Estava eu sentada em um banco na frente de casa, muito entediada com aquela porra de cidade, pensando que me tornei o que mais temia - As vizinhas fofoqueiras daquele bairro, sempre sentadas em frente suas casas cuidando da vida uma da outra.
Poderia vir aqui e fazer a linha das pessoas que não se envolve neste tipo de resenha, o que é verdade, eu não me envolvo, porém na maioria das vezes ouço, e confesso que ouço com certo julgamento, porque a única coisa divertida que se tem pra fazer aqui é ficar analisando aquelas histórias que as vizinhas criavam, ou muitas das vezes aumentavam e se contradizião. Sem conta que eram discursos carregados de preconceito e intolerância, tudo para falar mal de outra pessoa. Isso me revoltou por muito tempo, me fez entrar em atritos que só me causaram desgaste emocional. Aprendi que a vida é feita de escolhas, portanto, escolhi me divertir em pensar o quão limitada essas pessoas são e o quanto de coisas boas nesse mundo eles vão deixar de experimentar por puro preconceito, ao invés de me irritar e ficar mal por pessoas que eram incapazes de debater questões de forma racional e adulta.
Neste dia minha mãe estava comigo, fazia um calor infernal, era 18:39. Sei o horário com essa precisão porque a vizinha da casa 502 veio na nossa direção e perguntou que horas eram e em seguida disse:
- Nesse horário a Beth do 509 está quase saindo pra ir à igreja. Eu acho um absurdo alguém aceitar uma filha lésbica dentro do seu lar, e ainda poder frequentar a casa de Deus.
Minha mãe ficou visivelmente desconcertada. Ela não sabe que sou lésbica, ou melhor finge que não sabe, não sou assumida, até porque não acho necessário, se héteros não precisam se assumir também não vou.
Ser segura na teoria, é fácil né, poderia dizer que levaria uma namorada em casa e não se importar com as consequências já que os héteros fazem isso o tempo todo, mas na prática nunca levei uma menina em casa pra ela conhecer, e nunca fiquei com meninas perto dela.
Bom quero dizer, mais ou menos, porque certa vez quando ela conseguiu pegar um ônibus mais cedo pra chegar em casa depois do trabalho, ela me viu no maior amasso com um garota assim que virou a esquina da nossa rua, estávamos atrás de uma árvore que ficava bem próxima a esquina, as pessoas da rua não conseguiam nos ver, mas quem virava a esquina via nitidamente eu prensando a garota no tronco da árvore; a garota com a minissaia levantada e a calcinha presa nas canelas pelas pernas entreabertas e eu com a mão de baixo da saia dela fazendo movimentos de dedada enquanto a beijava. Eu só notei que era minha mãe, porque a Raquel percebeu alguém virando a esquina e me mandou parar. Eu me virei pra ver que era, e meus olhos se cruzaram com os da minha mãe.
Aquele lugar me excitava, gostava do perigo de ser pega, porém não pela minha mãe né. Neste dia ela só me olhou fixamente no olho, em seguida desviou o olhar e seguiu seu caminho até em casa, que era umas nove casas pra frente da esquina. Eu fiquei em pânico, não gostaria que ela soubesse dessa forma, apesar de um sentimento de alívio ter me tomado em seguida; aquela palhaçada toda de se esconder tinha acabado.
Subi a rua um pouco apreensiva sobre o que aconteceria, mas pasmem, minha mãe fingiu que nada aconteceu. Também fui covarde, deveria ter afrontado ela e jogado tudo na mesa, mas estava acomodada com aquela situação, pois meu pai sabia, no entanto eles eram separados e não se falavam, mas para o meu pai foi muito de boa. Meus primos todos sabiam, me arranjavam até mulheres, e eu passava os caras héteros que davam em cima de mim para as minhas primas. Minhas tias eram do mesmo perfil que minha mãe: "você finge que não faz e eu finjo que não vejo ".
E foi por isso que ela ficou desconsertada com o comentário da vizinha e logo cortou o papo e entrou para dentro de casa.
É claro que o boato da filha lésbica da Beth me interessou, meu , gaydar nunca apitou com a Natália, mas pode ser intriga da vizinha do 502.
Fiquei mais um tempo sentada ali, quando recebo uma chamada da Bia, ela está me chamado pra ir no Up, que é um bar bem alternativo da cidade vizinha, onde é uma cidade bem maior que a minha, e consequentemente com um público LGBT maior. Digo a ela que até iria, mas estava sem grana até para o transporte, aquele mês estava foda. Ela disse que me pegaria em casa e me pagaria três chopes dos grandes. Esse empenho todo era porque ela iria encontrar uma menina que conheceu no Tinder, e quando conhecíamos meninas em aplicativos tínhamos um acordo de sempre irmos juntas e ficar em uma mesa por perto caso desse merda né . Eu topei, combinamos as 23:00.
Bia chegou em casa às 21:00, toda insegura. Eu disse:
- Caminhão até parece que é a primeira vez que você vai pegar mulher do Tinder. Disse, em seguida dei uma gargalhada. - Posso até adivinha, outra padrãozinho, possivelmente loira e magricela que não quer nada além de comer bem e gozar.
Eu sabia que Bia queria algo sério, ela era (da nossa roda de amigos) a que tinha mais grana, então , consequentemente atraia muitas minas que não queriam ela de fato e sim a grana dela. Só que ela não era burra , mais cedo ou mais tarde sacava isso e acabava pondo um fim na relação. Aí sobrava pra gente aguentar a Bia sangrar até morrer pelo fim do relacionamento e se encantar por outra, e vivendo nesse looping eterno.
Bia sempre estava ou sangrando até morrer por ex, ou extremamente apaixonada por mulheres que sugavam ela, e não no bom sentido. Todos nós nos incomodávamos com essas meninas que ela arrumava, alertávamos, porém ela só nos dava ouvidos quando via com os próprios olhos, ou seja; quando a menina já tinha aprontado um monte. Como não podemos mudar os outros, só faço meu papel de amiga em alertar, e fico na minha né, a vida é dela .
Bia respondeu:
- Pior que não caminhão, (nos chamávamos assim), desta vez é diferente, estamos conversando a uns dois meses, e ela não é igual as outras.
- Aff miga, ela tá há dois meses te enrolando fala sério. Não me diz que está dando dinheiro pra ela!? Disse.
- Não miga, e pior que eu que adiei esse encontro, porque estou com medo! Afirmou.
- Aahh pronto, medo do quê? Do seu pau de borracha brochar? Ironizo seguido de uma longa gargalhada.
Bia parece série demais, ela sempre entrava na brincadeira, desta vez parece que é diferente.
- Ela é hermafrodita. Bia leva a mão ao rosto e continua: - Ela me disse isso após dois dias de conversa , eu pensei que era um tipo piada dela, mas depois ela me enviou inúmeros artigos falando sobre, era tudo tão assustador que não consegui ler, parecia irreal , pensei em parar de falar com ela, mas ela é tão fofa que quando via já estava respondendo e acabei me envolvendo de uma maneira que não tinha mais pra onde fugir, então decidimos nos ver.
Quando Bia terminou eu estava espantada ouvindo tudo aquilo, e com um pouco de rancor dela não ter falado antes pra mim sobre essa garota; poxa somos melhores amigas.
- Miga fica calma! Falo tentando apaziguar a situação pois nunca tinha á visto daquela forma, mas confesso que se tivesse no lugar dela também não estaria tranquila. Questiono: - Qual seu maior medo?
- Eu estou apavorada com o que fazer, eu nunca fiquei com uma hermafrodita antes, e se ela não tiver o buraco? E se ela não sentir prazer? Eu realmente não sei o que fazer, me sinto de mão atadas; sexo sempre foi meu ponto forte, se fosse outra garota, eu saberia exatamente como acabaria essa noite. De repente aparece alguém que eu nem sei onde devo ou não tocar. Já imaginou se ela tem um pau de trinta centímetros na parte interna da coxa que fica cutucando minha bochecha enquanto faço oral nela .
-Posso ver a foto dela? Pergunto.
Bia saca o celular do bolso e me mostra a foto dela.
- Ela não parece ter um pau de trinta centímetros na parte interna dá coxa, esse vestido revelaria com certeza. Ironizo.
- Luana é sério.
- Tá, mas você quer isso não quer? Não acha que tá sentindo algo por ela?
- Absolutamente!
- Então minha amiga ou você encara esse medo, ou fica a vida Inteira namorando ela só pela internet. E pense pelo lado dela, também não deve ser fácil, imagina quantas pessoas já não saíram correndo só de ouvir a palavra hermafrodita?
- Sim ela disse isso, que nunca passou dos beijos com ninguém porque sempre que contava pra uma garota que estava ficando, elas sumiam. Ainda tem mais essa pra me preocupar, ela é virgem.
- Você deveria estar feliz por ela não está no rebuceteio. E aí, você vai ou não?
- O que você acha? Ela me questiona.
- Não posso decidir por você Beatrice! O Que você quer? Mas pensa rápido porque temos que sair agora se não não chegamos a tempo.
- Aí que difícil! Beatrice fecha e olhos com as mãos, em seguida tira as mãos dos olhos e diz: - quero, vamos! Diz com um tom decidido que me orgulha.
Quando abro a porta do meu quarto, percebo minha mãe se afastando depressa de perto da porta. Obviamente estava nos ouvindo atrás da porta. Fico imaginando o que ela deve está pensando de tudo isso, se já é difícil pra gente, imagina pra ela que é retrógrada. Mas não tinha tempo de pensar na minha mãe, estava rolando drama de mais naquele momento.
Seguimos rumo a cidade vizinha.
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Tulipa
Non-FictionMergulho no mundo de um grupo de amigas Lésbicas . ® Direitos reservados .
