Capítulo 1

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Sentia o vento bater suavemente em seu rosto, estava em pleno vôo. Logo abaixo um vasto campo florido, seu lugar favorito em toda a ilha, afinal era esse o seu trabalho, cuidava de todas as flores do reino. Era dia de semear e por isso suas amigas à ajudavam; Maya, fada da terra, ajudava a deixá-la pronta para o plantio e Ivy, fada da água, regava toda a plantação. Pilar trabalhava do alto, distribuindo as sementes pela terra. Faziam isso ao menos uma vez por mês, sempre que uma colheita era concluída, e por isso já sabiam de cor todo o procedimento, que já estava no fim.- Pilar, desce logo, a gente terminou aqui! - Disse Maya.Seria fácil para Pilar avistar as amigas de cima ainda que fosse míope. O trio sempre chamava a atenção de todos na ilha pelas suas características. Ivy, com seu cabelo preto de mechas azuis, Maya com suas madeixas ruivas onduladas e Pilar com um indomável cabelo cacheado de um castanho bem claro.- Ai Maya, deixa ela, você sabe que toda vez é isso. Não dá pra deixar a Pilar solta pelo ar que ela já viaja.Depois de cuidar das flores, a atividade favorita de Pilar era, sem sombra de dúvidas, voar. Adorava ter uma vista panorâmica da ilha sempre que quisesse, mas o que mais chamava a sua atenção era o oceano, território proibido para as fadas. Por isso passava horas e horas observando de longe, atenta a cada movimento das ondas, e era o que fazia no momento, até ser despertada pela voz de Maya que, a essa altura, já voava ao seu lado.- Pilar! Até quando vai durar essa sua mania de ficar olhando pro mar? Não já sabe que é estritamente proibido?!- Proibido entrar, tocar, olhar não mata e nem tira pedaço!- Maya, para de ser tão implicante, vai! E Pilar, anda logo, a gente já tava te esperando há um tempo. - Disse Ivy calmamente. Ela sempre funcionava como a apaziguadora do trio, já que,apesar de se amarem, as pequenas discussões entre Pilar e Maya eram constantes.- Ela que sempre insiste no que sabe que não pode fazer, ou você já esqueceu da experiência com as flores no mês passado?!- Ninguém me avisou que eu não poderia mexer com as estruturas das flores! Eu só tava testando... Além do mais não estou fazendo nada que eu não possa. - Defendeu-se Pilar.- Eu sei, miga. Mas sempre que você bota algo na cabeça não tira mais. Não duvido nada que daqui a algum tempo você esteja dando um jeito de tá lá dentro. - Argumentou Maya; Em vão, pois há muito a amiga já estava distraída com o oceano novamente.- Espera! Você viu aquilo?! - gritou Pilar, apontando para o mar.- O que?! Onde?! - Assustou-se Ivy- Ali! Acho que era uma sereia!- Ai Pilar, pelo amor da deusa, você já tá imaginando coisa! É mais fácil ganhar na fadasena do que ver uma sereia! Vamos embora logo, você só pode tá delirando de tanto sol na cabeça. - Respondeu Maya impaciente, puxando a amiga.- Mas eu vi!!!!! - Pilar sabia do que estava falando. O vulto prateado passando rápido por debaixo da água só podia ser uma sereia, ainda que fosse praticamente impossível de se ver uma tão perto da costa.- Ihhhh, essa cara da Pilar já diz tudo. Agora não larga essa obsessão por oceano mesmo.Maya prestou atenção na feição da fada de cabelos volumosos e concordou. Pilar sorria, deslumbrada. Sabia que algo sairia dali, só torcia para que não fosse nada perigoso. Mexer com sereias nunca fora uma escolha muito sábia.Nem se lembrava mais a última vez em que estivera ali. Sempre achou muito mais prático fazer tudo no conforto do seu quarto, mas quando percebeu que não encontraria nenhuma informação útil sobre sereias utilizando a internet, se convenceu de que seria mais produtivo ir até a biblioteca, afinal, do que serviria todo aquele acervo se não pudesse ter acesso à dados mais específicos como os que estava à procura?- Nossa, Pilar! Você por aqui?! Então quer dizer nenhuma das páginas online te saciaram novamente, não é? - Aimee era uma fada robusta; sempre séria, adorava divulgar e enaltecer todo e qualquer tipo de livro, as enciclopédias eram suas favoritas e era justamente o que Pilar procurava.- Oi, Aimee! Linda como sempre, não é mesmo? Nem vou comentar o "páginas online" e hoje infelizmente não vamos poder debater sobre como a internet é sim melhor para fazer pesquisas do que esses livros que você tanto ama, mas vou deixar você me indicar uma de suas enciclopédias favoritas!- Ótimo! - Respondeu a fada bibliotecária, batendo suas asas rapidamente,como acontecia sempre que ficava animada. Pilar não entendia como alguém podia ser tão fascinada por livros quanto Aimee, mas se bem que suas amigas também não entendiam seu encantamento pelo mar, então quem era ela para julgar. - Posso saber o assunto que você procura?- Então, não sei... Quem sabe algo do tipo "criaturas aquáticas", por exemplo?!- Hmm, sei. Tubarões, peixes...- Sereias, talvez...- Sereias?! O que você quer com as sereias?! Você não está tendo contato com nenhuma delas, está?! Você sabe que é proibido.- Claro que não! - Irritou-se Pilar - Se eu estivesse tiraria minha dúvidas diretamente com elas ao invés de vir aqui, não acha?! Porque todo mundo pensa que sou louca a esse ponto?- De você eu espero qualquer coisa, Pilar. Você é um amor de fada, mas quando bota algo na cabeça...- O nome disso é persistência, tá?! - Bufou a fada de cabelos cacheados. - Aimee, por favor, é só curiosidade. Você vai poder me ajudar?- Enciclopédias sobre sereias são bem antigas e difíceis de encontrar. Há tempos não escrevem mais sobre elas. Mas,para sua sorte, tem um livro no acervo especial que pode te ajudar. Vamos até lá.Pilar ficou impressionada com a quantidade de assuntos que havia naquele acervo. Livros sobre duendes, magos, bruxas, vampiros e todos os tipos de fadas. A biblioteca central era enorme, mas ela não imaginara que pudesse existir uma sala como aquela, com estantes que tomavam toda a parede, de cima a baixo. Logo Aimee achou o livro e a entregou.- Aqui está. Só não pode sair dessa sala, então vou te deixar aqui por algum tempo. Por favor, não mexa em mais nada, esse espaço é o meu preferido.Pilar continuava admirada com a beleza da sala, observava tudo atentamente. Encontrou uma pequena mesa com cadeiras em volta em um dos cantos, sentou-se e começou folhear o livro com atenção. Diferente do que esperava, ele era pequeno e não possuía imagens, apenas informações que já havia lido na internet. Na mesma hora a fada começou a se perguntar o porque disso acontecer. Por qual motivo as informações sobre sereias eram tão vagas? Porque elas não poderiam ter contato com os seres feéricos? Quanto menos respostas ela encontrava, mais vontade de se encontrar com uma aumentava. No fundo nem Pilar entendia muito bem a razão dessa atração crescente, mas algo a levava a continuar procurando. Levantou-se e decidiu aproveitar o restante do dia para caminhar, seria bom variar um pouco. Assim que saiu da biblioteca deu cara com Ivy.- Pilar?! Na biblioteca?! Bem que a Maya tinha razão, você vai aprontar alguma.A fada enrubesceu. O pior é que nem a própria Pilar estava pensando em fazer alguma coisa que fosse contra as regras da ilha, isso a irritava. Não sabia porque todos esperavam isso dela. Ok, talvez soubesse, já tinha se metido em algumas confusões por conta da sua curiosidade, mas não era motivo pra tanto.- Estou ficando irritada de tanto ouvir isso. Já disse pra vocês que não sou louca! Deu vontade de ler um livro, oras.- Logo você, defensora mor da internet e dos e-books? Aham, tá bom.- Não vou discutir. Mas Ivy, você não é uma fada da água?!- Sou, ué. Tá com amnésia?- Ai, vou fingir que nem escutei - disse Pilar revirando os olhos - Qual o motivo dessa proibição toda com o mar? Nem as próprias fadas da água podem sonhar em chegar perto dele. Você nunca se perguntou o porquê de só barrarem e numa darem uma explicação?As amigas começaram a caminhar inconscientemente, sem ter um rumo certo enquanto conversavam. Poderiam voar, mas já tinham o costume de andejar ao passo que debatiam algum tipo de assunto ou tentavam alinhar alguns pontos.- É que com o tempo todo mundo internalizou essa regra e nem se dão mais o trabalho de lembrar o porque dela. O que eu sei é o que minha avó contava, adorava a forma como ela fazia isso.- Então você sabe o porque?- Um pouco- E nunca me contou porque...- Ué, achei que você quisesse saber mais sobre sereias e não o porque da proibição.- Ai, Ivy! Pela graça da fada! Você se passa às vezes, ein. Conta logo!- Você devia ter sido mais clara, né, Pilar! Mas tá, tudo o que sei é que as sereias sempre estiveram entre os seres mágicos mais reservados dessa dimensão. Tinham certa participação nas decisões importantes do reino, mas socialmente falando, ainda que a relação fosse bastante amigável, não era sempre que estavam por perto.As fadas pararam de andar e sentaram-se debaixo da sombra de uma grande amendoeira. Pilar aproveitou para abrir um pouco as asas e sentir a fresca bater suavemente enquanto ouvia atentamente a fada aquática. Ivy continuou a contar o que sabia.- Foi então que houve uma grande desavença entre os seres feéricos e as sereias. Depois disso elas exigiram que todo o território marítimo fosse restrito às sereias. Isso é tudo que eu sei.- Mas o que causou essa desavença? - Perguntou Pilar inquieta- Então, miga, como eu disse uns dois segundos atrás, isso é tudo o que sei. - Ivy suspendeu os ombros e fez uma carinhatriste para a amiga, numa tentativa de consolá-la. - Ainda quero entender a razão da sua obsessão pelo mar.- Não é obsessão, é curiosidade. E... paz, calma... Não sei, mas me sinto bem admirando essa vastidão azul. O interesse é consequência disso.- Entendi. - Ivy realmente parecia ter entendido, também já havia se sentido assim antes, mas de tempo em tempo trocava o foco para alguma outra coisa. Do trio, a fada de mechas azuis era a mais compreensível e easy-going. - Tenho que ir, amiga. Hoje é meu dia de ajudar com os girinos do lago. Espero ter ajudado.- Ajudou, sim, muito obrigada.Pilar a abraçou antes que a mesma saísse voando. Minutos depois percebeu que estava perto da praia, decidindo caminhar até lá, e, por incrível que pareça, não o faria por rebeldia ou pirraça, - até porque a praia em si nunca fora proibida, era apenas evitada - o faria por intuição, por atração. Assim que pisou na areia sentiu um arrepio por todo o corpo. A praia estava deserta, apenas o som do mar como trilha sonora. As ondas não estavam tão fortes e por isso decidiu chegar mais perto. Sentia uma tranquilidade tão forte quanto o pulsar do seu coração que aumentava a cada passo que dava. Como posso estar tão tranquila com um coração tão acelerado? Sentou-se na pedra mais próxima do mar, ainda em uma distância segura para que a água salgada não tocasse o seu corpo. Ficou imóvel, fechou os olhos, inspirou fundo e deixou o corpo relaxar enquanto expirava.- Você não deveria estar aqui, deveria?!Pilar estremeceu. Nunca ouvira uma voz como aquela, por um momento acreditou ser uma de suas amigas pregando uma peça, até que se deu conta de que elas não teriam coragem de chegar assim tão perto considerando o lugar em que ela estava, mais provável que a chamaria aos berros. Tomou coragem, contou até três.1,2,3.Abriu os olhos e lá estava ela, a dona do vulto prateado visto dias antes, proprietária de uma beleza jamais vista por Pilar anteriormente. Encantou-se.- Então, fada, não vai me responder?Foi necessário alguns minutos para que o ser alado retomasse a consciência. Ainda que tivesse passado tanto tempo fantasiando com sereias e seu mundo marítimo, nunca imaginara o quão bela uma delas poderia ser. Mas estava lá, de olhos prata, pele negra, cabelos longo, lisos e cinzas. O ser mais encantador que a fada havia conhecido. Pilar não queria deixá-la pensar que era covarde ou que estava assustada demais. Decidiu encarar a situação com a maior naturalidade do mundo e respondeu:- Te pergunto o mesmo, não achei que pudessem chegar tão perto da costa. - Apesar de ainda surpresa, Pilar se manteve firme ao falar. A sereia custou a crer que ela havia respondido com tanta desenvoltura, no fundo acreditara que a garota sairia correndo. Resolveu se divertir um pouco tentando assustá-la.- Podemos, mas evitamos. - Falou em um tom ainda mais sério.- Digo o mesmo em relação à praia.- Mas isso não a impediu de vir até aqui, não é?A situação se tornava cada vez mais natural para Pilar, que respondia firme e calmamente, afinal, tudo o que menos queria era afugentar o ser que por tanto tempo lhe fora motivo de encantamento. O que, por outro lado, era exatamente o que a sirena buscava fazer.- Também não a inibiu de nadar tão próxima ao litoral. Te vi um tempo atrás.A resposta da fada a desconcertou. Se deixar ser vista não estava entre seus planos, ainda mais depois de tantas recomendações das suas irmãs. Mas isso já não tinha mais tanta relevância uma vez que ela mesma havia se revelado a Pilar, por livre e espontânea vontade. Percebendo que não a espantaria facilmente, decidiu ficar e conversar mais pouco.- Então quer dizer que está me monitorando? - perguntou, fazendo-a corar- N-não! Claro que não! Foi sorte, apenas.- Considera sorte ver uma sereia? Você pertence mesmo ao seu povo?- Confesso que sim. O meu povo pode temer vocês, mas nunca me encaixei muito nos padrões deles. Sempre quis vê-las de perto. Aliás, qual é mesmo o seu nome?- Hm, interessante. Saphira. E o seu é...- Pilar. O que é interessante?- Que não nos tema, todos nos temem, porque contigo haveria de ser diferente?- Talvez porque eu não veja razão para fazê-lo. - Dito isso, Pilar decidiu chegar mais perto, demonstrando que não havia receio, apenas uma tentativa de amizade. Assim que seu pé encostou na água, a sereia gritou.- ESTÁ MALUCA?! NÃO RESPEITA OS LIMITES?!- Mas eu... - Pilar ficou atônita, não entendia a mudança repentina. - Não foi por mal, achei que... posso voltar!- É claro que vai! - Saphira olhou diretamente nos olhos de Pilar e em questões de segundos a fada retrocedeu, caindo no chão e segurando a cabeça. Sentido tudo rodar, implorou.- O que fez comigo? Por favor, pare! Não consigo enxergar! - A garota antes destemida encontrava-se desesperada, sem compreender o que estava acontecendo em sua mente.- Levante, vire-se e saia daqui. Agora!Como seguindo ordens e sem sentir controle pelo seu corpo, Pilar obedeceu e foi embora. O que a fada não sabia era que Saphira era uma sereia Pisínoe, daquelas que controlavam a mente.

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