(1) Sejam bem-vindos ao que restou de nós!

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A todos que a escola destruiu

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A todos que a escola destruiu.


Uma clínica de reabilitação não é nada mais nada menos do que um hospital disfarçado de casa. A intenção é essa: que o lugar se parece com uma casa, lar-doce-lar, um lugar acolhedor onde você pode se sentir seguro para dar o próximo passo em direção a cura e blá blá blá blá blá. É essa a apresentação que o Dr. Ivan dá à todas as pessoas que chegam à CLÍNICA PRÓXIMO PASSO, sim, está lá em letras garrafais bem grandes na porta de entrada de uma quase casa. Casas não tem celas. Nem enfermeiros andando de um lado para o outro com tranquilizantes na mão. É isso que eu digo a ele quando começo a bufar no meio de suas apresentações. Vamos dizer que eu sou a pedra na porta de entrada que está lá para lembrar aos futuros pacientes que nem tudo que reluz é ouro. O Dr. Ivan é um cara legal, ele dá o seu melhor para fazer com que seus pacientes saiam de lá o mais rápido possível, mas não são todos que são como ele.

– Já tomou seus remédios? – O Dr. Ivan pergunta quando me vê jogada no sofá da sala de TV.

– Já terminou sua apresentação? Vamos receber mais um louco para a coleção? – Tomei os remédios, é isso que eu deveria dizer, mas estou entediada demais para ser uma garota boazinha hoje.

– Vamos fazer o jogo das perguntas de novo? Eu pergunto algo e você me responde com uma pergunta? – Ele se senta no sofá de frente ao que eu estou, ele está escrevendo algo em um papel numa caderneta velha que ele carrega para todos os lugares.

– Ficha de entrada? Ou de saída?

O corpo do Dr. Ivan se retrai, tenho vontade de socar minha cara. Não temos muitas fichas de saída, ou alta, que seja, sendo preenchidas, uma a cada seis meses, com um pouco de sorte. Mas sempre que alguém recebe alta, é um momento meio especial para o Ivan, ele é aquele tipo de cara que torce muito pelos pacientes. No entanto, a última ficha de saída que ele preencheu não terminou muito bem.

O nome dela era Ava, ela era filha de um irlandês com uma brasileira, conheci os pais dela apenas uma vez. Não são todos os pacientes que recebem visitas frequentes dos pais – ou qualquer que seja o responsável pelo paciente, na maior parte das vezes, são pais ou filhos que mandam seus entes queridos (às vezes não) para a clínica da loucura, como eu carinhosamente apelidei meu lar-doce-lar -, como os meus gostam de me visitar. Ava tinha 22 anos, gostava de tartarugas, de comer morango em todas as refeições e parecia uma versão adulta de Alice (aquela que caiu na toca do coelho). Ela era bonita e gentil. Ava chegou na clínica antes de mim, 3 anos antes, de acordo com o Dr. Ivan. No dia em que eu cheguei à clínica, Ava disse que minha aparição tinha sido o sol que a trouxe de volta de uma longa noite de pesadelos, não sei exatamente o que ela quis dizer com isso, quer dizer, eu não fiz muita coisa além de ficar andando pelo lugar. Mas Ava saiu do seu quarto para me ver naquele dia e falou:

– Você parece ser uma pessoa bem interessante.

Depois de um mês assistindo o ir e voltar de Ava ao seu quarto, Dr. Ivan me pegou observando a porta do quarto dela e falou algo como: "A vida é aterrorizante para algumas pessoas, Cassandra." Ava tinha Síndrome Do Pânico. E Síndrome Do Pânico desencadeou muitas outras coisas, sabe como dizem: nada é tão ruim que não dá para piorar. Em alguns dias Ava perguntava para mim se eu queria acompanhá-la em um passeio ao jardim da clínica, esses eram os dias bons. Em outros momentos, não tão bons, ela ficava em seu quarto por dias, sendo monitorada pelos enfermeiros.

O que mais me deixa triste era que Ava realmente se esforçava para sair dessa, ela ia as sessões de terapia, ela tomava seus remédios, ela tentava ser gentil com todas as pessoas que entravam e saiam e, em algum momento dos cinco meses que convivi com Ava, ela, os médicos e, confesso, até eu, achávamos que Ava estava pronta para sair da clínica por um tempo. Uma semana para ser mais exato. Dr. Ivan assinou a ficha "temporária" de alta, ligou para os pais dela, disse que Ava gostaria de passar uma semana em casa e que isso seria bom para ela. Os pais dela vieram buscá-la num sábado de manhã, era para ela ter voltado no sábado seguinte, mas ela não voltou.

Coloco a palma da mão no lado esquerdo do corpo, sinto meu coração batendo forte embaixo do moletom, uso a técnica de respiração que aprendi nas sessões de terapia com a Dra. Sandra.

Respira.

Conte até 7.

Solte o ar.

Conte até 7.

Repita.

Ava não voltou. Os pais dela contaram aos médicos da clínica – e eu implorei para o Dr. Ivan contar para mim – que Ava começou a passar mal na quarta-feira à tarde quando os pais a levaram para um passeio no parque aquático, eles nem chegaram a entrar no local, voltaram para casa com Ava e ela disse que precisava ficar sozinha. Os pais de Ava a encontraram deitada na cama, eles pensaram que ela estava dormindo de verdade, quem não pensaria, ela só estava lá deitada serena como se naquele momento, apenas naquele momento, enquanto ela estava dormindo, nada no mundo pudesse alcançá-la.

Dr. Ivan disse que Ava não se matou, pelo menos, ele acredita que não, ele acha que Ava tomou o medicamento que a ajudava a lidar com as crises, mas ela achou que apenas um não seria o suficiente e acabou tomando mais do que seu corpo aguentaria. Muito mais. Ava não voltou mais para a clínica. Seu próximo passo foi em direção a um lugar que, eu espero, rezo por isso, não a aterrorize como a terra a aterrorizava.

– Falei sem pensar, desculpa. – Falo para o Dr. Ivan, mas ele apenas volta a escrever na ficha, fingindo que o trem de lembranças, que eu trouxe com as minhas palavras descuidadas, nunca passou por ali. 

Ponto e Vírgula;Where stories live. Discover now