Momentum

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O sorriso. Sempre era o sorriso a coisa mais clara do sonho. Era um sorriso branco, contrastando com a pele negra do oficial. E atrás dele o pôr do sol mais lindo, tão lindo que era claro que só podia ser um sonho.

Aquela boca se mexia, mas não era possível ouvir as palavras, mas era perceptível que se afastava cada vez mais.

Valeska tentava se aproximar do corpo a sua frente, mas só era capaz de levantar os braços, não tinha forças para ir atrás. E assim o sorriso se fechava, enquanto era sugado pelas nuvens negras que não estavam lá há um minuto atrás.

Ofegando, a capitã levantou-se de uma vez, puxando o ar pelas narinas com força.

Aquele sonho maldito a perseguia cada vez com mais frequência, conforme a aposentadoria se aproximava. Nessas últimas semanas ele aparecia toda noite, tirando sua tranquilidade.

Com um muxoxo revoltado, ela esticou o braço para pegar o copo de água no compartimento lateral. Aproveitou e já tomou os dois comprimidos que se acostumara a deixar separados.

Olhando o monitor verde que piscava na sua frente, pode perceber que era cedo, mas não ofensivamente cedo que não pudesse levantar.

Jogando as cobertas de lado, foi para o banheiro contíguo – uma das vantagens de ser capitã – para tomar um banho fresco e tirar o suor que ficara impregnado na sua pele.

Vinte anos. Vinte anos haviam se passado e ela ainda não conseguia esquecer aquele sorriso.

Xingando-se mentalmente, aguardou impaciente o efeito do calmante para poder ficar em paz com suas memórias.

"Médicos idiotas", pensou enquanto uma pontada de culpa lhe subia pela espinha. A recomendação era nunca tomar um calmante com um estimulante, mas o calmante – como descobriu – era a única forma de deixar certos pensamentos no fundo do inconsciente, e sem o estimulante ela não seria capaz de realizar as tarefas diárias.

Saindo do chuveiro, que desligou automaticamente, ela entrou no jato secante e ignorou o pequeno espelho, que só lhe apontaria as olheiras e rugas crescentes. Vestiu o uniforme e se preparou para mais um dia.

Saindo da sua cabine, andou depressa e silenciosamente pelos dormitórios. Não queria encontrar nem acordar ninguém, só lhe faltava ter que piorar o começo do dia ao ter de interagir. Realmente o ponto positivo dos pesadelos, agora diários, era acordar mais cedo que todos, assim podia ignorar o café da manhã conjunto e as cordialidades exigidas pela sociedade.

Passando pela cozinha - que na verdade era uma parede com máquinas e compartimentos, típico de naves velhas como a sua. As mais modernas abrigavam um espaço respeitável para preparação e degustação de alimentos - e mantendo as luzes mínimas, selecionou o café preto e mingau nutritivo, que foram rapidamente processados e vomitados pelas máquinas, e se dirigiu para a torre de comando onde podia ficar em paz. Durante a noite a nave era colocada em piloto automático e o navegante dormia no quarto ao lado, caso houvesse alguma emergência que escapasse da inteligência artificial, como uma chuva de meteoros.

Passando pelo salão de refeições, uma área apertada mas que permitia que toda a tripulação se reunisse de uma vez, Valeska tremeu de leve ao ver de relance balões coloridos. Que ideia mais idiota, comemorar a aposentadoria. Ela ainda tinha esperanças de conseguir alterar o sistema e continuar por mais alguns anos. Largar o espaço e as missões que levavam meses, para ficar presa em terra firme e consequentemente a toda uma população de gente sorridente e simplória, não lhe convinha com nenhum tipo de celebração.

"Às vezes a celebração era da tripulação, por ver-se livre dela", pensou. Ela era respeitada e uma das melhores e mais condecoradas capitãs da história de seu planeta e isso inspirava jovens cadetes a se inscreverem para ser parte da equipe. Mas normalmente em três anos eles pediam transferência, pois a mão de ferro e a aparentemente zero importância de viver, devido à várias missões consideradas suicidas, os afugentavam. "Bem, não morri ainda".

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