• Primeira Parte •

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Dizem que fotografias são reflexos que retratam o que de longe foi determinado momento

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Dizem que fotografias são reflexos que retratam o que de longe foi determinado momento. Fotografias são lembranças, são memorias guardadas em papel.

Abri meu armário e me deparei com duas caixas no espaço superior do móvel, fiquei na ponta dos pés e peguei, primeiro uma, depois a outra. Sentei no chão, como uma criança para brincar, encarei as duas caixas e me apropriei daquela que vinha sempre revelando-se para mim, tinha que abri-la, olhar seu conteúdo, no mínimo duas vezes ao dia. Tirei a tampa, decorada com algum tipo de papel macio como camurça, encarei as fotos que haviam ali e retirei uma a uma, olhando-as com o coração e sentindo a dor da ausência.

Encarei uma, esta era a minha preferida, estávamos pedalando na Orla de Atalaia, ambas olhávamos para a câmera e sorriamos. Uma lagrima desprendeu-se de meus olhos e quase caiu sore a fotografia. Respirei fundo, sentindo aquele habitual nó na garganta de quando tentava prender o choro. Havia uma semana que 'o partir" tinha acontecido e a dor parecia não ter fim.

Li uma vez em alguma página da internet que os amigos verdadeiros são como estrelas no céu, e de fato, agora ela era. Carol e eu tínhamos uma amizade antiga, daquelas cultivadas na infância, que se perdeu no ensino fundamental, mas que voltou com avidez nas classes posteriores. Éramos muito unidas, saiamos juntas, vivíamos uma na casa da outra, planejávamos viagens e até casamentos conjuntamente (ri com essa última lembrança), ela já era considerada pelos meus pais como sua filha, e eu a tinha como uma irmã.

Peguei outra foto, nessa estávamos em meu quarto, aproveitando a luz que vazava pela janela para propiciar melhor qualidade a fotografia. Nesse dia nós fizemos brigadeiro e passamos o dia assistido a series na Tv. Uma tentativa dela de me ajudar a colar meu coração partido. E eu nem imaginava que era o dela que estava em pedaços.

A ideia me fez soluçar, era difícil de entender e eu me culpava grande parte do tempo. Como alguém está com você quase que todo o tempo e mesmo assim você não se dá conta de que algo vai mal? De que a pessoa está sofrendo ali dentro? Eu era sua melhor amiga e não pude ajuda-la e Carol se foi para não retornar.

Meu dia tinha sido corrido, escola pela manhã, onde nos vimos e tudo estava completamente normal, como de costume, tive aula no curso de fotografia à tarde (de todas as quartas) e o pré-vestibular a noite, estávamos a porta do Enem, e revisões para o tal exame explodiam em todos os cursinhos. Mas antes mesmo do fim da primeira aula, meu celular tocou, sai para o corredor confusa, minha mãe não me ligava naquele horário para não atrapalhar a aula, porem ela me disse para encontrá-la na entrada da instituição, caminhei pelos corredores completamente confusa, imaginei que algo tivesse acontecido ao vovô que com idade avançada insistia em morar sozinho. Porém, quando dei de cara com mamãe, ela me envolveu em seu abraço, disse que tinha algo triste para me contar, até ali eu queria ser a garota forte que sempre fui, mas desmoronei quando recebi a notícia: Carol estava morta. Ela tinha cometido suicídio, tinha se enforcado no quarto com a cortina da janela.

Tirei outra foto da caixa, nessa estávamos de biquíni na piscina do condomínio, ela tinha uns doze anos e eu treze, minha mãe tinha tirado a foto, o dedo dela tomava uma parte da imagem, era um borrão marrom. Tínhamos ficado muito tempo expostas ao sol de Aracaju nesse dia, ela quase não conseguiu dormir com a ardência e eu ria da cara de camarão dela.

Na noite em que ela escolheu ir, fiz minha mãe me levar até sua casa. Tinha parado de chorar, só estava com um aperto no peito, aquilo tudo parecia surreal, ela não tinha cometido suicídio, Carol estava bem! - Fui martelando essas palavras em minha mente até alcançar sua rua, a porta da garagem da casa dela estava aberta e pessoas se reuniam lá, havia um carro de polícia com as sirenes piscando silenciosamente enquanto um policial conversava com o pai dela. Adentrei o ambiente e só me lembro dos rostos, como fantasmas, estavam entristecidos e alguns choravam. A ficha, como falam por ai, realmente caiu quando vi seu rosto, pálido, fúnebre, rodeado de flores tristemente colocadas ali. Seu vestido branco tinha uma gola que cobria o pescoço, essa é uma lembrança de Carol que eu adoraria apagar.

Os dias seguintes foram e ainda estão sendo duros de lidar, existe uma quantidade infinita de "porquês" e de 'e se..." que atordoam minha mente, que rodopiam, rodopiam ao meu redor e vão de encontro ao chão. Ela não deixou nada, nem uma carta, uma frase, um vídeo, simplesmente escolheu ir, sem se despedir. Eu não a culpava por ter partido assim, ela devia ter seus motivos, devia carregar sua dor e isso estava sufocando-a. A opção encontrada para seu alivio foi essa... mas, o que me intriga é que ela parecia bem, andávamos sempre juntas, no entanto, ela conhecia praticamente todo mundo da escola, cumprimentava a todos com um sorriso largo na face, conversava com todos de forma bem-humorada, até mesmo com os professores ela era assim. Seus pais eram agradáveis, pessoas gentis e tenho certeza de que ela os amava muito, assim como a mim.

Não sai de minha mente a busca pelo "por que" de sua decisão, eu estava lá para ela e simplesmente Carol nunca disse uma palavra sobre o que se passava verdadeiramente dentro de si. Comecei a pensar que a Caroline alegre que compartilhava quase todos os seus momentos comigo usava uma máscara, tentando ser forte e guardando tudo para si. Essa ideia me invadia e me fazia chorar ainda mais, minha irmã estava a sofrer e eu me encontrava cega, não consegui detectar e ajudar e esses pensamentos somente me levavam a um sentimento: culpa.

Se eu tivesse enxergado sua dor, se eu tivesse dado mais atenção a ela naquela manhã na escola, se eu tivesse faltado a aula de fotografia para passarmos a tarde juntas, se eu não tivesse ido ao cursinho, se eu tivesse sido uma amiga melhor...

Me permiti chorar alto, as lagrimas escorriam por minha face como um temporal, soluços involuntários me desfaziam e me deitei no chão, ao pé da cama no escuro do meu quarto, pronunciando mentalmente minha lista de "e se's".

A porta do quarto se abriu, minha visão estava embaçada pelas lagrimas e só consegui identificar de quem era a silhueta quando se sentou no chão, me segurou pelos ombros e me abraçou fortemente.

- Eu estou aqui... - Sussurrou. - Chore, pode chorar, Ju. Sei que sente a falta dela...

Abracei minha mãe e chorei em seu colo como uma criança desesperada. Ela se limitava a pronunciar palavras de conforto e acariciar meus cabelos.

- Sinto muito a falta dela... - balbuciei entre soluços. - Ela se foi, mãe...

- Sim, meu amor... sinto muito.

- Eu poderia tê-la ajudado...

Minha mãe respirou profundamente, escutei seus pulmões encherem-se e se esvaziar de ar Ela me apertou forte e continuou com seus murmúrios de conforto.

O Partir  [CONTO]Where stories live. Discover now