- Uma aventura trovadoresca -
(165 dias)
Enquanto rabiscava as últimas palavras da minha incrível aventura trovadoresca, observei por cima dos óculos um casal que estava parado a poucos metros de distância, em baixo de uma árvore com folhas e galhos velhos.
Os dois pareciam ter a minha idade; estavam sorrindo e distribuindo beijos um para o outro. Típica cena romântica de um filme meloso como "A barraca do beijo" ou qualquer outro filme Teen da Netflix. E ah, eu adoro esse tipo de filme, só pra deixar bem claro.
Por mais que eu nunca tenha entrado num relacionamento sério ou sido cortejada (nossa, aparentei ser uma senhora de idade usando esse vocabulário tão complexo), digamos que eu entenda muito bem sobre o assunto e termo "Relação amorosa".
Aí sempre me perguntam (mentira, não me perguntam nada, só estou falando isso pra deixar o texto mais dinâmico): "Alice, como você entende tão bem do assunto sem nunca ter namorado?". E eu respondo (não respondo nada porque não houve pergunta alguma, mas acho que vocês já entenderam o que eu quis dizer): "Então colega, aqui vai uma lição de vida: nunca duvide das pessoas com mestrado em amores platônicos e crises existenciais, nós somos os maiores entendedores de assuntos do tipo". E isso é uma verdade, sofremos por situações constrangedoras e deprimentes que nos capacitam para enfrentar qualquer problema relacionado ao tema.
Em toda a minha vida tive uns três amores platônicos que me fizeram refletir e chorar por um bom tempo em cada canto do meu quarto. (1) Sim, eu me sinto uma idiota por ter chorado por aqueles moleques e (2) por mim essa raça poderia ser extinta numa boa e (3) eu viveria tranquilamente como uma Amazona em Themyscira, morando apenas com semideusas e ao lado da Mulher Maravilha.
Enfim, aqueles caras foram uns babacas. Não me mereciam. Fim.
Terminei a minha história, guardei os papéis na bolsa e fui até a casa do Thiago, o que deu mais ou menos uns cinco minutos de caminhada. Chegando lá, toquei a campainha duas vezes e na terceira a pressionei por uns dez segundos. Acho que ele vai me matar.
- Hã... Oi. - Ele surgiu abrindo a porta, com o cabelo bagunçado, camiseta de estampa do Darth Vader e olhos inchados.
- Nossa, você tá horrível.
- É... - Ele coçou os olhos. - Madruguei essa noite jogando vídeo - game.
- Muito saudável. - Debochei. - Não vai me convidar pra entrar?
- Ah, desculpa. Eu tô meio lerdo ainda. Só não repare na bagunça, meus pais foram viajar e eu deixei a casa um lixo.
Thiago mora com os padrastos. Quando pequeno foi deixado misteriosamente em um abrigo para menores e até hoje ele não tem uma explicação plausível sobre o seu passado. Particularmente eu acho isso super emocionante porque ele pode ser um filho perdido de algum mafioso italiano ou até mesmo da Angelina Jolie. Mas ele não me leva a sério.
Eu o conheci no ano retrasado quando se mudou para a casa em frente a minha. No dia eu estava sentada na calçada com uma camiseta da Corvinal, minha casa de Hogwarts, e ele olhou para a camiseta, sorriu e veio puxar assunto, até que gostei. Hoje somos melhores amigos.
Fomos até a cozinha, onde ele estava tomando café em cima da mesa, e observei alguns salgadinhos, papéis de bala e latinhas de energético espalhados pelo chão.
- Seus pais vão te matar. - Falei.
- Eles só chegam amanhã à tarde, relaxa. Hoje à noite eu limpo tudo. - Ele piscou. - Mas e aí, qual é a novidade?
- Finalizei minha história trovadoresca. - Tirei da bolsa os papéis e joguei em cima da mesa. - Ainda não acredito que demorei uma semana para escrever seis linhas.
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Alice, a garota solitária.
RomanceFaltam 165 dias para algo acontecer. O pior é que Alice nem desconfia disso.
