(1) O destino é cruel

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Ele ainda culpava a cartomante. Se Otto não tivesse ido àquela festa e não tivesse trombado com aquela mulher, ele provavelmente não estaria revivendo os sentimentos que tinham sido tão bem guardados no fundo do seu coração em uma gaveta com os dizeres: "jamais, nunca, de jeito nenhum". Mas, ele tinha ido à festa e ele tinha trombado com uma mulher servindo bebidas no bar e essa mulher tinha lhe oferecido um jogo de cartas e ele escolhera uma.

— Você sabe quais são as perguntas que as pessoas mais fazem às cartas? — A mulher perguntou sorrindo misteriosamente como se conhecesse todos os segredos do mundo.

— Os números da loteria? — Otto tentou adivinhar, indiferente. Ele não era uma daquelas pessoas que fingiam não acreditar em jogos de sorte e signos do zodíaco, mas que corriam para algum site barato para fazer o mapa astral de alguém que eles acabaram de conhecer em busca do match ideal. Otto era realmente descrente quanto ao místico e todas as coisas que carregavam o nome de Deus em suas mais variadas formas.

— Dinheiro fica em segundo lugar e questões relacionadas a saúde, vida e morte, em terceiro. — A mulher empurrou um copo de limonada gasificada para Otto. — Você não bebe álcool, certo?

Otto acenou com cabeça, pegou o copo com a mão e bebeu o líquido azedo quebrando os cubos de gelo com os dentes. Ele não gosta de lugares barulhentos com mais de uma pessoa por metro quadrado, mas mesmo assim ele aceitara o convite para a festa. Ele se arrependera dessa decisão no segundo em que seus pés tocaram o chão da boate.

— Já adivinhou qual a pergunta que fica em primeiro lugar. — Ela perguntou novamente, a carta que Otto escolhera continuou virada de cabeça para baixo no balcão.

— Não sou muito bom com essas coisas, sabe, de adivinhação. — Ele respondeu.

— Mas você fez a pergunta mesmo assim, não é? Mesmo dizendo a si mesmo que não acredita, você fez a pergunta.

Otto bebeu mais um pouco da limonada, a mulher arrastou a carta para perto do braço do rapaz.

— Amor. — Ela se inclina na direção de Otto enquanto fala, ele dera uma boa olhada no rosto da moça quando ela começara a conversar com ele. Ela era bonita, com o cabelo curto batendo nas orelhas e olhos grandes e castanhos, parecia mais uma jornalista do que uma cartomante. — Essa é a maior preocupação das pessoas. Quando irei me casar? Onde está minha alma gêmea? Ele ou ela gosta de mim? Eu tenho alguma chance? São poucas as pessoas que estão desesperadas para saber a cura de alguma doença incurável, a maioria dos seres humanos querem saber quando serão amados e você não é diferente deles.

Enquanto Otto escutava, o copo em sua mão descera em direção ao balcão e ele encarou a carta, o gosto azedo o limão amargou a boca dele.

— Onde ele está? — A mulher perguntou olhando ao redor. — Ah, ali! É ele, não é? Foi sobre ele que você perguntou, não foi?

Ele se virou na direção que a mulher apontava, o corpo de Otto congelou quando sua visão encontrou o que, ou melhor, quem a mulher apontava.

— Você quer saber a resposta para a sua pergunta? — A mulher sorriu para ele.

— E se eu disser que não? — Otto retrucou.

— Então, você nunca saberá. — Ela começou a recolher as cartas, mas antes que ela pudesse terminar, Otto tomou uma decisão tomada pelo impulso do seu coração batendo sem controle, ele parou as mãos da mulher com as suas.

— Espere. Desculpe. Espere. — Ele tirou suas mãos das delas quando percebeu que isso poderia ter sido rude. — Me diga, por favor.

— A resposta é: — Ela o encarou sorrindo como um gato que tem a presa entre os dentes — você nunca vai saber se não tentar.

— É isso? — Otto pergunto, irritado. — Só isso?

— As cartas poderiam ter dito um direto e duro "não", você não acha? — Ela fez aspas com a mão. — Mas elas estão dizendo que você deveria desenterrar essa gaveta sobre a qual tanto tem medo. Do que você tanto tem medo, Otto? É essa a pergunta que você deveria fazer a si mesmo.

O rapaz suspirou, frustrado. A mulher fez um gesto com a cabeça apontado para a pista de dança onde as pessoas se divertiam dançando uma música de alguma cantora pop cuja letra falava sobre superar um amor não correspondido. Otto suspirou outra vez, mas quando se viro para dizer a mulher que isso nunca aconteceria, ela já não estava mais lá. A única coisa que a mulher deixara para trás fora a carta que Otto escolhera e essa maldita carta tinha lhe dado de presente uma bela dor de cabeça. 

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