O céu estava negro como carvão, anunciando mais uma intensa tempestade Primaveril, contudo não me impediu de sair à rua. Vesti umas calças de fato de treino cinzentas e uma camisola azul escura por cima da t-shirt, decidido a pegar na prancha e ver o que o mar me reservara para aquele dia.
Caminhei pelas estreitas ruas desertas até à marginal, seguindo para o areal. Olhei em redor e apenas pude distinguir o vulto enevoado de dois ou três pescadores que lançavam as suas canas ao mar agressivo e espumento. Em breve iriam desistir. – Pensei – Regressariam às suas respetivas zonas de conforto, longe do temporal cada vez mais assustador e violento. Bingo! Eu estava certo.
Permaneci de pé, com as mãos a engelhar dentro dos bolsos enquanto as nuvens escuras se aproximavam a uma velocidade furiosa. Sentei-me na areia fria e húmida, fechei os olhos e ao som das ondas agitadas, esperei que a tempestade rebentasse. Esperei pelos pingos grossos da chuva fria que fustigavam a minha face como pequenos espinhos. Ergui o rosto para o céu em jeito de desafio. Eu não tinha receio, sentia-me entorpecido como se não pudesse sentir nada. Absolutamente nada!
De repente tenho novamente seis anos. Sou uma criança feliz, alheio a tudo o que me rodeia; sem problemas nem preocupações para além de brincar e ver desenhos animados. Da janela da velha carrinha Renault vislumbro a imensidão de campos verdes com um par de moinhos velhos e decrepitados como figura central. O meu avô, segura o volante com as suas mãos firmes, gastas pelo tempo e pelos elementos.
De vez em quando observa-me pelo espelho retrovisor.
- É meu! – Gritava eu.
- Não! Aquele moinho é o meu! – Insistia o outro miúdo, o meu melhor amigo desde que me lembro.
- Ei! Parem com isso! – Exclamava o meu avô naquele tom de voz doce, mas autoritário.
Ambos amuávamos, mas, minutos depois, já a história de quem era qual dos moinhos estava esquecida.
Esta, tal como muitas outras, é uma das melhores recordações de infância que tenho. Onde rebolei pelos campos verdes e pela terra suja, onde brinquei sem limites, onde inventei jogos e andei de bicicleta até não aguentar mais. As férias com os meus avós tinham outro sabor, outro significado que jamais conseguirei colocar em palavras.
A chuva continuava a cair cada vez mais forte, cada vez mais fria. Não sentia o meu corpo encharcado até aos ossos, como disse, estava entorpecido. Há algum tempo que não era capaz de sentir o que fosse, apenas um vazio dentro do meu ser. Podia estar rodeado por milhares de pessoas e mesmo assim sentia-me vazio. Sentia-me perdido. Sentia-me sozinho, sem aquele pedaço de mim. Aquele pedaço que me fora arrancado cruelmente, que me fora roubado cedo mais.
Pus-me novamente de pé. Sentia-me a sufocar com a minha própria respiração.
- Onde estás? – Gritei, para o vazio. – Mostra-me que ainda estás por aí. Por favor. – Implorei, com a respiração pesada e a voz embargada.
Por instantes a chuva parou. Apenas por uns escassos segundos, retomando de seguida a mesma intensidade. Como se até então houvesse uma torneira aberta que agora alguém fechara para voltar a abrir. Coincidência ou não, aquele era o sinal que tanto esperara. Talvez tenha sido apenas um acaso da meteorologia, aquelas situações sem explicação, mas pela primeira vez em muito tempo não me senti sozinho.
Ele estava ali, comigo. Como prometeu sempre estar.
O mar estava convidativo, perigoso mas não tanto assim. Mas, e daí? Eu gostava de perigo, gostava de desafiar cada onda que conseguisse. De vez em quando gostava de me arriscar, podia ter limites mas não agora.
Não, naquele momento iria passar para lá da minha linha invisível que separa a razão da loucura. Precisava de sentir alguma coisa, a mais pequena e ínfima coisa que fosse. Precisava disso, mais do que nunca.
Corri para o mar e Deus me ajudasse.
KAMU SEDANG MEMBACA
Tudo o Que Sempre Quis
Fiksi RemajaSalvador. Lucas. Helena. Sara e Martim. Cinco jovens que se perderam algures na estrada da vida. Todos eles têm assuntos pendentes, cicatrizes e fantasmas que insistem em persegui-los onde quer que vão. Até mesmo quando, um por um, por um motivo ou...
