Primeiro Encontro

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Ao chegar a casa, num anoitecer de um inverno particularmente frio, Paulo reparou que um dos manequins não estava exatamente no sítio em que o tinha deixado. Perguntou à sua vizinha que lhe disse que, de facto, tinha ido ao apartamento porque ouviu barulhos estranhos, mas garantiu-lhe que não tinha mexido em manequim algum.

Paulo duvidou. Não só disso, como também dos barulhos estranhos. Sabia que a senhora inventava sempre alguma desculpa para bisbilhotar qualquer coisa, e isto não seria nada surpreendente. No entanto, fingiu um sorriso de agrado e agradeceu-lhe a preocupação, antes de voltar a subir as escadas para o seu apartamento no andar do topo.

Ao trancar a porta e colocar as chaves na secretária, reparou novamente na mudança de um manequim. Sabia que não o tinha deixado tão perto da entrada.

"Mas", disse para si mesmo, "Eu estava nas escadas, ninguém passou por mim, e não há outra forma de entrar no meu apartamento". Os seus olhos abriram-se. "A não ser... A não ser que o intruso ainda esteja cá".

Paulo começou a sentir o coração aos saltos. Olhou para todos os detalhes na casa, os cortinados, as mobílias, qualquer sítio onde fosse possível alguém se esconder. Pensou em voltar a sair e chamar a vizinha mas, num relance rápido para a secretária à procura das chaves, encontrou outra coisa: a sua caixinha de comprimidos. Um pequeno compartimento a dizer "quinta-feira" ainda estava com 3 pequenos comprimidos no seu interior.

"Paulo, Paulo, Paulo..." abanou a sua cabeça de um modo desagradado mas com uma mistura de alívio. "Os manequins estão exatamente no mesmo sítio, estás só a pensar demasiado nas coisas. De facto, agora que me lembro, hoje estava com pressa para ir ter com o cliente, devo ter dado um pequeno toque no manequim e acabei por o empurrar em direção à entrada. Sim, sim, deve ser isso. Está tudo bem."

Deu dois passos em frente para pegar na caixinha, quando uma mão pega na sua violentamente. Paulo grita, grita com terror na voz. A mão tinha uma textura áspera, uma cor térrea. A mesma cor e textura de um dos seus manequins. Uma mão gelada, desprovida de vida, agarrava a sua com a vivacidade de um ser que quer sobreviver.

Num segundo, sem saber exatamente o que fazer, com a mão livre pegou numa tesoura que usava para cortar os tecidos e cravou-a na cabeça do manequim, que caiu no chão com um som bruto.

O que sentiu nos minutos de silêncio que se seguiram a este acontecimento não deram a Paulo as respostas de que necessitava. Ao início, o sentimento de medo foi substituído pelo ódio. Ódio e desprezo, como que uma fera olhando para os restos de um animal, cheio de vermes, moscas na sua carne em putrefação. Depois veio a pena. A culpa. O arrependimento. Paulo não sabia o que fazer disto. Culpa por quê? Por se defender? E só neste instante veio a confusão.

A sua parte racional começava a trabalhar e os pensamentos vagos, cansados e lentos deram lugar a frases rápidas, preocupadas, frenéticas. Até este momento, Paulo tinha agido como se tivesse morto uma pessoa, não um boneco inanimado. Olhou para o corpo estendido no chão. Onde deveria haver uma cara, havia uma madeira lascada, com uma tesoura presa onde os olhos deveriam estar. Não se sabia capaz dessa força, mas o pânico e adrenalina que sentiu devem-lhe ter permitido isso. Quem estivesse naquele apartamento não saberia o que se passava no interior da cabeça de Paulo, que olhava com olhos apáticos este corpo estranho.

A rigidez associada a um manequim não estavam na sua totalidade neste corpo. Parecia que, no seu interior, tinha um complexo sistema de engrenagens que permitiam simular um corpo descaído, mole. Mas Paulo decidiu ignorar todo o seu lado racional e dar atenção ao sentimento no fundo do seu estômago. Frases repetidas ao ritmo do seu batimento cardíaco.

"Tenho de me livrar disto, tenho de me livrar disto, tenho de me livrar disto"

Reparou, também, que o seu coração estava agora mais calmo, perdera a inquietação inicial. Decidiu que isto era um bom sinal.

"Pelas escadas, desço, lá fora, contentor, onde o posso colocar. Mas o que irá a Luísa pensar do ruído? É má ideia. 'Mais uma recaída que o pobre Sr. Paulo teve, que infelicidade, já o achava tão são de cabeça', não, não vou permitir que isto volte ao mesmo. Nestes últimos meses melhorei bastante, provavelmente o estresse da minha profissão levou a isto. Nada que uns dias mais calmos não possam resolver."

"Tenho de me livrar disto, tenho de me livrar disto, tenho de me livrar disto"

Pegou num cobertor, colocou por baixo do manequim, envolveu-o e arrastou-o. Era mais pesado do que parecia. "Debaixo da cama? Dentro do armário? Não posso sair com isto, não quero olhar para isto." Por fim, decidiu colocá-lo numa dispensa vazia que antes era usada para as caixas dos tecidos. Deixou-o numa posição sentada, encostada à parede e, antes de fechar a porta, olhou fixamente para a cabeça. "Era uma tesoura cara. Um dia destes arranjo coragem e tiro-a dali." E fechou a porta da dispensa.

Os TransgressoresGeschichten, die süchtig machen. Entdecke jetzt