Resta uma

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O tambor girou pela quinta vez.

A obesa Anabel, em mais um esforço grotesco de uma vida inteira de desleixo, projetou-se para frente da poltrona que lhe abocanhava e devolveu o revólver à pequena mesa circular de mármore, no meio dos três assentos.

Era a vez de Marianela.

Marcelita, a mais jovem das três, teve dificuldades para calcular com os dedos uma conta feita de cabeça por uma criança e deu um suspiro curto seguido de um longo. Sinuosa como uma cobra-coral coberta de joias, ao contrário de sua irmã, despegou-se com facilidade do estofado puído de, no mínimo, duas gerações anteriores, e também se reclinou à mesa num movimento semelhante a uma mola quando fura um assento velho e bamboleia sem juízo. Mas Marcelita não visava ao revólver. Não era sua vez. Não seria mais a sua vez nessa rodada. Ela disputaria a herança de seu pai com a irmã mais velha na próxima rodada.

Trêmula, Marcelita pegou a garrafa de rum da mesa circular e serviu-se de mais uma dose. Desperdiçou a metade em seu vestido de veludo parisiense, incompatível com a morosidade daquela região centro-americana. A pestilência da bebida derramada — parte no vestido, parte no chão — propagou-se e misturou-se ao cheiro de mofo dos móveis podres e dos retalhos amontoados na sala mal iluminada da casa de Anabel. Marcelita virou num gole o pouco que restara no copo. Serviu-se de outra dose. Novamente, metade dentro, metade fora.

Marianela, recostada no espaldar de sua poltrona, presunçosa, com as mãos firmes sob o queixo, não se mexia. Apenas estudava aquela arma cuja bala já tinha destino certo.

As duas irmãs — com seus familiares —, um médico e um juiz testamenteiro de aparência cadavérica assistiam-na reticentes. Marianela, capitã dos fuzileiros navais numa vida confinada nas forças armadas, era a única das três que estava só. Jamais tivera alguém.

— A sorte nunca me acompanhou — resmungou, mal-humorada —, embora eu a agradeça de não ter vivido a vida miserável de vocês duas.

Anabel e Marcelita ignoraram o ultraje. O marido inepto e os filhos insuportáveis de Anabel, sentados nas cadeiras num dos cantos da sala — como uma plateia de tribunal mal improvisada —, ajeitaram-se desconfortáveis e esboçaram uma reclamação, mas ficaram calados. O companheiro de Marcelita, um playboy emergente que ela conhecera há poucos meses num cassino em Monte Carlo, permanecia estático, atordoado em outra cadeira da "plateia".

— Por favor, senhora. Sua vez — disse o juiz, com a cordialidade de um papa-defunto.

— E se eu não quiser continuar? — questionou Marianela, fitando o centro da mesa onde objeto de sua desgraça a aguardava girar o tambor pela última vez.

— O pai de vocês foi muito claro — respondeu, erguendo o documento do colo. O juiz testamenteiro conduzia a disputa sentado próximo às três numa poltrona ao lado do aparador onde a bala da última rodada aguardava a vez de declarar a única herdeira.

— Ele nunca foi claro — resmungou novamente. — Você conhecia aquele traste melhor do que todos nós e sabe muito bem disso.

— É o que está aqui, senhora. Sinto muito — disse, encolhendo os ombros débeis e esquivando-se da observação de Marianela —, não posso fazer nada. Por favor, sua vez. — O juiz indicou com um gesto monótono a arma no centro da mesa.

Quem passava por aquela rua pacata de classe média não desconfiava que dentro da casa de Anabel ocorria o apelo a um recurso judicial controverso, existente apenas naquela província caduca estacionada no século passado. "O que acontece no local fica no local", dizia — entre outras excentricidades — um dos principais parágrafos daquela lei retalhada por emendas contraditórias. Era um recurso irrevogável, e o velho — nunca se soube o motivo — acreditou que, após sua morte, esse seria o melhor jeito de agraciar suas inestimadas filhas.

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