Capitulo 1.

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Mesmo todo o trabalho intenso e cansativo não era motivo para que Maria Clara sentisse arrependimento de ter vendido o apartamento na cidade e comprado aquela área de terra bem longe do agito das grandes cidades. Seus colegas de trabalho e amigos próximos insistiram que era uma loucura, mas nada a havia feito desistir da ideia. Estava decidido.
Seus pais haviam deixado uma boa herança, garantindo assim o futuro da jovem sem que ela precisasse depender do próprio trabalho para sustentar-se. Mas Maria Clara tinha terminado os estudos e quis arrumar um emprego, alegando que não queria ficar em casa sem fazer nada feito uma "madame", queria trabalhar, conhecer novas pessoas e aprender outras coisas. Quando seus pais tiveram o acidente onde perderam a vida, já completava 2 anos que ela trabalhava na clínica veterinária.
Após o acidente, ficar na cidade, na mesma casa, na mesma rua, indo nos lugares que faziam lembrar dos pais, era muito doloroso. Sem contar para ninguém, começou a procurar terras para comprar, longe dali, indo em agências imobiliárias e pesquisando em anúncios particulares. Foi quando encontrou as terras onde morava agora. Negociou o apartamento, conseguiu fazer uma boa troca e finalmente anunciou no trabalho sua saída, para a perplexidade dos colegas e amigos. Tudo isso tinha acontecido há 4 anos atrás.
Maria Clara secava o suor da testa com a manga da camisa, sacudindo a poeira e a sujeira da calça, enquanto levantava do chão fofo de terra onde estivera ajoelhada tratando das sementes de sua horta. Tinha plantado tomates, alfaces, cebolas e toda espécie de temperos verdes, alguns já crescidos e produzindo frutos e outros ainda nascendo. Ela cuidava da horta com muito cuidado e carinho, pois retirava dali sua alimentação, deixando para comprar no mercado outras coisas que não fossem vegetais, legumes ou frutas, até porque o mercado ficava na pequena cidade mais próxima, uns 15 km de onde ela estava. No quintal gramado e bem aparado tinha macieira, laranjeira, limoeiro e pessegueiro, todos eles produzindo deliciosas frutas durante a época.
A casa que tinha mandado construir não era grande como uma mansão, mas era grande o suficiente para ela e seus cães,  o Pintado e o Chocolate. Eram cães grandes, valentes, ensinados e obedientes, os quais Maria Clara tinha adotado no canil da cidade quando mudou-se. Depois de instalar todos seus móveis e restante da mudança, Maria Clara começou aos poucos organizar e arrumar sua nova morada. Com o resto do material de construção da casa solicitou que fizessem um galinheiro e um pequeno galpão, onde posteriormente, seria a morada para seu cavalo Trovão e suas duas vacas leiteiras, e uma garagem para a velha camioneta do pai, a qual Maria Clara conservava e cuidava com muito zelo. Trouxe um galo e poucas galinhas para habitar o galinheiro, garantindo assim ovos o ano todo e um despertador...
Não tinha empregados, fazia toda a lida sozinha. Arava a terra, plantava, cortava, serrava, pregava, tratava dos animais, fazia tudo sozinha. Algumas vezes até passava pela sua cabeça ter alguma ajuda, mas sabia que era difícil arrumar um bom empregado rural nos dias atuais. Tinha medo de contratar alguém que fosse um bandido ou coisa pior e trazê-lo para dentro de casa. No começo tinha dúvidas em como seria viver sozinha longe da civilização, mas depois acostumou-se. Com o Pintado e o Chocolate em casa, ninguém tocava-lhe num fio de cabelo. Ela também sabia manejar a espingarda do pai, tinha aprendido atirar com ele e tinha uma mira muito boa, além de ter registro de porte de arma. Não pensaria duas vezes em atirar, se disso dependesse sua vida e segurança. Mas os anos haviam passado e tudo corria na mais perfeita tranquilidade.
Saindo do pequeno cercado onde mantinha sua horta, Maria Clara fechou o pequeno portão atrás de si, deixando primeiro passar o Chocolate, que costumava sempre acompanha-la enquanto ela fazia a ronda habitual: tratar da horta, alimentar o cavalo, as vacas e as galinhas, fazer a limpeza dos estábulos, etc. O Pintado costumava deitar na sombra da macieira, perto da cerca do quintal, de onde tinha uma visão privilegiada da estrada de acesso à casa e praticamente toda a redondeza. Não havia o que pudesse passar perto da casa que ele logo não detectasse e desse o alarme. Enquanto um vigiava a casa, o outro vigiava a dona.
  O sol ainda não ia muito alto, portanto a temperatura ainda era agradável naquela época do ano, habitualmente muito quente e seco. Indo em direção ao galpão, passou pelo galinheiro e abriu a portinhola, de onde saíram as galinhas e o galo, ciscando aqui e ali pelo quintal. Seguindo para o galpão abriu a porta, deixando sair as vacas que alegremente trotaram em direção ao pasto. O Trovão terminava a ração, balançando a cabeça para a dona quando esta entrou na cocheira.
  - Muito bem! - disse ela alisando o lombo macio e roliço do grande cavalo negro. Trovão, entendendo a dona, soltou um quase imperceptível relincho como resposta. Depois de escovar as crinas e todo o pelo do cavalo, Maria Clara deixou-o sair, rindo dos pulos e saltos de contentamento que ele sempre dava ao sair da cocheira. Era sua maneira de expressar contentamento.
Pegando na pá, começou a limpeza do galpão, sentindo-se feliz e em harmonia com o lugar e seus habitantes. Sentia que nada poderia estragar aquela vida que havia construído. E jamais imaginaria que algumas surpresas iriam lhe surpreender muito brevemente...

MEDO DO MATO - Primeiro livro da série.Stories to obsess over. Discover now