A platéia vibrava. O momento enfim chegara. Gritos, choros, conversas. Tudo se tornava um som uníssono. Uma única vibração destinada a ela.
E ela já estava pronta. Posicionada e concentrada a espera do tiro da pistola. Aquele som decisivo que mudaria completamente o rumo de sua vida. Som que ela aguardava há tanto tempo, e que nunca fora capaz de ouvir.
A pistola disparou, e com o som sua arrancada foi perfeita. Correu. Correu como se não houvesse amanhã, mas os pesados grilhões a seguravam. As correntes a travavam de maneira terrível, reduzindo sua velocidade, até que forçaram sua parada.
O rubro céu começou a cair então, e a chuva escarlate manchou a imensidão terrena. Maculou a pele da jovem que ainda estava parada. Havia muito peso em suas costas, muito remorso e dor. Grilhões pesados demais para se desprender.
Forçou. Precisava se soltar daquelas algemas, daquela prisão. Precisava correr. Forçou, sentindo o desespero crescer e tornar-se indomável. Ficaria ali por mais tempo? Não, não poderia.
Respirou fundo, e forçou novamente. Queria se soltar de todo aquele peso que a travava, que machucava e prendia.
Forçou.
Forçou.
Forçou.
Aceitou.
Aceitou que não deveria ser tão forte. Que tinha falhas, medos, pesares... Mas, que acima de tudo tinha esperança. Esperança de que ia conseguir, de que ia triunfar. E assim, pouco a pouco, os grilhões foram se soltando, até que ela estava livre.
Livre para correr novamente. E correu, livrando-se daquela rubra mancha que a maculava. Limpando-se na límpida chuva que voltava a cair. Sentindo os ventos impulsionarem-na, e toda aquele anseio pela liberdade.
Avistou a chegada, estando a poucos metros da mesma. Faltava tão pouco, mas o terreno se abriu, esculpindo buracos imensos que queria engoli-la. Trazê-la para aquela escuridão novamente, afundá-la em uma imensidão negra e densa.
Não importava quantas vezes ela triunfasse, o mundo queria vê-la cair, fracassar. Porém, sua esperança era muito mais forte que isso.
Ultrapassou a chegada, rasgando a faixa decisiva. E assim viu-se criança, aquela que esquecera há tanto tempo. As lágrimas escorreram alegres, havia conseguido. Aquele mundo estava destruído sim, mas ela estava indo embora, triunfante.
E assim, o som constante de um "tu" se foi ouvido, e com ele aquele sorriso se fez. Finalmente estava livre.
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Corra
Short StoryEsse micro conto é parte de um desafio proposto a mim. Tentando fazer com que eu saia da minha zona de conforto escrevendo algo fora da fantasia, terror, horror, criminal, suspense e gore. Corra pode ser interpretado da maneira que bem preferir, por...
