Peguei minha bengala e o jornal do dia e dirigi-me calmamente à praça que fica ao final da Rua Afonso Dutra, apreciei as árvores e as lojas, passei em frente à antiga oficina do Seu Aluísio, na qual trabalhei quando era adolescente, hoje a oficina pertence ao seu neto – parece ser um bom rapaz. A fachada da oficina fez-me viajar no tempo, minha visão ficou embaçada pela memória que tenho sobre aquele lugar e o toque da adolescência fez-me recordar de todas as loucuras que fiz naquela época – quantas besteiras! – penso com um leve sorriso no rosto. Quantos amores em um único ano? Quantas vezes bebi e cheguei em casa em silêncio para não acordar meus pais a fim de evitar os sermões? Lembrei da vez em que coloquei 1 litro de chá de Sene no poço do convento – estampa em meu rosto um sorriso ao recordar da cena do banheiro – Dentre essas, me vêm tantas outras, tantas diversões e tristezas, todas vividas intensamente. Sei que hoje não posso mais fazer o que fiz, não consigo correr, já não posso beber como bebia, amo e respeito a mulher que tenho e, além disso, o que era divertido na época, hoje não passa de algo enfadonho para os jovens. Chegando à praça, sento-me em um dos bancos desconfortáveis que ali estão, abro o jornal e inicio a leitura, contudo ela não se estende por muito tempo, logo na terceira página sou interrompido pelas risadas dos adolescentes que estão a três bancos de mim. Eles riem alto – um deles possuí um violão. Cantam desafinadamente e exacerbadamente alto, mas decido prestar atenção naquele princípio de juventude. Um deles pega uma garrafa em uma mochila, bebe e a guarda novamente, parece ser uma bebida alcoólica. Outros vão até a mesma mochila e apreciam o líquido da mesma garrafa. Agora, justificada as risadas e a tamanha alegria.
Atrás do banco em que estou, passa um casal - com já bastante idade assim como eu - reclama da "indecência" do grupo. Conversam entre eles que aquilo não é atitude para fazer em local público, ainda mais em plena manhã de terça feira. O homem compactua e acrescenta que essa não era tolerada no tempo dele. Concordo com as afirmativas, porém discordo dos afirmantes. Penso que, tal como eu, foram jovens, tiveram os momentos de adolescência e, certamente, cometeram erros tão prazerosos que eles abdicam do arrependimento. Eles não devem lembrar que provavelmente namoraram, beberam, ou fizeram outras condutas sem dizer aos seus responsáveis. Mas será mesmo que esqueceram da juventude, será mesmo que esqueceram das façanhas e ousadias que cometeram? Concluo que não. Simplesmente deixaram de ser jovens para tornarem-se velhos, parecem ter realizado essa escolha logo depois de terem de segurar em uma bengala.
A vida daqueles adolescentes cantarolando em plena manhã de terça feira, eu já vivi algo semelhante, os idosos que se tornaram velhos, também. Percebo, além de tudo isso, que tudo que é velho tende a perder sua função, desta forma, farei ao máximo para que minha vida não envelheça. Irei aproveitar da maneira como meu corpo permite todos os momentos bons que estão por vir, simplesmente para enriquecer minha memória e minha vida. Pois, no caso de nós, o envelhecimento vem das memórias das ações que não vivemos e que aos poucos ocupam o espaço que era destinado para memórias de maior valor, as vividas por nós.
