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" Já era tarde e a neve estava aumentamdo, quando entrei no mercado que estava praticamente vazio, pouquíssimas pessoas haviam ousado sair nesse frio. A esquerda perto da porta havia o caixa que estava ali provavelmente obrigado, logo mais a frente um senhor de idade com um casaco fino que não o protege totalmente, na sessão das massas uma criança grudada a sua mãe e ambos estavam completamente agasalhados, prontos para enfrentar o frio.
Me aproximei do mesmo setor que a mulher, juntamente com a criança, estava. Logo em seguida pude ouvir um barulho estrondoso, não identifiquei o que o causou mas consegui deduzir o que foi, já que todas as luzes se apagaram e somente os caminhos de emergência estavam iluminados por uma pequena lâmpada de segurança no canto esquerdo da parede.
__ Droga! - Ouvi o homem de cabelos grisalhos dizer, claramente indignado. Pensei que fosse por culpa da falta de energia, porém se tratava de algo mais sério, a neve lá fora estava mais forte e bloqueava a porta da saída. E era fato que nenhum de nós percebeu a tempestade se formar. - Estamos presos aqui! - Ele terminou sua fala enquanto ainda tentava em vão abrir a porta. Com certeza ele desejava ter saído com uma roupa que o protegesse melhor do frio avassalador que tomava conta de toda a loja.
__ Os celulares também não funcionam. - Dessa vez que falou sem um pingo de ânimo em sua voz foi o caixa, que também só contará o óbvio. - Os bombeiros só viram amanhã de manhã! Se tivermos sorte a neve já terá diminuído e assim poderão nos salvar.
Assim que ele terminou de falar tive a estranha sensação de que a neve não seria nosso maior problema. Por um momento desejei ter tomado meus remédios, mas esses  breves segundos de fraquezas passaram rápido. Não tomaria aquela porcaria. Gosto de ser eu mesmo! Por mais que minha mente me engane um pouco, é melhor do que viver sempre sedado com minha cabeça controlada de acordo com a vontade dos falsos médicos.
__ Mãe, eu quero sair! - O garotinho começou a reclamar com sua mãe, que sem sucesso tentava acalmá-lo. E então pude ver as lágrimas rolarem por seu rosto e o pânico ali se estabelecer, ele já não queria mais sair, desejava ficar ali. Tenho certeza de que ele ouviu a mesma coisa que eu. Gritos cheios de dor tomavam conta do lugar, porém não pertenciam a ninguém que estava presente ali. Eu podia ver todos eles.
__ Não estamos sozinhos aqui! - Falei tentando mascarar o medo, que persistia em tomar conta de mim, até mesmo da minha voz. - Não importa quem mais esteja aqui! Temos que achá-lo! A dor está evidente nestes gritos!
__ Do que você está falando?! Eu entendo que esteja com medo e nervoso, mais vai acabar assustando o garoto! - Ouvi a voz do homem, já fraca pela idade, ecoar pelo local. Porém não perdi o meu foco! Sinceramente não entendo porque eles não estão me ajudando a procurar! Claramente a alguém em perigo. E pode ser que esteja sendo torturado! Se é que já não foi morto, pois os gritos pararam repentinamente.
__ É melhor se acalmar! - O caixa veio andando na minha direção. - Todos estamos nervosos. É normal! Mas precisa ficar calmo, ou então teremos uma noite muito longa! - Enquanto ele falava, pude ver a mãe do garotinho muito agitada, enquanto o sr. de idade se aproximava dela, e então percebi que o menino não estava mais ali.
__ Cadê o garoto? Para onde ele foi? - Uma raiva se instalou dentro de mim e nessa fração de segundo que eu finalmente percebi que sai de controle! E a partir disso tudo é confuso. Me vi indo para perto do idoso. Imaginando que a pessoa que ouvi minutos antes o tivesse levado, e que alguém o faria gritar com tanta dor quanto os sons que ouvi anteriormente. - Eu disse que não estávamos sozinhos! Vocês se recusaram a me ouvir e agora ele desapareceu! - Gritei furioso e me direcionei para a mãe do menino - Como você não fica aflita com o desaparecimento do seu filho? - Continuei andando na direção dela até que um barulho me chamou a atenção. Era como se algo tivesse sido arremessado contra a parede, logo em seguida um  silêncio se instalou, tomando conta de tudo. E foi graças a esse silêncio que pude ouvir resmungou de dor baixinhos, e eu tinha uma idéia clara de quem o fazia, o que só tornou evidente que eu estava certo, e alguém estava machucando o garoto. A essa altura a tempestade já tinha diminuído drasticamente.
Quando me dirigi para perto do balcão do caixa, que se encontrava perto a porta no canto esquerdo da parede o sr de idade entrou na minha frente e sem entender porque ninguém procurava pelo garoto, comecei a gritar com ele, e tomado pela confusão de meus sentimentos agarrei o colarinho da blusa dele enquanto perguntava o motivo do descaso dele. O caixa correu na nossa direção ordenando que eu o soltasse, porém quando o fiz o homem que já estava frágil pela idade caiu no chão batendo com a cabeça, o que causou um barulho alto parecido com o que ouvi antes de perder completamente o controle. E então a voz da mulher ecoou na minha cabeça, graças ao grito dela dizendo: Fique longe do meu filho!"
__ E isso é tudo que eu me lembro doutor Yates!
__ A quanto tempo não toma seus remédios?
__ A dois dias. Não gosto de tomar! Eles mexem com a minha cabeça. Não me sinto eu mesmo.
__ Eles são para evitar seus ataques, e controlar sua raiva.
E com essa frase percebi que eu nunca seria realmente livre para ser eu.

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⏰ Last updated: Aug 04, 2019 ⏰

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