O som do despertador cortou o quarto como uma lâmina. Eram 6h30 da manhã em Grinpaker, e a luz ainda tímida do sol atravessava as cortinas finas, desenhando listras no chão de madeira. Valentina Rivera abriu os olhos devagar, piscando contra a claridade. O ar estava frio — típico do outono que se aproximava — e ela se encolheu sob as cobertas por mais um instante, ouvindo o ronronar de Charles aos pés da cama.
O gato preto de olhos verdes espichou as patas dianteiras e bocejou, como se também protestasse contra a hora. Valentina sorriu, passou a mão pelo pelo macio e sentiu a vibração familiar do ronronado. Havia algo naquele animal que sempre a acalmava, uma conexão que ela nunca soube explicar. Talvez fosse o jeito como ele a seguia pela casa, ou como a encarava, às vezes, com uma inteligência quase humana.
Ela afastou o pensamento e pegou o celular na mesinha de cabeceira. A tela acendeu. A foto de fundo era a mesma havia dois anos: ela, Trace e Lucas na entrada da escola, mochilas nas costas, sorrisos largos.
Digitou rápido, como fazia todas as manhãs.
Lucas Luker. O nome brilhou na tela.
"Bom dia, capitão. Pronto pra mais um dia?"
Não levou trinta segundos para a resposta chegar.
"Bom dia, ruiva. Sempre pronto. A Trace já acordou ou vou ter que ligar pra ela de novo?"
Valentina riu baixinho. Era um ritual sagrado entre os três. Ela chamava Lucas, Lucas chamava Trace, e Trace respondia com um emoji de olho fechado e a frase "já tô indo, calma". Funcionava assim desde o primeiro ano do ensino médio, e ninguém ousava quebrar a corrente.
Charles pulou da cama e foi se enroscar na cortina, miando alto, como se pedisse comida ou atenção. Valentina se levantou, enfiou os pés nas pantufas e abriu a janela. O bairro ainda estava quieto. As casas de telhado inclinado, os jardins cobertos de orvalho, o cheiro de terra úmida vindo da mata ao fundo. Grinpaker era uma cidade pequena, daquelas onde todo mundo se conhece, onde os boatos correm mais rápido que os carros. Uma cidade pacata. Pelo menos na superfície.
No banheiro, enquanto escovava os dentes, Valentina se olhou no espelho. Os cabelos ruivos caíam soltos pelos ombros, ainda bagunçados pelo travesseiro. Os olhos cor de mel a encaravam de volta, profundos, um pouco cansados. Ela não gostava do que via. Não da aparência — essa, ela sabia, chamava atenção —, mas da sensação estranha que a acompanhava havia dias. Uma impressão de que algo estava prestes a mudar.
Na escola, o nome dessa sensação era mistério.
Escola Estadual de Grinpaker — 7h45.
O portão de ferro rangeu quando Valentina passou. O pátio já estava cheio. Grupos de alunos formavam ilhas de conversa e riso, mochilas pendendo de um ombro só, cadernos abraçados contra o peito. O mural de avisos anunciava a nova temporada de vôlei e uma campanha de reciclagem que ninguém ia ver.
Lucas a esperava encostado na mureta da entrada. Cabelos castanhos claros bagunçados pelo vento, olhos verdes, pele branca, o uniforme impecável. Era o tipo de garoto que arrancava suspiros das meninas e tapinhas nas costas dos meninos — mas ele parecia nem notar.
— Atrasada três minutos — disse ele, com um sorriso que não escondia a preocupação.
— Charles derrubou o pote de ração — mentiu Valentina (ou quase; o gato realmente aprontava). — Cadê a Trace?
— Ali, vindo com cara de quem dormiu em cima do despertador.
Trace Borges atravessava o pátio esfregando os olhos. Os cabelos cacheados cor de fogo estavam meio soltos, meio presos num coque improvisado, e os olhos azuis ainda carregavam o peso do sono. Mesmo assim, ela sorriu ao ver os amigos — um sorriso que iluminava o rosto redondo e as bochechas rosadas.
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GRINPAKER
Mystery / ThrillerValentina tinha uma vida tranquila ao lado de seus amigos, na sossegada e pequena cidade de Grinpaker. Mas ela vê sua vida virar do avesso depois de um bilhete anônimo. Venha conferir essa história de suspense e fantasia.
