Parte I

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Nunca me esqueci daquele dia. 5 de Agosto de 2016. Todos estávamos na sala esperando a única coisa que conseguia nos entreter: a repetitiva e interminável novela das 21h. No mundo em que vivemos o entretenimento nunca foi muito valorizado já que o dinheiro é usado apenas para a necessidade e assistir Tv não é uma coisa tão importante quanto comida. Nosso país está falindo, ou já faliu, eu não sei. Antes da novela eles sempre colocavam um jornal no ar dando as melhores notícias possíveis, a única notícia boa do dia era que essa semana iria ter o feriado dos Salvadores. Vou resumir um pouco da história: em 2013 houve uma Grande Guerra pois os Estados Unidos e o Brasil resolveram atacar a Venezuela que defendiam ideais totalmente opostos dos deles. Nosso país, Vermont, apoiou a Venezuela (um grande erro), boa parte do nosso país foi bombardeado pelos Estados Unidos e o pouco que sobrou teve que conviver com o dinheiro restante pois os Eua convenceram os outros países a nós manterem isolados. Com muitos cortes na educação, saúde, previdência etc e ficaram apenas 500.000 habitantes.
- Boa noite, fiquem agora com Coraziones Abiertos - disse Renata, a âncora do jornal.
- Finalmente... - gritou minha mãe. - O único entretenimento que temos é essa novela médica mexicana.
Sorri pegando uma pipoca do balde lotado. A única coisa que não faltava em casa era milho, tínhamos uma plantação no nosso pequeno quintal. Milho hoje, milho amanhã, milho pra sempre.
Coraziones Abertos tinha quase 6 mil capítulos e a emissora não hesitava em exibir o mínimo da única novela que prendia todo mundo na televisão, até a galera da Elite de Vermont.
- Pode entrar capítulo 3.996 - disse Evan, meu irmão mais novo. Na idade dele eu estava assistindo ICarly ou Victorius.
- Aposto que a Kelly vai morrer - disse Raquel enchendo as mãos de pipoca.
- Evan tem 10 anos e Raquel tem 12. Mãe, você acha certo eles estarem vendo uma novela médica mexicana?
- É melhor do que assistir o Jornal Finja que está tudo bem - disse meu pai pela primeira vez na noite. Ele era professor da UFV, Universidade Federal de Vermont e ganhava um salário tão baixo que não dava nem pra matar a fome do nosso cachorro, Milo, que foi doado para Samantha, a única mulher rica do nosso bairro Nova Brasília. Nunca entendi o motivo do nosso bairro ter o nome da capital do Brasil mas dizem que é devido a repressão.
- Matías, noo - Raquel disse tampando os olhos. - Yo te amo.
Meu pai levantou-se anunciando que iria dormir pois estava muito cansado, lhe beijei e fiquei assistindo mais algumas cenas da novela. Sem nenhum intervalo o capítulo de 1h15 parecia uma eternidade, fui deitar sem dar boa noite pra minha mãe, que já estava dormindo no sofá.
Matías foi morto por Gutemberg que amava a Sarah, amante do irmão do Gutemberg que era irmã da mãe de Matías, resumindo: novela mexicana. Nem consegui ver o rosto de Raquel ao descobrir tudo isso. Raquel e Evan estudavam em casa, a mamãe sempre ensinou eles. Depois dos estudos vão trabalhar junto com a mamãe fazendo faxinas nas casas da Elite incluindo a casa de Samantha, onde o gordo Milo estava.
Sonhei com Milo naquela noite. Haviam dois dele que corriam pelo bairro e tranformavam-se em um só. Minha falecida vó acreditava que sonhos eram premonições, talvez ela estivesse certa, em alguns casos mas por que raios existiram dois Milos no mesmo bairro? Sonhar com o cachorro foi até normal se formos comparar os antigos sonhos que tive: morte, usurpação, guerra, fome, medo.
- Acorda Adriaaaaaanaaa - gritou minha mãe da cozinha. - Hoje o senhor Nunes vai te dar uma carona.
Levantei rapidamente vestindo minhas roupas.
- Você não vai banhar? - perguntou minha mãe com um pote cheio de massa de cuscuz na mão.
- Repelente contra o Nunes - sorri tentando passar por cima dos meus irmãos sem pisar neles: difícil missão que mais parecia aquele joguinho Temple Rush.
Tomei o café sem açúcar da minha mãe esperando a reconhecível batida de Nunes na porta. Ele apareceu, 50 minutos depois, com uma cara de tristeza e um chapéu preto na mão. Levei as duas mãos à boca, não conseguia acreditar no que tinha acontecido, não podia ser. Meu pai, ele... Ele estava morto, morto.
- Como... Como aconteceu? - perguntei com a voz trêmula.
- Ataque cardíaco - Nunes segurava o choro. - Ele estava dirigindo e...
Antes que Nunes falasse algo um enorme carro preto parou na frente da nossa casa com uma alta mulher negra magnífica com um vestido branco quase dourado.
- Eu sou Rita Rittinks, a responsável pelo corpo do seu falecido marido. Meus pêsames, vamos assinar os documentos. Você sabe como é a burocracia, não é?
Quando uma pessoa morre em Vermont quem se dá bem geralmente é a família. Os familiares recebem tudo que o morto contribuiu, é bem difícil alguém morrer ou alguém conseguir um emprego mas meu pai tinha conseguido por 25 anos.
- Vocês tem 25 mil dólares. Seus filhos não são obrigados a trabalhar. Espero que use esse dinheiro com sabedoria.
- Foda-se o dinheiro maldito de vocês! - mamãe gritou.
- Repita isso de novo e irei quebrar cada um de seus dedos - Rita olhou bem nos olhos da minha mãe.
- Você não se atreveria - desafiei Rita. - Sua burocaria não funciona aqui no meu bairro, estão em menor quantidade. Um crack e você já está sendo enterrada no meio do milharal.
O barulho chamou a atenção de Evan e Raquel que acordaram assustados abraçando a minha mãe.
- Queridos... - Rita olhou pra mim e depois pra minha mãe. - O Papai de vocês foi pro céu e não há passagem nenhuma que leve vocês até lá.
Senti vontade de matar Rita naquele exato momento mas eu não podia fazer nada que me colocasse atrás das grades pois agora eu era a pessoa mais forte da família, meu dever agora não se resumia apenas a ter dinheiro e sim de proteger-los em qualquer circunstância. Apenas eu, minha família e o mundo escroto de Vermont. Bem vindo!

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