Catharina e o Coração de Lata

32 1 0
                                        

Não eram raras as vezes que Catharina ia com seu pai Herbert ao interior de São Paulo, afinal, Herbert tinha que aprender com a mãe a cuidar da chácara que havia de ser dele e não tinha com quem deixar a pequenina. Ele sempre dizia que seria legal, mas ela, esperta que era, sabia muito bem que um lugar sem eletricidade e longe de tudo que há não teria como ser "legal". Ela ficava emburrada, mas eventualmente acabava aceitando. Isso não quer dizer, no entanto, que parasse um minuto de reclamar durante a viagem, para punir o pobre Herbert.

-Papai, por que o senhor gosta tanto daquele lugar fedorento? Por que o cocô das vacas fede tanto? -Ela sempre perguntava.

A resposta do velho variava entre uma leve repreensão até uma explicação didática do porque cocô das vacas tinha cheiro de cocô de vaca, mas isso não a impedia de fazer mais novecentas e trinta e sete perguntas completamente aleatórias e desconexas até o fim da viagem.

Os dois moravam sozinhos no meio da selva de concreto, e ela tinha poucos amigos por causa do estilo de vida frenético de Herbert. Frequentemente eles mudavam de endereço. Na fazenda, no entanto, ela sentia-se mais confortável, embora não gostasse de admitir. A teimosia das crianças às vezes pode fazer aflorar impulsos homicidas em qualquer um. Seu passatempo preferido era tocar uma pequena viola de plástico e improvisar canções de desilusões amorosas com lógica duvidosa, ou, quando o pai perdia a paciência e tomava dela o pequeno instrumento, qualquer outra coisa que produzisse um som desagradável. Na fazenda ela era livre pra fazer isso à vontade sem ninguém reclamar. As vacas, pelo menos, nunca falaram nada a respeito.

Certo dia ela assistia formigas caminharem para o formigueiro quando sentiu um leve impacto em sua panturrilha. Uma manga a atingira e parecia ter vindo do meio das árvores.

-Tá vendo? É ela! É ela! -Ela ouviu uma voz sussurrar da direção que veio a manga.

Ela ficou confusa, e talvez por não ter ainda uma noção apurada do que pode ou não ser perigoso, caminhou em direção às vozes.

-Não precisava ter jogado uma manga! Agora ela vai vir atrás da gente, seu idiota! -Disse outra voz, num grito sussurrado.

-Corre, se ela pegar a gente, vai nos comer pela cabeça, com certeza! -Disse uma das vozes.

-Quem tá falando? Essa manga é um presente pra mim? -Perguntou a menina.

-Não responde, é uma armadilha! -Sussurrou uma das vozes.

-É uma oferenda para você nos deixar em paz! -Gritou uma criatura.

-Você não disse que era uma armadilha? Por que você respondeu? Tá entregando nossa posição!
-Cala a boca, eu me desesperei!

As vozes vinham de um pequeno arbusto à beira das árvores, aproximadamente da altura de Catharina, que não era muito alta, ainda nos seus seis anos de idade. Ela caminhou cautelosamente em direção ao arbusto enquanto tentava ouvir as vozes, que já não diziam mais nada. Quando se aproximou o suficiente, abriu bruscamente a moita para ver quem estava dentro. O que ela viu não está descrito em nenhum livro de biologia: Um pequeno diabinho todo encolhido de medo, se tremendo todo.

-Eu disse pra não jogar a manga, idiota! - Ele disse.
-Não fui eu quem ficou gritando igual uma cabrita com fome! Você matou nós dois! -Ele mesmo respondeu.

-Você fala sozinho? -Indagou a menina.

-Cuide da sua vida, sua encrenqueira! Se vai nos devorar, devora logo! -Disse o bichinho.
-Do que está falando?! Eu não quero ser devorado! Se vai devorar alguém, devora só ele! -Disse de novo, com uma voz completamente diferente.

-Eu não vou comer ninguém, eu só queria saber quem me tacou uma manga! -Disse a menina.
-Eca, você deve ter gosto de peixe! Por que eu comeria uma pessoa crua? -Indagou Catharina depois de pensar um pouco no que ouvira.
-Você é uma pessoa, né?

-Você é uma mentirosa! Se não come pessoas, pra que servem seus dentes? -Indagou o demônio.
-Eu não sei, pergunta pro meu pai! Ele sabe de tudo. -Ela respondeu.
-Ela está mentindo. Não confie nela. -Ele disse.
-Ela não está mentindo, eu acho que ela é uma criança. Olha o tamanho dela, não comeria a gente mesmo se quisesse. -Disse a outra voz.

-Qual seu nome? -Ela indagou.
-Sílvio. Não que seja da sua conta. -Disse o bichinho.
-E por que jogou uma manga em mim? E por que você fala? Eu nunca vi um cachorro falar.
-É porque o Coração de Lata pediu. Lembra dele, não lembra? -Disse Sílvio.
-Não. -Ela respondeu.
-Muito conveniente. Muito conveniente mesmo. Tá ouvindo? Ela disse que não lembra do Coração de Lata. -Disse o pequenino.
-Eu não conheço essa palavra. Posso comer a manga? Meu pai disse que manga faz crescer o cabelo. Quero ter um cabelão bem grande igual uma folha de bananeira. -Disse a menina.

-Eu acho que ela ficou doida. Precisamos levar ela pro Coração de Lata olhar. -Disse o demônio.
-Eu também acho. -Disse o demônio.
-Quem é esse? -Indagou a menina.
-Coração de Lata? É o manda chuva daqui. Nada acontece sem ele ficar sabendo. E saiba que ele tá bem bravo com você, menininha! Mas ainda podem fazer as pazes. É só vir com a gente.
-Eu não vou pra lugar nenhum! E vocês não falaram nada sobre a manga, então eu vou comer!
-Pode ficar com a manga, mas o Coração de Lata quer te ver. Ele ficou bravo por você ter comido a cabeça dele.
-O problema é dele, eu não to nem aí, queridinho. Meu pai falou pra não falar com gente desconhecida. E você é fedorento!
-Menina, você que sabe. Mas ele tá muito brabo mesmo. -Disse o bichinho.
-"Você que sabe"? "Você que sabe" nada! Você tem que vir com a gente, senão ele desconta tudo na gente! -Disse com a outra voz.
-Calma, quando ela virar de costas a gente acerta ela e leva ela pro fundo do rio. -Ele sussurrou achando que ela não ouviu.
-Vocês querem me bater!? Eu vou chamar meu pai! -Disse a menina. -Pai! -Ela gritou.
-Calma menina, para de gritar! Nós não vamos te bater, ele tava brincando! -Disse o diabinho.
-Pai! -ela continuou gritando o mais alto que pôde.

Era fim de tarde quando Herbert foi atrás da filha na margem do matagal, de onde ouviu os gritos. Quando ele encontrou a trilha, seguiu correndo com mais três capangas que estavam com ele. Tudo o que encontraram foi seu sapatinho, à margem do rio, e uma manga meio comida numa poça de sangue e lama.

Catharina e o Coração de LataHistórias para pegar e não largar. Descubra agora