O que fiz, o que faço e o que pretendo fazer.

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Por muito tempo estive refletindo sobre o passado, sobre as coisas que fiz, como me custa caro no presente e como devo concertar esses erros no presente, para ter um futuro limpo.
Tenho um sobrinho de 3 anos e 6 meses, logo quando soube que minha irmã mais velha estava grávida, eu senti que a minha felicidade estava sendo gerada dentro de outra pessoa, eu amava aquela criança desde que ele era menor que um botão dentro do ventre da minha irmã. Enquanto ele crescia dentro do ventre dela, meu amor por ele crescia junto, todos da família queriam que ela estivesse grávida de gêmeos, se eles tivessem o poder de prever o futuro na época e visto o quão "explosivo" e agitado ele é, tenho certeza que ficariam como o desejo dela dar a luz a apenas uma criança.
Quando ele nasceu, eu tinha 12 anos, quem visse de longe, pensaria: "ela deve ter perdido sua mãe". Eu chorava muito, mas não de tristeza, e sim, de alegria, mal esperava para pegá-lo no colo, cantar a música que me foi passada quando eu ainda tinha 4 anos idade, quando ele chorasse, eu cantaria para ele: "não chore, seus doem, sua bunda murcha e o cachorro puxa", parece uma música tosca, na verdade é, mas sempre que minha avó paterna cantava, eu logo parava de chorar e começava a rir, imaginando um cachorro fazendo como diz a música; depois que minha avó morreu, eu perdi o sentido, perdi meu ombro amigo e meu escudo protetor, perdi a pessoa que sempre me escutava sem julgar se era certo ou errado, ela só escutava tudo e me abraçava no final, pegava nas minhas mãos e cobria com as dela; no dia do velório, eu cantei mentalmente aquela mesma música que ela cantava para mim, mas não funcionou, chorei por uma semana, tiveram alguns momentos em que eu parava e lembrava de algum momento feliz ao lado dela, lembrava dos dias de férias que eu passava no sítio dela e de quando passávamos o dia jogando jogo da memória, a melhor parte de ir passar as férias lá, era quando de dentro do carro, eu via ela acenando pra mim da porteira do sítio, de como ela sorria  quando me via.
Queria que meu sobrinho tivesse conhecido a minha avó, mas infelizmente quando ele nasceu  ela havia partido a um ano, ela com certeza faria luvinhas e meias de crochê pra ele, contaria pra ele o quão chorona e carente de atenção eu era quando menorzinha, seria engraçado.
Eu por si só, fiz muitas coisas ruins, coisas que me impedem de viver uma vida tranquila, que me impedem de me achar merecedora de alguns coisas básicas, como: sorrir, se sentir triste ou ser amada.
Eu não quero que meu sobrinho se torne alguém como eu, não quero que ele tenha arrependimentos, não quero que ele se sinta mal ao sorrir, ao se sentir triste e ao receber amor de alguém, quero que ele seja uma criança feliz, um adolescente feliz e um adulto que saiba o que quer, que seja feliz com o que vier a ser, fazer e ter.
Não quero que meu sobrinho um dia chegue a se repreender internamente e fale pra si mesmo: "eu não tenho direito de fazer isso, eu não tenho direito de sentir isso", como eu faço. Eu infelizmente não consigo sorrir e ficar em paz com isso, sempre me questiono: "será que eu tenho direito de sorrir?". Não quero isso pra ele. Nunca, jamais, quero que ele seja feliz com suas escolhas e que nunca se torne um ser miserável como eu.
Peço todos os dias, eu imploro todos os dias, para que eu tenha forças pra continuar nesse mundo, imploro a alguma divindade que esteja ouvindo minhas preces: "permita que eu viva por muitos anos e não desista, pois eu preciso resistir, pra em alguns anos, meu sobrinho ou qualquer criança que venha depois dele, tenha o direito de viver sem arrependimentos."

Clean FutureWhere stories live. Discover now