estereotipação promovida pelos meninos da praça do pardal, havia de se imaginar que o estudioso moço não fosse muito interessado romanticamente em mulheres. No entanto, de alguma forma sempre soube que isso não era verdade. E tal hipótese se comprovaria com a chegada de Violeta, tão meiga quanto o floral de seu nome sugere.

Bom, uma vez que estou a contar-lhe tudo sobre o ocorrido, devo especificar melhor sobre essa nossa nova personagem. Pelo o que tenho conhecimento, Violeta é filha de um dos diretores de uma empresa importante de telefonia, sendo a mãe a sua antiga secretária que, uma vez que seu marido recebeu uma excelente quantia salarial, decidiu por fim dedicar-se a instruir sua filha mais moça e se fazer notável na sociedade.

Me lembro bem quando a menina chegou. Um vestido claro, olhos escuros e curiosos, laço marfim prendendo parte dos lisos cabelos de ébano, parecia uma figura saída de algum livro de romance inglês. Tinha uma voz tão doce quanto sua aparência, e confesso que cheguei a estranhar tamanha delicadeza de boneca naquele jeito meigo.

Porém, devo alertá-los que não se demorou muito para que Violeta integrasse o seu lugar em nosso grupo, porém tão timidamente quanto o Elídio. Ele, no caso, tinha suas tentativas desengonçadas de aproximar-se da moça, enquanto ela se encabulava em retorno e aceitava a aproximação. Podem chamar-me do que quiser, mas eu não teria tamanha paciência e discrição nesse "jogo de conquista" que levou cerca de um ano, e que talvez pudesse ser solucionado em poucos meses.

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Sep 30, 2019 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Praça do PardalHistórias para pegar e não largar. Descubra agora