Paralisia do sono

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        Abro meus olhos durante a madrugada, deitado em minha cama repouso cansado após um dia fatídico de trabalho e noites anteriores mal dormidas. Em meu quarto, nada além do breu o preenche; a escuridão o cerca como se fosse parte da mobília decapita. Meus olhos se encontram serrados, observando atentamente a escuridão, e a escuridão atentamente me observando. Tento me mexer, sinto meus músculos vibrando e se contorcendo para tomar movimento, mas nem meu braço, tampouco minhas pernas respondem. Estou estagnado nesta cama gélida. Tento estalar meus olhos pelo pânico que me ocorre, porém nada acontece, ele continua tenuamente entre o aberto e o fechado.

        Subitamente sinto um vulto perto de meus pés imóveis, e então, arrasto minhas orbitas oculares lentamente para baixo. Vejo lá, entre a escrivaninha velha de madeira e meus pés suados de pavor, um vulto, negro e frio, que aos poucos, tão como a minha consciência retorna a meu cérebro, vai tomando forma. Mas não, não uma forma monstruosa ou sobrenatural, pelo contrário, em verdade estava me parecendo cada vez mais real, cada vez mais comum. Não demorou muito para que eu conseguisse identificar esta forma enigmática. Este ser imaculado, frio como o inverno e soturno como a noite, era a minha esposa. Minha esposa que a meses atrás morrera em um acidente de carro não muito distante daqui. Minha esposa que por tantos anos amei mais que a mim mesmo, e que vez ou outra, retornava em meus sonhos como alegria de uma vida póstuma que um dia me esperava.

          Esta que em tantos sonhos me foi amor e paz, agora, nesta situação me causava medo e pavor. Eu nunca chegara a ver seu corpo após o acidente, pelo contrário evitava ao máximo. gostava da imagem bela e pura em minha mente, porém, vez ou outra, abruptamente me ocorria imagem de como ela poderia ter ficado após o acidente, desta vez não foi diferente. A figura parada e estática, me olhava como um dia me observara nas manhãs de sol de domingo, como por inúmeras vezes eu mesmo à observei. Eu, então também estático, a observava com horror e medo; não demorou muito para que meus olhos começassem a encher de água e meu corpo a tremer.

            Aos poucos, lágrima por lágrima molhavam o meu velho travesseiro que suspendia minha cabeça. Tentei, oh Deus como tentei, falar com ela, perguntar algo, falar algo, nem que fosse gritar de medo, mas meu corpo já não me obedecia. Era como se eu estivesse aprisionado em um corpo acorrentado por, sabe Deus o que, a esta cama nojenta. Meus músculos já doíam de tanto que me esforçava para mexê-los. Meus olhos cravejados na figura nada podiam fazer a não ser observar.

            A imagem ficava me olhando e eu olhando a ela, meu coração queria fugir do peito, sentia o pulsar a todo instante, mais forte e mais rápido. Em pequenos surtos de lucidez pensava que aquilo não poderia ser real, "deve ser um pesadelo", era o que minha consciência falava. Então fechava os meus olhos e esperava passar, porém, apesar do esforço nada acontecia. A figura lá ficava, me olhando, me observando, me admirando. Não demorou muito para que eu começasse a imaginar se aquele seria o meu fim, a minha partida e ela então veio me buscar. Me achariam em um mês ou na melhor hipótese em uma semana, já cadavérico estendido sobre lençóis sujos. Lençóis que nunca mais ousei lavar para não retirar o resquício de aroma do perfume minha esposa.

           Ela então, ainda me observando, soltou um vasto sorriso amarelo de orelha a orelha, eu pasmei em ver tanta maldade em uma face, que em minha memória, se assemelhava a face de um anjo. Dentro de minha mente eu gritava, queria ao menos ter alguma reação além do choro compulsivo. Fechei meus olhos com toda a força que tinha, respirei fundo, muito fundo, e os abri novamente. Nada havia mudado, a face do demônio ainda me encarava, meu corpo já sucumbia à total desordem da alucinação, tremia como nunca tremera antes, suava como nunca suara antes, e chorava como apenas chorei em minha infância.

            Ainda com esperança de aquilo ser apenas um pesadelo, tomei esforços para dormir novamente. Mas nada ocorreu e, de pouco em pouco a monstruosidade se aproximava de meu rosto, em passos lentos e calmos, ela caminhava e olhava fixamente em meus olhos, caminhava em direção ao meu rosto, com seu sorriso de morte, de sofrimento. A cada passo que ela dava, o grito em minha mente aumentava. Forçava mais do que nunca para me mexer, forçava tanto que cheguei à exaustão, só pelo esforço sem sucesso. Me restou então apenas observar a figura em minha direção.

             A monstruosidade chegou bem próxima, e lentamente se abaixou, ainda com seu sorriso amarelo na face, e lentamente foi chegando mais perto de meus lábios. Ela estava tão próxima de mim, que já conseguia sentir sua respiração gélida e irregular. Quanto mais ela se aproximava de minha boca, mas eu arregalava os olhos, mais eles se enchiam de lágrimas. E então, quando os lábios secos e rachados de minha esposa quase me tocavam, eu fechei os olhos, esperando o pior acontecer. E, subitamente, os abri. Diante de mim, após todo aquele sufoco e terror, nada mais havia do que uma cama longa e vazia, com lençóis brancos e sujos com meu suor de um pesadelo, que eu jamais esqueceria. 

Paralisia do sonoWhere stories live. Discover now